'O deus da carnificina': peça premiada já adaptada em 30 países ganha montagem de Rodrigo Portella

 

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Encenada pela primeira vez há 20 anos, na Suíça, a premiada peça “O deus da carnificina”, da francesa Yasmina Reza, segue tão atual que poderia ter sido escrita ontem — e esse foi um dos motivos que levou a atriz Anna Sophia Folch a idealizar uma nova montagem do texto, que estreia nesta quinta-feira (23) no Teatro TotalEnergies, no Rio de Janeiro. Dirigido por Rodrigo Portella, o espetáculo é estrelado por Anna, Karine Teles, Thelmo Fernandes e Ângelo Paes Leme. Na trama, dois casais de elite marcam um jantar após o filho de um dar uma surra no do outro, mas a aparente harmonia rapidamente vira caos.

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Adaptado em mais de 30 países —em elencos com nomes como Isabelle Huppert, Ralph Fiennes e Jeff Daniels, na gringa, e Orã Figueiredo, Julia Lemmertz, Paulo Betti e Deborah Evelyn, aqui (em 2010, com direção de Emílio de Mello)—, o texto que reflete sobre os limites entre civilidade e barbárie também virou filme de Roman Polanski em 2011, com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.

Em 2010: Julia Lemmertz, Paulo Betti, Orã Figueiredo e Deborah Evelyn em "O deus da carnificina"

Mônica Imbuzeiro/Agência O Globo

— O texto (com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro) trata de um tema universal, e achamos que seria interessante trazê-lo para cá de novo. É uma crítica a pessoas de uma determinada classe social que são aparentemente muito civilizadas, mas escondem várias outras camadas por baixo da superfície — comenta Anna, que produz o espetáculo com Felipe Valle. — Pensando nisso, a gente convidou o Rodrigo para dirigir, porque ele tem uma visão muito apurada, cuidadosa e política do ser humano.

Sem ter assistido à montagem anterior e com as lembranças da época da estreia do filme de Polanski, Rodrigo cita como referências para a adaptação os filmes “O anjo exterminador” (1962), de Luís Buñuel, e “Triângulo da tristeza” (2022), de Ruben Östlund. Para ele, a peça ajuda a refletir sobre a condição humana:

Versão para o cinema com Jodie Foster, John C. Reilly, Christoph Waltz e Kate Winslet

Divulgação

— Tenho me envolvido em espetáculos que tentam complexificar o ser humano e olhar para os indivíduos como figuras extremamente contraditórias. Nesta peça, os personagens são maus e bons. Não dá para ser maniqueísta, é como um apelo contra a polarização.

Premiado pelo trabalho em peças como “Tom na fazenda” e “(Um) ensaio sobre a cegueira”, o diretor busca cumprir um papel:

— Estou tentando fugir de uma ideia de que a essência humana é a barbárie. Se a gente naturaliza que o ser humano é violento, isso serve ao discurso de ódio e à banalização dessas ações.

Uma panela de pressão

Toda a ação ocorre na sala de jantar de Verônica (Karine Teles) e Michel (Thelmo Fernandes), casal cujo filho foi agredido. Ela, escritora, culta e estudiosa das mazelas da África. Ele, um cara simples que ascendeu por meio do trabalho. Do outro lado, estão os pais do agressor: a recatada Ana (Anna Sophia Folch), e o advogado inescrupuloso Alan (Ângelo Paes Leme), interpretados por atores que são um casal na vida real.

Cada um a sua maneira, os personagens passam por um arco de transformação, em que emergem conflitos que vão muito além da briga entre os pré-adolescentes — de insatisfações com as próprias escolhas de vida a problemas no casamento e acordos antiéticos no trabalho. Da cordialidade inicial, o encontro vai degringolando para uma tragicomédia com agressões verbais, físicas e até cenas escatológicas, que rompem de vez com qualquer decoro e civilidade.

Michel e Ana assumem uma postura mais conciliatória — que logo cai por terra —, enquanto Alan e Verônica são mais combativos e se preocupam em defender cada um o seu lado na discussão. Representando arquétipos sociais opostos, os dois têm alguns dos diálogos mais interessantes da peça.

Karine Teles, Anna Sophia Folch, Ângelo Paes Leme e Thelmo Fernandes em "O deus da carnificina"

Divulgação/Annelize Tozetto

— São alegorias que representam os nossos maiores desafios. A humanidade ainda recorre muito à violência como ferramenta de resolução de conflito. Ao mesmo tempo, muita gente acredita que o diálogo é a melhor maneira de transformar as coisas. O Alan acha que o mundo não tem jeito, já a Verônica diz que a gente precisa acreditar numa melhora possível. Ela representa esse desejo de mudança a partir do diálogo — diz Karine Teles, que conta se identificar com esse traço da personagem.

Corroborando a visão de Rodrigo, Ângelo Paes Leme complementa:

— Existe um empobrecimento do discurso e das próprias relações. Cada vez mais estamos tendo uma visão simplista que busca definir o bom e o mau, e que não enxerga o que está no meio. A peça ressalta que existem outras tonalidades. Se as pessoas tiverem uma leitura mais profunda do ser humano, levando em conta as contradições, a gente começa a aceitar melhor o ponto de vista do outro.

Enquanto os personagens revelam suas camadas escondidas, o patriarcado também surge como grande tema de reflexão, que permeia as relações entre eles, e especialmente a construção de identidade dos pais, que, descobrimos, também tiveram comportamentos violentos na época de escola. Em tempos em que a misoginia pode vir a ser enquadrada como crime no país e que conteúdos redpill tomam conta da internet, o elenco e o diretor, todos com meninos adolescentes em casa, contam que o texto gerou horas de conversa sobre a criação dos jovens.

— Queremos que nossos filhos venham assistir a um ensaio para debatermos com eles. A ideia é estender a conversa para essa garotada que estamos nos esforçando para criar de uma maneira diferente — finaliza Anna.

Serviço

Onde: Teatro TotalEnergies, Glória.

Quando: Qui a sáb, às 20h. Dom, às 17h. Até 7 de junho. Estreia quinta (23).

Quanto: às quintas, de R$ 50 (plateia lateral) a R$ 150 (plateia central). De sex a dom, R$ 150 (qualquer setor). Assinante O GLOBO paga meia em até dois ingressos.

Classificação: 14 anos.