O coração da mulher precisa virar prioridade
A doença cardiovascular continua sendo a principal causa de morte entre mulheres no Brasil e no mundo, e esse dado ainda surpreende. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 8,5 milhões de mulheres morrem anualmente por doenças cardiovasculares, cerca de um terço de todas as mortes femininas globais. No Brasil, dados do DataSUS mostram que essas doenças respondem por aproximadamente 400 mil óbitos por ano, sendo quase metade deles em mulheres.
Infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral superam amplamente o câncer de mama e o câncer de colo do útero como causa de mortalidade feminina. Ainda assim, muitas mulheres não reconhecem o coração como seu maior risco. Pesquisas indicam que menos da metade delas identifica a doença cardiovascular como principal ameaça à própria saúde. Essa discrepância entre percepção e realidade é um dos maiores desafios da prevenção.
O risco aumenta de forma significativa com o envelhecimento. Após os 50 anos, com a redução da proteção hormonal, a incidência de eventos cardiovasculares cresce de maneira acentuada. Entre mulheres acima de 70 anos, essas doenças chegam a responder por mais de 40% das mortes. Em um país que envelhece rapidamente, o impacto tende a se ampliar. Os fatores de risco são amplamente conhecidos; hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade, mas sua prevalência permanece alta.
Cerca de 30% das mulheres adultas brasileiras são hipertensas. A obesidade já atinge mais de 30% da população feminina. O diabetes cresce de forma consistente e tem impacto particularmente grave na mulher, aumentando proporcionalmente mais o risco de infarto do que nos homens. A hipertensão arterial, muitas vezes silenciosa, está associada a quase metade dos eventos cardiovasculares entre elas.
Existem ainda fatores próprios da trajetória biológica feminina. Complicações da gestação, como pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional e diabetes gestacional funcionam como marcadores precoces de maior risco cardiovascular. Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia apresentam risco duas a quatro vezes maior de desenvolver hipertensão crônica e doença coronariana. A gravidez pode ser entendida como um verdadeiro teste fisiológico do organismo. A menopausa, por sua vez, marca um período de maior vulnerabilidade metabólica, com elevação da pressão arterial, alterações no perfil lipídico e maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal.
Outro ponto crítico é o reconhecimento dos sintomas. Durante um infarto, mulheres frequentemente relatam manifestações menos típicas; falta de ar, náuseas, dor nas costas, dor na mandíbula, fadiga intensa. Essa apresentação pode atrasar o diagnóstico e o tratamento. Estudos mostram que mulheres tendem a chegar mais tarde ao hospital e, em algumas faixas etárias, apresentam maior mortalidade hospitalar após eventos agudos.
Apesar desse cenário, a prevenção é muito eficaz. Estima-se que até 80% dos infartos estejam relacionados a fatores modificáveis. A prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, da glicemia e do colesterol, interrupção do tabagismo e acompanhamento médico periódico reduzem significativamente a mortalidade.
No Instituto do Coração (InCor) do HCFMUSP, a campanha “Mulher: cuide do seu coração” foi estruturada justamente para enfrentar essa realidade. O objetivo é claro: transformar conhecimento em atitude. Valorizar a saúde cardiovascular feminina não é apenas uma escolha individual. É uma prioridade de saúde pública. Mulheres vivem mais, acumulam múltiplas jornadas, sustentam famílias e ocupam posições de liderança em todos os setores da sociedade. Cuidar do coração é um investimento na continuidade de trajetórias, sonhos e contribuições.
O coração da mulher é forte. Mas ele precisa, antes de tudo, ser lembrado.
