O GLOBO/Dellarte: Abertura de série de concertos tem clarinetista Pablo Barragán e Orquestra de Câmara Franz Liszt de Budapeste
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) tinha 35 anos quando escreveu seu “Concerto para Clarinete e Orquestra K. 622” — a última obra que concluiu. Em termos de 2026, seria considerado um jovem adulto. Naquela Viena, porém, a realidade era outra: para o público, tratava-se de uma moda passada, um compositor sem novidades, que já era conhecido desde que tinha assombrado a aristocracia na mais tenra infância do gênio. Ainda trabalharia no Réquiem naquele mesmo ano de 1791, mas sua morte deixou a partitura inacabada.
É diante deste testamento de leveza e virtuosismo fluido que o público da noite de abertura da Série de Concertos Internacionais O GLOBO/Dellarte será apresentado nesta segunda-feira no Theatro Municipal do Rio, a Pablo Barragán, um dos maiores solistas do instrumento de sopro. Sem a contribuição de Mozart, o clarinete levaria mais tempo para ser introduzido na orquestra.
“A abertura do concerto para clarinete de Mozart é uma das mais mágicas, refrescantes e empolgantes de toda a literatura musical. Quando o clarinete entra, a gente se vê diante da energia e do espírito de uma nova era para o instrumento. Mozart escreveu isso para o clarinete basset (variante do clarinete soprano, com extensão maior na região grave) e assim ele apresenta todas as possibilidades de um instrumento que ainda não tinha conquistado o seu lugar entre os instrumentos regulares”, afirmou o espanhol Pablo Barragán à editora Henle.
O interesse de Mozart pelo instrumento era extremamente motivado por sua amizade com o clarinetista Anton Stadler, um colega de maçonaria, para quem também escreveu trechos grandiosos presentes na ópera “A flauta mágica”. Era uma forma de um endividado Mozart conquistar pagamentos entre seus influentes amigos maçons durante seus anos de relativo desprestígio na empobrecida corte austro-húngara, abalada por guerras contra os turcos. O que não significa que tenha sido composto de forma burocrática.
“A transparência, o brilhantismo, a leveza, está tudo ali para construir uma das mais belas passagens de pura alegria”, descreveu Barragán.
Neto de produtores de azeite e filho de uma professora, o espanhol se apresenta ao lado da Orquestra de Câmara Franz Liszt de Budapeste, que executará também as Danças Folclóricas Romenas, do compositor húngaro-romeno Béla Bartók (1881-1945), e o Quinteto de Cordas D. 956, de Franz Schubert (1797-1828). Criada em 1963 por ex-alunos de Conservatório Franz Liszt de Budapeste, um dos principais mantenedores da tradição musical austro-húngara, a formação terá regência do violoncelista István Vardai. Orquestra e solista já lançaram juntos o álbum “Szinergia” (Sinergia), em outubro de 2024, em que exploram as peças de Bartók.
Coração do recital, a suíte de sete danças de Bartók, extremamente calcada no interesse musicológico do compositor por temas populares, foi escrita originalmente para violino e orquestra. Transposta para o clarinete, a obra de calorosa vivacidade e irresistível molejo (repare em como as cabeças “dançarão” ao som que virá do palco) ganha uma abordagem em que o timbre de Barragán também assume um caráter fantasmagórico, quase de theremin (instrumento eletrônico russo, “tocado” pela aproximação das mãos num campo eletromagnético).
Em São Paulo, Barragán e o conjunto se apresentam no sábado, dia 25, às 20h30, como parte da Série Tucca, no Teatro Cultura Artística, também com as obras de Mozart. Em vez de Bartók e Schubert, serão apresentados a Valsa Mefisto, de Liszt, e o Concerto para Violoncelo op. 129, de Schumann.
