O mistério das manchas na Antártida: imagens de satélite mostram pinguins espremidos em áreas cada vez menores com o derretimento do gelo

 

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Uma série de manchas marrons observadas por satélites sobre o gelo da Antártida levou cientistas a uma descoberta inesperada sobre o comportamento dos pinguins-imperadores, e levantou um alerta sobre o futuro da espécie. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (25) na revista científica Communications Earth and Environment por pesquisadores do British Antarctic Survey.

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Ao analisar imagens da região da Terra de Marie Byrd, na Antártida Ocidental, os cientistas perceberam que as marcas coincidiam com o período em que os pinguins deveriam estar passando pela muda anual, quando trocam suas penas por uma nova plumagem impermeável. A partir daí, a equipe identificou pela primeira vez colônias nesse estágio usando imagens de satélite.

Satélites revelam pressão crescente

Todos os verões, pinguins-imperadores do Mar de Ross percorrem até mil quilômetros em busca de gelo estável para realizar a muda. Essa população reúne sete colônias reprodutivas e pode representar cerca de 40% de todos os indivíduos da espécie no planeta. Tradicionalmente, a Terra de Marie Byrd era considerada uma das áreas mais seguras, com gelo costeiro persistente ao longo do ano.

Ao examinar sete anos de registros de satélite, os pesquisadores identificaram mais de cem agrupamentos de pinguins em muda. Porém, nos anos com menor cobertura de gelo marinho, os animais passaram a se concentrar em áreas cada vez menores, formando aglomerações mais densas.

Entre 2022 e 2024, a extensão do gelo marinho antártico atingiu níveis mínimos históricos. Na área analisada, a cobertura caiu de uma média de cerca de 500 mil km² ao longo de cinco décadas, área comparável à da Espanha, para aproximadamente 100 mil km² em 2023. O gelo costeiro disponível próximo à costa chegou a apenas 2 mil km².

Nessas condições, o gelo se rompeu antes que muitos pinguins terminassem a muda. Esse é um período crítico para as aves: elas passam semanas sem se alimentar e ficam vulneráveis. Se forem obrigadas a entrar na água antes de completar a troca de penas, enfrentam maior gasto de energia, risco de hipotermia e ataques de predadores.

O desaparecimento de grupos inteiros

Os dados mais recentes também levantam dúvidas sobre o destino desses animais. Em 2025, apenas 25 pequenos grupos de pinguins eram visíveis nas imagens de satélite da região, apesar de condições de gelo consideradas mais favoráveis. Antes de 2022, mais de cem agrupamentos haviam sido registrados no mesmo local.

Ainda não se sabe se as aves migraram para novos pontos de muda ou se houve um declínio populacional significativo.

Autor principal do estudo, o pesquisador Peter Fretwell afirmou que os pinguins-imperadores já enfrentam várias pressões ambientais. Segundo ele, a perda de áreas adequadas para a muda representa mais um risco para a espécie.

— Embora não saibamos exatamente o que aconteceu com esses pinguins, sabemos que eles conseguem encontrar novos locais para reprodução quando o gelo desaparece. É possível que tenham estabelecido outros pontos de muda — disse. — Mas também é possível que muitos tenham morrido após entrar no oceano antes de desenvolver penas impermeáveis. Se isso ocorreu, a situação da espécie pode ser ainda mais grave do que imaginávamos.

Os pesquisadores destacam que os pinguins-imperadores funcionam como um termômetro do ecossistema antártico. O gelo marinho sustenta não apenas essas aves, mas também focas, outras aves marinhas e inúmeras formas de vida que dependem do ambiente gelado, de krills a grandes baleias. Monitorá-los por satélite, dizem os cientistas, pode ajudar a entender mudanças mais amplas em todo o sistema polar.