Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia. Para ler antes da publicação on-line, direto no seu e-mail, clique aqui para se inscrever.
Na mais surpreendente virada eleitoral da história, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para um inédito quarto mandato. Não haverá tempo para festa, no entanto.
A reação negativa do mercado financeiro e o recurso pela anulação da eleição de Flávio Bolsonaro pressionam o presidente. Nomes como Camilo Santana, Rafael Fonteles, Geraldo Alckmin e André Janones serão importantes na organização da reação do novo governo.
Lula venceu com um país dividido e uma crise financeira contratada, mas só ele teve 64 milhões de votos e tem a caneta para reduzir a temperatura da crise. Terá de agir rápido.
Boa leitura! O governo Lula 4 começa hoje, sem tempo para transição.
Depois da virada histórica no segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia o seu quarto mandato com um mercado financeiro tão hostil quanto no primeiro governo, em 2003, e um ambiente tão conflagrado como na tentativa de golpe de 2023. A maior pressão, contudo, é a da sociedade para que ele faça uma gestão diferente do que foi o governo Lula 3.
Quatro nomes terão lugares privilegiados na formação do novo governo: A surpreendente reeleição de Lula foi um cataclisma para o mercado financeiro.
Apostando na derrota do presidente, o mercado passou a noite de domingo negociando uma alta de 10% do dólar. Hoje e ao longo da semana, a previsão é de queda histórica na Bolsa de Valores de São Paulo.
Os próximos dias serão de tensão, com os investidores estrangeiros em busca de uma fuga para outro país. Será o maior teste da gestão do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que passou dezembro de 2024 e janeiro de 2025 operando para derrubar o dólar de R$ 6,30 para R$ 5,70.
Mau perdedor, Flávio Bolsonaro anunciou que vai pedir a anulação das eleições, o que vai inflamar as ruas com protestos similares aos dos dias seguintes à derrota de seu pai, Jair, em 2022. Lula venceu com um país dividido e uma crise financeira contratada, mas só ele teve 64 milhões de votos e tem a caneta para reduzir a temperatura da crise.
— Já tem gente falando: “o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está mais conservador”. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu.
E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas — disse Lula no discurso da vitória. Durante a campanha, Lula se reaproximou do presidente do PSD, Gilberto Kassab.
Ele também negociou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a indicação do ex-senador Rodrigo Pacheco para a vaga aberta no STF, concessão que vai lhe garantir apoio para aprovar o que precisar até a sua posse. Lula irá apoiar a reeleição de Alcolumbre no Senado e a de Hugo Motta na Câmara, ambos aliados contra o bolsonarismo.
Lula foi surpreendido com a derrota no primeiro turno. De acordo com ministros e assessores, ele aprendeu com as maiores manifestações de ruas da esquerda da história, e a inédita reorganização das redes sociais a sua vitória no segundo turno se deveu menos ao que fez no terceiro mandato e mais à rejeição majoritária da população ao bolsonarismo.
Lula venceu porque o medo do bolsonarismo serviu de combustível para uma virada histórica. Compreender essa realidade será fundamental para reorganizar o novo governo.
A semana será de sangue no mercado financeiro. Totalmente comprados na vitória de Flávio Bolsonaro, o mercado terá perdas grandiosas.
Na pré-abertura do pregão desta segunda-feira, o dólar subiu 10% em relação ao real. O principal fundo de papéis do Brasil em Nova York despencava quase 20%, com os títulos da Petrobras caindo 14%.
A perspectiva é de queda histórica na Bolsa de Valores. O Banco Central vai acompanhar a evolução do câmbio com muito cuidado durante a semana.
É real a possibilidade de um câmbio acima de R$ 6. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento têm pronto um pacote de medidas a serem apresentadas para o presidente Lula para tentar atenuar a reação negativa do mercado financeiro à reeleição.
O pacote inclui várias mudanças no Orçamento proposto para 2027 para buscar um inédito superávit primário, depois das várias medidas tomadas no final da campanha. As ideias que serão colocadas na mesa incluem:
• Contingenciamento de gastos para fazer caber o reajuste do Bolsa Família e a subvenção dos combustíveis; • Mudança do índice de reajuste dos gastos de educação e da saúde, que hoje variam pela receita da União, e passariam a seguir o mesmo indicador do arcabouço fiscal.
A alteração precisa de uma Proposta de Emenda Constitucional a ser votada no Congresso; • Limitação dos gastos parafiscais, especialmente do Fundo Clima ligado ao BNDES.
