O homem-roomba: como o aspirador de pó, vou desviando dos problemas - QTU Questões do Universo

O homem-roomba: como o aspirador de pó, vou desviando dos problemas

Fonte: Bandeira da fonte

No aniversário de um amigo, reconheço algumas pessoas num grupo próximo.
Resolvo fazer uma social, recomendação do psicanalista.
Ao me aproximar, já ouço uma delas, uma moça com ar contrariado, falar “homem hétero”, “masculinidade tóxica” e “desconstrução”.
Percebo, pelo tom da prosa, que, se ficar por ali, vai sobrar pra mim.
Lanço um “oie!” coletivo, dou um sorriso genérico, faço um giro rápido e parto na direção contrária, rumo a outro grupo.
Já de longe identifico as expressões “ancestralidade”, “privilégio” e “letramento”.
Quem fala é um sujeito de dedo em riste.
Sem pensar duas vezes, solto um simpático “fala, galera!” e já me encaminho para a saída.
Se os dois estavam certos, jamais saberei.
Na volta, o motorista do táxi começa a falar sobre política.
É um cara mais velho.
Diz que sente saudades da época dos generais, que no tempo deles não tinha essa bagunça que está por aí.
Ele me pergunta se concordo com ele.
Pagando de maluco, respondo que o VAR sempre favorece o Flamengo.
Ele, provavelmente rubro-negro, esquece os militares e retruca que a arbitragem ajuda o Palmeiras, não o seu time.
Vou fingindo demência até chegar em casa.
O Roomba é aquele aspirador de pó redondo que faz o trabalho sozinho.
Ele vai pra cá e pra lá pela casa, eliminando a sujeira.
O segredo do seu funcionamento está na maneira como lida com os obstáculos: quando percebe que não dá para ir em frente, imediatamente gira e segue em outra direção.
Nada de ficar insistindo diante de paredes, móveis ou cantos.
Faço psicanálise há anos e o Daudt já apontou diversas vezes a minha tendência de tentar driblar meus problemas.
Porém foi uma prima, que não é terapeuta, mas me conhece desde sempre, que fechou o diagnóstico:
— Você é que nem o Roomba, sempre desviando dos problemas.
Os dois consideram meu comportamento um equívoco, uma forma de empurrar a sujeira para debaixo do tapete e não resolver nada.
Eu, incorrigível, acho que ser um Homem-Roomba é o suprassumo da sabedoria.
Pra quê arrumar confusão à toa?
Não é só em ocasiões sociais que o Homem-Roomba tem o superpoder de achar o caminho mais fácil.
Quem está casado, por exemplo, sabe que há discussões que, com o tempo, se tornam insolúveis.
Melhor não insistir, diria o sábio Homem-Roomba, enquanto desvia do milésimo debate sobre a pasta apertada no meio, a toalha molhada na cama ou uma DR evocando questões mal resolvidas de anos atrás.
As leitoras dirão que a maioria dos homens, especialmente os de meia-idade, age dessa maneira evasiva e um tanto quanto covarde, mas considero que é apenas uma curiosa coincidência.
Acredito que há questões que se resolvem sozinhas com o tempo, é só esperar.
Sentado, de preferência.
O único problema é que as tretas das quais desvio costumam ser vingativas e teimam em voltar para tomar satisfações.
O Homem-Roomba tem trabalhado em escala 7x0 e, mesmo assim, não dá conta.
Resolvi pedir ajuda à inteligência artificial.
Pensei que ela poderia, por exemplo, criar tiradas espirituosas para atrair a simpatia da moça da desconstrução e do cara do letramento.
Ou até algo mais complicado.
Perguntei à IA como resolver uma discussão de casal sobre a pasta de dentes apertada no meio.
Ela respondeu que não tem jeito, o VAR sempre favorece o Flamengo.
Pelo visto, o Homem-Roomba veio para ficar.