O erro que mais vejo líderes do varejo cometerem com IA - QTU Questões do Universo

O erro que mais vejo líderes do varejo cometerem com IA

Fonte: Bandeira da fonte

Muitos líderes do varejo ainda tratam a IA como uma ferramenta para cortar funções ou acelerar processos existentes.
Por isso, a pergunta que mais ouço é qual função ela vai substituir.
É a pergunta errada — e está custando caro.

Há uma dimensão que continua essencialmente humana: a capacidade de conduzir pessoas em torno de um objetivo comum.
Empresas não funcionam apenas por meio de processos e métricas.
Elas dependem de confiança, de disposição para enfrentar escolhas difíceis e de um entendimento compartilhado sobre o que precisa ser feito.

A maioria das empresas vai desperdiçar o potencial da IA.
Não por falta de tecnologia, mas por usá-la para acelerar um jeito de trabalhar que já não faz sentido.
Automatizar um processo ruim não resolve o problema.
Produzir mais conteúdo não garante relevância.
Decidir com mais rapidez não assegura decisões melhores.

Um modelo pode apresentar cenários, sugerir alternativas e identificar padrões.
Mas não responde pela consequência de uma decisão impopular, nem percebe todas as nuances de uma conversa delicada.
Por isso, a IA não reduz a importância da liderança, mas torna sua qualidade ainda mais relevante.

Durante muito tempo, crescer no varejo significou ampliar estrutura.
Era preciso contratar mais pessoas para criar campanhas, organizar catálogos, atender clientes, montar relatórios, negociar com fornecedores e coordenar operações cada vez mais complexas.
Esse modelo continua existindo, mas está sendo redesenhado pela inteligência artificial.

A IA reduz o tempo e o custo de atividades que, até pouco tempo atrás, dependiam de equipes inteiras.
Empresas já conseguem testar variações de campanhas em poucos minutos, automatizar etapas relevantes do atendimento, organizar informações dispersas e analisar grandes volumes de dados.

Esse movimento não é abstrato: acompanhamos essa transição todos os dias em 180 mil lojas no Brasil e na América Latina que usam tecnologia para ganhar agilidade em operações, marketing e atendimento.
Não se trata de uma transformação futura.
Ela já está em andamento, ainda que avance em ritmos diferentes entre empresas e setores.

O debate sobre quais funções a tecnologia pode substituir desvia a atenção do ponto central.
A questão não é apenas quais tarefas serão automatizadas, mas como as empresas precisam se reorganizar quando uma parcela significativa do trabalho passa a ser feita de outra forma.

Em qualquer negócio, o trabalho se organiza em torno de três dimensões: construir, decidir e mobilizar pessoas.
Construir é desenvolver produtos, campanhas, páginas, processos e modelos financeiros.
Decidir é definir prioridades, avaliar riscos, escolher investimentos, calibrar compras e determinar o momento de lançar uma iniciativa.
Mobilizar pessoas é alinhar expectativas, construir confiança, negociar interesses e dar clareza a uma direção comum.
A IA está transformando as duas primeiras em velocidade inédita, mas torna a terceira ainda mais decisiva.

A inteligência artificial já transforma a maneira como construímos.
Ela acelera a produção de conteúdo, código, análises e fluxos operacionais.
Também amplia a capacidade de decidir com base em grandes volumes de informação, como em previsão de demanda, precificação, recomendação de produtos e gestão de estoques
À medida que construir e decidir se tornam mais rápidos e acessíveis, mobilizar pessoas se torna ainda mais relevante.
Com a operação simplificada, o líder tem menos onde se esconder.
Acompanhar planilhas, cobrar entregas e administrar rotinas concebidas para outra realidade não será suficiente.
O desafio será formar equipes adaptáveis e dar clareza sobre a direção da empresa.

A transformação não começa com a compra de uma ferramenta nem com um plano para aplicar IA em toda a empresa.
Começa por um problema concreto.
Para o pequeno e médio varejista latino-americano — que frequentemente opera com equipes enxutas, orçamento limitado e pouco tempo para errar — esses problemas estão no atendimento repetitivo, no cadastro de produtos, na criação de campanhas ou na consolidação de dados que consome horas da equipe.
É nesses pontos de atrito, onde há repetição, demora e retrabalho, que a tecnologia tende a gerar valor mais rapidamente.

O teste precisa estar ligado a um resultado de negócio.
Automatizar respostas só importa se melhora a experiência do cliente ou libera a equipe para resolver problemas mais complexos.
Produzir mais conteúdo só faz sentido se aumenta conversão, reduz custo ou acelera o aprendizado sobre o que funciona.
Para negócios que não têm estrutura para desperdiçar recursos, velocidade por si só não é resultado.

É aí que a IA pode alterar a escala de operação desses negócios.
Um pequeno lojista pode testar campanhas, organizar seu catálogo e analisar o desempenho da loja com uma autonomia que antes exigia especialistas ou várias áreas envolvidas.
Quando marketing, operação e atendimento ganham ferramentas para testar, analisar e executar com mais autonomia, o trabalho deixa de depender de longas filas e funções rigidamente separadas.

O papel da liderança é dar direção, definir limites e criar as condições para que essa autonomia se traduza em decisões melhores — não apenas em uma operação mais movimentada.

*Alejandro Vázquez é cofundador e presidente da Nuvemshop e empreendedor Endeavor
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