Em agosto, o presidente Lula deu aval às preocupações dos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento) sobre a necessidade de um ajuste nas contas em 2027, mas a conversa decisiva ficou para depois das eleições. A hora chegou.
Até janeiro, o governo Lula tem uma série de desafios no Congresso: Proibição das bets — A Medida Provisória que proíbe as apostas online perde validade em 25 de novembro, podendo ser prorrogada por outra MP por mais dois meses.
O lobby pró-bets é majoritário no Congresso. Fim da escala 6x1 — A partir de 15 de dezembro, os trabalhadores passam a ter direito a duas folgas por semana sem redução de salário.
No mesmo dia, a jornada máxima semanal passa de 44 para 42 horas, caindo para 40 horas em dezembro de 2027. Setor mais impactado pela mudança, o comércio varejista terá de se adaptar ao novo modelo no início do movimento de compras de Natal.
Não será simples. Antes do fim da 6x1, o governo atual terá de divulgar as regras para categorias com jornadas especiais, como caminhoneiros, servidores de hospitais e trabalhadores de plataformas de petróleo.
O fim da escala 6x1 melhora a qualidade de vida dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, aumenta os custos das empresas com horas extras e novas contratações. Haverá um repasse desses custos para os preços.
Subsídios dos combustíveis — Com disparada dos preços do petróleo provocada pela guerra dos EUA contra o Irã, o governo Lula passou a subsidiar os combustíveis e evitar um repasse de preços para a bomba. O custo, contudo, é alto e crescente.
Com o impasse no conflito no Oriente Médio, o barril está desde setembro acima de US$ 100 e há dez dias não baixa de US$ 110. O governo já gastou quase R$ 50 bilhões e, nos cálculos do mercado, a soma das várias subvenções para diesel, gasolina e etanol está perto de R$ 15 bilhões por mês.
É quase o valor gasto com o programa Bolsa Família. Manter o subsídio no tamanho atual é inviável no médio prazo.
O governo Lula terá duas opções: ou mantém o subsídio no nível atual, explodindo qualquer ajuste fiscal, ou reduz a subvenção e enfrenta um início de mandato com mais inflação e impopularidade. Reforma Tributária — Aprovada depois de mais de 30 anos de tramitação, a nova regra entra em vigor em 1º de janeiro, embora exista uma pressão para o adiamento mesmo dentro do governo.
Para atrasar a implantação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS, que substitui o PIS, Cofins e parte do IPI) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS, que substitui o ICMS e o ISS), seria preciso aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional e obter o voto de 308 deputados e 49 senadores.
Raramente se consegue uma mobilização tão poderosa no fim de ano. Segundo o site Congresso em Foco, desde 1988 apenas oito emendas constitucionais foram promulgadas entre o segundo turno e o fim de dezembro, e todas já tramitavam antes da eleição.
Enquanto isso, os prazos para a implantação da reforma seguem correndo. O Tribunal de Contas da União tem até esta sexta-feira (30) para enviar ao Senado o cálculo da alíquota da CBS.
O Senado tem prazo para aprovar a nova alíquota até 15 de dezembro. Nomeação do STF — Com a vitória, Lula vai nomear o ministro do TCU e ex-senador Rodrigo Pacheco para a vaga do Supremo Tribunal Federal.
A aprovação será fácil. Inflação do El Niño — O Brasil, segundo o Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago, será o quinto país mais afetado pelo fenômeno El Niño, com enchentes e chuvas prolongadas no Sul e no Sudeste e seca no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste.
Haverá quebra na safra e aumento dos preços. Economistas consultados pelo Banco Central estimam que a inflação de 2027 vai subir 0,5 ponto percentual exclusivamente em função do El Niño.
Lula 4 precisa revisar o orçamento do seguro agrícola, o esquema de distribuição de estoques de grãos da Conab e se preparar para ajudar os estados em caso de calamidades. A decisão de Flávio Bolsonaro de pedir a anulação da eleição deste domingo devido à ordem do ministro Cristiano Zanin, do STF, para estender a votação até às 19h atendendo a pedidos do PT e do próprio PL é uma tentativa para manter a mobilização da direita.
O bolsonarismo vai incentivar protestos de rua como se o pedido de anulação tivesse alguma chance jurídica. Nos próximos meses haverá a cruzada pelo impeachment de Alexandre de Moraes, a busca pela eleição de Rogério Marinho para a presidência do Senado e, a partir de 2027, rejeição a tudo que o governo Lula enviar para um Congresso, onde a oposição tem o maior domínio na história recente.
