O setor brasileiro de segurança eletrônica faturou mais de R$ 16 bilhões em 2025, alta de 16% sobre o ano anterior, e projeta crescimento de 18,8% em 2026, segundo a pesquisa Panorama da ABESE. A indústria responde por R$ 4,8 bilhões desse total. O restante está em serviço. O dado que explica a mudança do setor não é o crescimento agregado, e sim onde ele se concentra. A portaria remota, em que o controle de acesso de um condomínio é operado a distância por uma central de monitoramento, é a linha com maior expectativa de expansão, projetada em 23% para este ano. Traduzido para o balanço: o negócio deixou de ser vender equipamento e passou a ser operar contrato. A mudança altera o que dá lucro, quando o lucro aparece e o que precisa ser controlado para saber se ele existe. E trouxe junto uma prática que reorganizou o patrimônio dessas empresas: o comodato. A câmera, a central de alarme, o sensor e o rastreador continuam sendo da prestadora. Só que ficam instalados no cliente, explica Thiago Andrade, CEO da Harmonit Sistemas, empresa de software especializada em gestão para o setor de segurança eletrônica, rastreamento e monitoramento. "Uma operação de porte médio tem milhares de equipamentos em comodato espalhados por endereços diferentes. É patrimônio da empresa fora da empresa. E quando ninguém sabe onde cada item está, isso deixa de ser ativo e vira perda silenciosa." O comodato é fiscal antes de ser operacional Comodato tem tratamento próprio na nota fiscal. Remessa em comodato, retorno de comodato, devolução, cada movimento tem CFOP específico e precisa estar registrado. Na prática, muitas empresas do setor tratam a saída do equipamento como despesa e encerram o assunto ali. O item some do controle no minuto em que o técnico entra no carro. O efeito aparece depois. Na hora do cancelamento, ninguém retira o equipamento, porque ninguém sabe que ele estava lá. Na hora do inventário, a diferença entre o que a contabilidade registra e o que existe de fato não fecha. E na hora de uma auditoria, não há trilha que explique o caminho de cada item. Margem por contrato, não por mês O segundo controle que a recorrência exige é o de rentabilidade por contrato. A mensalidade é conhecida. O custo, não. Ele depende do investimento feito na instalação, do tempo que o contrato vai durar e, principalmente, de quantas vezes um técnico precisou ir até aquele cliente ao longo do ano. É comum encontrar contrato que parece saudável na tabela de preços e é deficitário na prática, porque acumula visitas técnicas que ninguém contabilizou contra ele. Enquanto o custo de atendimento é medido no agregado, esse contrato fica invisível. Ele é subsidiado pelos outros e continua sendo renovado. A consolidação premia quem tem base organizada O setor vive um movimento de aquisições, com empresas maiores comprando carteiras regionais. Nesse tipo de transação, o que é avaliado não é o faturamento declarado. É a qualidade da base: contratos ativos com documentação em ordem, histórico de cancelamento, inadimplência real e inventário do que está instalado em campo. Uma empresa que não consegue apresentar essas informações de forma auditável não deixa de ser vendida. Ela é vendida por menos, ou com parte do preço condicionada a verificações posteriores. A organização do dado, tratada durante anos como assunto operacional, virou variável de avaliação. Quando os sistemas não conversam, a conta aparece na inadimplência Há uma peculiaridade técnica do segmento. A operação roda em plataformas de monitoramento e rastreamento, como Sigma Cloud, da Segware, Moni, Fulltime, Getrak, Systemsat e Wialon. A gestão administrativa e financeira roda em outro sistema. Quando os dois não se comunicam, alguém digita a mesma informação duas vezes. E a divergência aparece justamente no dado mais sensível: quem está ativo e quem deveria ter sido desligado. O caso clássico é o cliente que cancelou, continuou sendo monitorado por meses e nunca mais foi cobrado. O prejuízo é duplo. Custo de operação sem receita, e serviço prestado para quem não tem mais contrato. É por isso que o bloqueio por inadimplência integrado à plataforma operacional deixou de ser conveniência e virou controle financeiro. "A segurança eletrônica aprendeu a operar em tempo real na parte técnica e continua operando em planilha na parte administrativa. O crescimento do setor está cobrando essa diferença."
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O maior ativo de uma empresa de segurança eletrônica está instalado na casa dos clientes dela
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