O Cordão do Boitatá no circuito dos megablocos: 'Disputamos esse lugar e merecemos estar aqui'

 

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Quando o Cordão do Boitatá levou o estandarte para a rua pela primeira vez, o Centro do Rio ficava às moscas nos dias de carnaval. Fundada em 1996 como um grupo musical que se inspirava em festas populares, a banda, formada por oito amigos, partiu do Largo de São Francisco de Paula tocando e cantando marchinhas, gênero que quase não se ouvia mais nos folguedos de fevereiro. Foi um dia de farra, que reuniu um punhado de pessoas e terminou com a certeza de que, no ano seguinte, eles fariam de novo. Mas o grupo não imaginou que estivesse plantando uma revolução.

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A partir de então, o crescimento do Boitatá ajudou a alavancar a expansão do próprio carnaval. O Centro foi tomado por novos blocos, muitos seguindo o formato acústico, com resgate das fantasiais e de clássicos da música brasileira, como faz o cordão. O avanço da folia na região gerou bandas de tudo que é tipo e se espalhou para outras áreas. O tradicional carnaval de rua no Rio, terra de blocos ancestrais como Cordão do Bola Preta e Cacique de Ramos, multiplicou-se várias vezes desde a virada do século até se tornar uma locomotiva da economia, atraindo milhões de moradores e turistas.

Considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Rio, o Boitatá celebra 30 anos com estilo, desfilando pela primeira vez na Rua Primeiro de Março, em área reservada para os "megablocos" do Circuito Preta Gil, amanhã de manhã. É um privilégio não só porque o mundaréu de foliões e os mais de 240 músicos terão bastante espaço, mas também porque, ali, os cortejos têm amplo apoio da prefeitura (coisa que a gente não vê em outros locais). No circuito, há bem mais banheiros químicos, as ruas estão sempre fechadas para o trânsito e os agentes não permitem ambulantes com aqueles enormes carrinhos de ferro que atrapalham demais os cortejos.

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Trata-se de um espaço onde astros da música pop, além do Monobloco e do tradicional Bola Preta, lideram festas para centenas de milhares de pessoas. Mas, diferentemente de uns ou outros, o Boitatá ralou muito para conquistar aquele chão. Foram anos lutando por um trajeto que acomodasse o seu séquito gigante e também a sua história, mas sendo obrigado a desfilar em ruas apertadas, cheias de veículos estacionados, de ambulantes com carrinhos enormes no meio do caminho e lidando com trânsito em vias que deveriam ter sido fechadas para o cortejo.

- Com o crescimento do bloco, precisávamos dialogar com o poder público, definir trajeto e contar com apoio logístico. Quem brinca o carnaval em larga escala precisa ter responsabilidade. Mas, desde que começou essa conversa, em 2009, fomos jogados em ruas que não nos comportam e ficamos muitas vezes sem ajuda - conta o maestro Kiko Horta, um dos fundadores, sabendo que agora pisa em um terreno de blocos ligados a empresas com estrelas pop no palco. - Chegamos aqui com muita luta e sem abrir mão da nossa identidade. Somos um bloco independente com raízes na rua e na cultura nacional. Disputamos esse lugar e merecemos estar aqui.

Ala de estandartes do Cordão do Boitatá

Divulgação

Quando um bloco entra na agenda oficial da prefeitura, o poder público assume funções como fechar as ruas do trajeto para o trânsito e impedir estacionamento de veículos. Mas, em muitas ocasiões, o Boitatá desfilou esmagado por fileiras de carros, caçambas e outros obstáculos. Ano retrasado, o cortejo chegava na Praça Tiradentes com 30 mil pessoas quando Kiko viu carros circulando numa rua que deveria estar interditada para o bloco. Policiais chegaram a dizer que o Boitatá não poderia passar e teria que acabar. Só fecharam o trânsito depois de uma acalorada discussão.

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- A gente faria nossa dispersão na praça. Agora, imagina como seria a dispersão de um bloco daquele tamanho numa rua com vários carros passando? Poderia causar acidentes. A praça também estava toda cercada por grades. A gente que foi obrigado a tirar para que toda aquela gente pudesse entrar - relembra o maestro, que parou até de se fantasiar por causa desse tipo de situação. - Eu só usava as fantasias mais ridículas que encontrasse, mas parei com isso há anos. Porque, quando é necessário resolver esse tipo de problema, perde o sentido. Foram muitos perrengues ao longo do tempo.

Homenagem para Preta Gil no cortejo

Kiko, que também é sanfoneiro de mão cheia, tem trabalho autoral e toca ao lado de cantores como Martinho da Vila e Roberta Sá, encara a chegada no Circuito Preta Gil como um recomeço do diálogo com o poder público bem quando a banda completa 30 anos. Para essa ocasião especial, o repertório do Boitatá, que inclui joias de diferentes gêneros nacionais com arranjos próprios e é fruto de muita pesquisa e muito ensaio, foi encorpado com homenagens a Preta Gil e Hermeto Pascoal. Segundo o maestro, estão todos prontos pra fazer bonito no maior palco do carnaval de rua do Rio.

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Quando o cordão estreou, ninguém imaginava que um dia a cidade teria um circuito para megablocos. O carnaval de rua faz parte da identidade do Rio, tem raízes em brincadeiras importadas da Europa no século XVI. Nos anos 1990, a folia carioca, fora da Avenida Sapucaí, já era, claro, uma grande festa, com blocos como Simpatia É Quase Amor, Cacique de Ramos e Cordão do Bola Preta atraindo bastante público. Havia também os bailes, a celebração dos bate-bola e as batalhas de confete, principalmente nas periferias. Mas havia muito menos cortejos e muito menos gente.

Hoje, são mais de 440 blocos apenas na agenda oficial. Há outros tantos que não pedem autorização, mas estão amparados pela Constituição Federal, que garante o direito à expressão cultural em locais públicos. Estima-se que a cidade receberá cerca de 7 milhões de pessoas interessadas em curtir os blocos. De acordo com um estudo de 2018 da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Cordão do Boitatá gerou um impacto direto de R$ 28 milhões para a cidade naquele ano com seu cortejo e o Baile Multicultural, que o grupo realiza na Praça XV todos os anos, no domingo de carnaval.

- A gente sempre fez carnaval para a cidade. Carnaval no Rio é senso de comunidade. Essa é nossa grande força, é isso que move o bloco - afirma Kiko Horta.

O mestre Mangueirinha em meio à bateria do Cordão do Boitatá

Guito Moreto