O dia depois de amanhã

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Essa não muito prazerosa eleição vai acabar amanhã. E independentemente de quem ganhar, certas questões existenciais terão que ser endereçadas.

Não ter uma estratégia simplesmente implica que os fatos vão se impor a você, e não o contrário. Vamos supor, talvez uma suposição otimista, que o governo eleito queira assumir uma postura propositiva.

Qual seria essa agenda na área econômica? O Brasil tem dois grandes problemas, um é conjuntural e o outro, estrutural.

Os dois se autoalimentam, apesar de serem distintos. O conjuntural é a combinação explosiva de dívida e juros altos.

Uma dívida de 83% do PIB com juros reais de 9% e com déficit nominal acima de 9% do PIB ao ano é a definição óbvia de algo insustentável. É uma bomba armada, só falta acender o pavio.

O problema é que a conjuntura até agora, com forte crescimento eleitoreiro dos gastos e do crédito, pressão nos preços energéticos e baixo desemprego, impede o Banco Central de baixar os juros mais rapidamente e cumprir a sua meta de inflação. Ao mesmo tempo, temores fiscais geram um forte prêmio na curva de juros, encarecendo mais a rolagem da dívida tanto para o setor público quanto para o privado.

Mas essa conjuntura está virando. O consumidor está superendividado e isso afeta o consumo negativamente.

Já está havendo uma desaceleração da atividade, e a depender do resultado da eleição, a taxa de câmbio pode apreciar. Essa conjuntura abre uma janela de oportunidade para uma queda mais rápida dos juros se o novo governo agir racionalmente e colocar na mesa um programa de ajuste fiscal no início do seu mandato.

Com a queda da taxa de juros real, o déficit nominal vai cair, e a trajetória da dívida vai sofrer uma inflexão para baixo. Com essa dinâmica em curso, o governo então deveria repensar a atual meta de inflação do Banco Central, para aliviar a sobrecarga perene que impomos sobre a política monetária.

Quebrar a relação dívida-juros é algo existencial. E não há tempo a perder: em recente trabalho, o economista Manoel Pires e seus coautores (veja “Sustentabilidade da Dívida Pública e Fadiga Fiscal: Estimativas de Postura Fiscal para o Brasil”) mostram evidências empíricas de que o Brasil se encontra em uma situação de “fadiga” na tentativa de executar uma política fiscal sustentável — o esforço necessário é tão grande que não é imaginável esperar que o necessário seja feito no futuro.

As conclusões de Pires e seus colegas são profundamente pessimistas. A experiência dessa eleição parece comprovar esse pessimismo.

Se de fato estamos em um estado de fadiga fiscal, a “solução” ao nosso sobre-endividamento será uma alta forte e inesperada da inflação. Mas não podemos nos entregar a esse pessimismo.

A racionalização do gasto público com a desindexação do Orçamento seriam rapidamente reconhecidas pelos mercados com uma oferta maior de investimentos. Isso abriria espaço para enfrentar o nosso segundo problema, a produtividade.

Nossa produtividade como economia é péssima. Como sociedade, temos consistentemente privilegiado qualquer outra agenda que não a da produtividade.

Uma economia como a nossa, que já não pode contar com um bônus demográfico e tem baixa taxa de poupança, que limita a taxa de investimentos, só vai crescer de forma sustentável com o aumento de produtividade, especialmente com o esgotamento do ciclo de endividamento patrocinado pelo governo Lula.

Não sobrou mais nada: ou aumentamos a nossa produtividade ou estamos condenados à estagnação e à crise. Mas aqui também, ironicamente, há ganhos fáceis, alcançáveis pelo fato de nossa situação atual ser tão ruim.

Uma agenda focada em desregulamentação, abertura organizada da economia e incentivos à adoção da IA (especialmente no setor público) pode, em um ambiente de queda de juros e maior atividade nos mercados de capitais com entrada maior de investimentos estrangeiros, ser parte de um novo ciclo virtuoso que, diferentemente do que vivemos estes últimos anos, não seria somente um artefato de um ciclo insustentável de gastos e crédito.

A situação é crítica. Não vamos aguentar mais quatro anos de equívocos.

Que

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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