O Crítico Antigourmet | Sanduíche de pernil do Estadão entrega o que promete porque nunca prometeu nada

 

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Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever.

Em nossa série sobre comidas-patrimônio de São Paulo, não poderia faltar o Estadão. Aberto 24 horas, ele não serve apenas comida; serve de refúgio, de ponto de encontro, de cura para fomes da madrugada e melancolias urbanas. Eleito como um dos melhores restaurantes tradicionais do mundo pelo Taste Atlas, mesmo guia que colocou o queijo da Canastra como “melhor do mundo” — o que prova que, às vezes, esses guias gastronômicos têm a mesma precisão de um horóscopo genérico.

Icônico

Pedi o icônico sanduíche de pernil. Nas duas primeiras mordidas, o sanduíche até que passa. As proporções não são pantagruélicas como no tradicional sanduíche de mortadela do Mercadão, há algum grau de trabalho ali. Cozinhar razoavelmente um pernil é certamente mais complexo do que mortadela cortada pura.

O pão francês, encharcado até a medula pelo molho, perdeu qualquer pretensão de crocância. Ele não é protagonista, mas serve de barreira quase inútil contra a quantidade de pernil desfiado que transborda pelas laterais. A carne é grosseira, não está propriamente seca, nem é exatamente insossa. Mas é uma montanha de fibras suculentas, temperadas com a covardia automatizada de quem faz a mesma coisa todos os dias, há décadas. Cada pedaço de cebola e tomate que se encontra no meio é um pequeno milagre, um contraponto de acidez em um oceano de oleosidade monótona.

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Amigo na madrugada

E é aí que reside a verdade sobre o Estadão. Ele não é o melhor sanduíche de São Paulo. Certamente, nunca foi. Sua genialidade não está na excelência culinária, mas na sua existência. Ele é o amigo mediano que atende o telefone às quatro da manhã. Não vai te dar o melhor conselho, mas vai te ouvir. Não vai te fazer rir, mas vai impedir que você chore sozinho.

O sanduíche do Estadão não é para ser apreciado, é para estar lá. É um produto da necessidade da madrugada, não do desejo gastronômico. É o alimento que a cidade merece quando já está cansada demais para exigir algo melhor. É, de fato, um patrimônio. Não pelo que entrega, mas por nunca deixar de entregar.

Todas as visitas do crítico são pagas pelo GLOBO e feitas sem qualquer aviso prévio.

Estadão, no Centro de São Paulo

Ian Oliver

ESTADÃO | Serviço

📍 Endereço:   Rua Major Quedinho, 106 — Centro, São Paulo

📞 Telefone:   (11) 3257-7121

⏰ Horário de Funcionamento:

• todos os dias, 24 horas

🍽️ Especialidade: Sanduíche de pernil

👀 Ambiente: Popular, barulhento, funcional; refúgio da madrugada paulistana

💲 Preço médio: $$ (compatível com a proposta)

📝 Avaliação: ⭐✰✰✰✰

Uma experiência satisfatória e funcional: sem brilho técnico ou ambição gastronômica, mas adequada ao contexto, ao horário e à função que se propõe a cumprir.

Classificação: Ruim ✰✰✰✰✰ | Satisfatório ⭐✰✰✰✰ | Bom ⭐⭐✰✰✰ | Muito bom  ⭐⭐⭐✰✰ | Excelente ⭐⭐⭐⭐✰ | Excepcional ⭐⭐⭐⭐⭐