O Crítico Antigourmet | Anatomia de um ícone cansado: a coxinha do Veloso
Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever.
Em algum lugar no mundo das ideias, existe a Coxinha Platônica. Visualmente, ela tem forma de gota, delicadamente alongada, com ponta definida, casca dourada e uniforme sem manchas escuras ou palidez triste. O empanamento é fino. Na mordida, ela tem que ser sequinha e crocante. A massa é úmida, macia, quase cremosa, feita com caldo de frango de verdade. O recheio, feito de frango desfiado, deve ser suculento e brilhante. O tempero? Alho, cebola, salsinha. Nada muito além disso.
Para muitos, a coxinha do Veloso é a que mais se aproxima desse tipo ideal. Para mim, embora a técnica de execução seja ótima, massa e recheio sofrem com os atalhos das decisões que eles tomam na construção do sabor.
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Estruturalmente, a coxinha do Veloso encontra seu grande mérito: a fritura. O empanado chega sequinho e crocante, leve, apenas abraçando a massa. A proporção massa x recheio também é correta e apenas por esse motivo ela já estaria à frente da maioria dos patrimônios de São Paulo, como o sanduíche de mortadela do Mercadão , cuja fama advém exatamente do excesso desproporcional e pantagruélico.
A massa anêmica e o recheio industrial
O recheio aprofunda a decepção. O frango, embora temperado, tem seu sabor diluído por um catupiry pesado e industrial, que serve como um uma espécie de Photoshop para mascarar os defeitos, suavizar tudo, maquiar o frango seco, dando-lhe uma cremosidade/umidade que deveria vir do próprio refogado.
"Para muitos, a coxinha do Veloso se aproxima de um ideal platônico. Para mim, embora a execução seja ótima, massa e recheio comprometem"
Ian Oliver
Pior: a ave não é desfiada, mas processada. O resultado é uma pasta homogênea, uma bola de gordura e proteína que se assemelha a um patê industrial, com textura de pano úmido na boca. Falta mordida, falta a presença do frango, cuja integridade foi desfigurada pelo processamento.
A coxinha do Veloso não é ruim, mas também não é boa. Acerta na fritura, erra no recheio. Um patrimônio que tem valor sensorial, o que é raro.
Não, a coxinha do Veloso não é péssima. Dizer isso seria uma simplificação tão grosseira quanto dizer que ela é excelente. É um ídolo que envelheceu mal, satisfeito com a própria fama. É uma boa coxinha para comer sem pensar no que está comendo, mas ainda muito distante da coxinha platônica que querem fazer crer que ela seja.
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"A coxinha do Veloso é um patrimônio que tem valor sensorial, o que é raro. Mas é um ídolo que envelheceu mal, satisfeito com a própria fama"
Ian Oliver
VELOSO BAR
📍 Endereço: Rua Conceição Veloso, 54 – Vila Mariana, São Paulo
🍴 Tipo de cozinha: boteco paulistano
🍣 Especialidade: coxinha e capirinha
💲 Preços: coxinha - R$ 6 a unidade
🪑 Ambiente: clássico boteco de esquina, sempre cheio, barulhento e vibrante. Mesas na calçada são disputadíssimas
👥 Público: um dos pontos mais democráticos de São Paulo, reunindo de estudantes a executivos, todos em busca da famosa coxinha
🏆 Destaques:
– Fritura impecável, sequinha e crocante
– Proporção correta entre massa e recheio
⚠️ Pontos de atenção:
– Massa sem sabor, feita apenas com farinha, água e sal
– Recheio com frango processado (não desfiado) e excesso de catupiry industrial
– Textura do recheio pastosa e uniforme
📝 Avaliação: ⭐⭐✰✰✰
Indica uma experiência decepcionante, marcada por atalhos que comprometem o resultado. A execução da fritura é boa, mas a alma do produto (massa e recheio) é displicente
Classificação: Ruim ✰✰✰✰✰ | Satisfatório ⭐✰✰✰✰ | Bom ⭐⭐✰✰✰ | Muito bom ⭐⭐⭐✰✰ | Excelente ⭐⭐⭐⭐✰ | Excepcional ⭐⭐⭐⭐⭐