Se, em 2022, com base apenas na paranoia disseminada por Jair Bolsonaro, o bolsonarismo contestou o resultado e provocou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, a extensão do horário de votação neste domingo confere uma base ao menos factual para contestação. Como filho de Jair, Flávio não poderia admitir uma derrota eleitoral, nem deixar de contestar o resultado oficial.
O mito da “eleição roubada” será o maná que ajudará a curar a derrota. A parte prática virá do Congresso nos próximos meses.
A partir desta segunda, a direita tem dois objetivos. De saída, eleger Rogério Marinho presidente do Senado, no lugar de Davi Alcolumbre.
Marinho é o caminho mais rápido para o segundo objetivo, a aprovação do impeachment do ministro Alexandre de Moraes, como vingança pelas condenações de Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro e para evitar a investigação de Flávio Bolsonaro. Com a ajuda das revelações do caso Master, a oposição terá ao menos 50 votos entre os 81 senadores para impedir Moraes.
Haverá uma corrida contra o tempo: em tese, Moraes assume a presidência do STF em setembro, o que poderia dificultar seu impedimento. Em uma conversa difícil no ano passado, quando disse que não haveria candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas pois seria ele o candidato, Flávio Bolsonaro ouviu do senador Ciro Nogueira: “Flávio, você está pronto para ficar sem mandato?”.
Ofendido, Bolsonaro não respondeu. Desde ontem à noite, a perspectiva de ficar sem mandato a partir de fevereiro assombra Bolsonaro.
Seu principal flanco de preocupação é o advogado Willer Tomaz, seu amigo, investigado em ao menos dois inquéritos no Supremo. Há anos, Brasília considera que Willer é Flávio e Flávio é Willer.
Portanto, tudo que for descoberto sobre Willer pode levar a Bolsonaro. A Polícia Federal investiga Willer em um inquérito relacionado ao escândalo do INSS.
A PF escreveu em um relatório que Willer atuava como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” do esquema. Em outro inquérito, a PF investiga Willer por suspeita de lavagem de dinheiro em negócios com bets.
Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, mostrou que ele movimentou mais de R$ 5 bilhões em apostas no ano passado e sacou ao todo mais de R$ 200 milhões, considerando reapostas. O relator desse inquérito é justamente o ministro Alexandre de Moraes, o inimigo número 1 do bolsonarismo.
Na sexta-feira (23), Moraes mandou bloquear até R$ 6 bilhões em bens de Willer, quebrar seus sigilos bancário, fiscal e cambial, suspender seus passaportes e paralisar as atividades de todas as suas empresas. Para terminar, independentemente de Willer, Flávio Bolsonaro é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento do filme “Dark Horse”, para o qual pediu R$ 131 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Assim como acontece com Ciro Nogueira, a partir de fevereiro Flávio Bolsonaro será um senador sem mandato com problemas com a Polícia Federal. A vitória de Lula é uma derrota diretamente proporcional para os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça.
No STF e no TSE, os dois trabalharam pela vitória de Flávio Bolsonaro. O resultado muda a situação de ambos na guerra travada dentro do Supremo.
Com pedidos de vista e decisões, Nunes Marques e Mendonça favoreceram a campanha de Bolsonaro. Nunes Marques teve seu pior capítulo no domingo.
Às 12h38, a coligação de Lula reclamou ao TSE que prefeituras de São Paulo, Salvador e cidades da Bahia não cumpriam a ordem de colocar a frota completa de ônibus nas ruas. Só às 16h01, Nunes Marques tomou uma atitude em relação à Bahia: deu 30 minutos para o TRE baiano pedir esclarecimentos às prefeituras.
Foi atropelado por Zanin, que mandou as prefeituras cumprirem a lei e estendeu o horário de votação. Como disse a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, a guerra iniciada no Supremo com o caso Master é para ver quem indica os próximos quatro ministros que serão escolhidos até 2030.
Mas, se Moraes carrega o peso de ligações financeiras com o banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, Nunes Marques convive com a suspeita de ter sido favorecido por Vorcaro com favores financeiros e o fornecimento de prostitutas. É praticamente impossível Nunes Marques sofrer impeachment num Senado dominado pela direita, mas isso não quer dizer que ele terá forças para ir além da sobrevivência.
A vitória de Lula da Silva dá sobrevida a Moraes. Terá meses para se vingar do bolsonarismo no papel de relator do inquérito que investiga Willer Tomaz, o amigo que pode criar problemas judiciais para um Flávio Bolsonaro sem mandato.
O Globo