O choque de realidade da Shein: do sonho de US$ 100 bilhões à listagem com desconto em Hong Kong - QTU Questões do Universo

O choque de realidade da Shein: do sonho de US$ 100 bilhões à listagem com desconto em Hong Kong

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A Shein está finalmente abrindo seu capital, mas não onde queria, nem com a avaliação de mercado que já ostentou.

As negociações das ações da gigante de “fast-fashion” de origem chinesa devem começar em Hong Kong na terça-feira, após tentativas frustradas de abrir o capital em Nova York e Londres.
Sua avaliação de mercado reduzida, de cerca de US$ 27 bilhões, representa uma queda de quase 75% em relação ao pico de US$ 100 bilhões atingido em 2022.

A listagem ocorre em um momento difícil para a empresa.
Seus resultados financeiros continuam a se deteriorar.
Sua formidável rival chinesa, a Temu, está presente em todos os mercados onde a Shein deseja atuar.
Seus dois maiores mercados ocidentais — os Estados Unidos e a União Europeia — eliminaram as isenções comerciais que sustentavam seu modelo de negócios.
Além disso, o escrutínio regulatório sobre suas práticas comerciais vem aumentando em todo o mundo.

Todos esses fatores pesaram muito sobre a Shein.
No primeiro trimestre, a receita nos Estados Unidos caiu 14%, enquanto a receita global cresceu apenas 1% em relação ao ano anterior.
A margem líquida também encolheu, caindo para 4,9% em 2025, após ter se mantido em 8,7% em 2023 e 2024.
No primeiro trimestre, o indicador ficou negativo, em -1,1%.

"Hong Kong parece ser um mercado de última instância para a Shein após as tentativas fracassadas de listagem em Nova York e Londres, e a paciência dos investidores está se esgotando", disse Sky Canaves, analista principal de varejo da Emarketer.

A listagem em Hong Kong não alterará necessariamente a dependência da empresa em relação aos mercados ocidentais nem mudará seus objetivos atuais, afirmou Canaves.
Um dos objetivos é expandir seu “marketplace” com maior participação de marcas estabelecidas; outro é adquirir marcas em dificuldades e recuperá-las transferindo a produção para a plataforma da Shein, buscando, futuramente, convencer mais marcas externas a firmar parcerias com a empresa para esses serviços, acrescentou ela.

No entanto, por enquanto, "a Shein não conseguiu cumprir a promessa de evoluir seu modelo de negócios o suficiente para compensar o impacto dessas mudanças" nas condições de mercado, disse Canaves.
"Seu marketplace de terceiros contribui com uma parcela crescente da receita, mas não o suficiente para impulsionar os lucros, e sua oferta de cadeia de suprimentos como serviço tem demorado a ganhar tração", acrescentou ela.

A Shein não respondeu imediatamente ao pedido de comentário do “Nikkei Asia”.

A Shein fixou o preço em HK$ 48,56, no meio da faixa estipulada, em sua oferta pública inicial (IPO), levantando cerca de HK$ 13,6 bilhões (aproximadamente US$ 1,7 bilhão).

Fundada na cidade chinesa de Nanjing em 2008 pelo empreendedor Xu Yangtian, também conhecido como Sky Xu, a Shein tornou-se uma gigante global vendendo roupas baratas, porém alinhadas às tendências, em todo o mundo.
Embora a maior parte das roupas da Shein seja fabricada na China, a empresa não vende produtos no país.
Em 2021, transferiu sua sede para Cingapura, e Xu obteve a cidadania cingapuriana.

Em uma rara aparição pública em um evento do governo provincial de Guangdong, em fevereiro, Xu celebrou as raízes da empresa na China e sua contribuição para o emprego local.
Esse gesto ocorreu logo após a Shein ter solicitado discretamente a listagem em Hong Kong no ano passado, depois de abandonar os planos de abrir capital em Nova York e Londres devido a escrutínios políticos e regulatórios.

Além de vestuário, a Shein tem expandido sua atuação para outras categorias, como artigos para casa e decoração, beleza e cuidados pessoais, bem como eletrodomésticos e eletrônicos.
Como resultado, a participação de produtos que não são de vestuário na receita total da Shein cresceu de forma constante, passando de 31,2% em 2023 para 38,6% no primeiro trimestre de 2026.

Mike Leung, gestor de investimentos da Wocom Securities, de Hong Kong, afirmou que, dado o desempenho operacional significativamente inferior da Shein, nem mesmo a avaliação de mercado com forte desconto parece atraente para ele.

Ainda assim, Leung acrescentou que o IPO da Shein certamente injetará capital e atrairá atenção para o mercado de Hong Kong, despertando o interesse de investidores internacionais e locais.

"A listagem da Shein serve de exemplo para outras empresas da China continental que buscam realizar IPOs, comprovando o apelo contínuo de Hong Kong como um centro financeiro e de captação de recursos internacional", disse ele.
A empresa informou em seu prospecto que está sendo investigada pela Comissão Federal de Comércio (FTC) dos Estados Unidos e pode acabar firmando um acordo, sem fornecer mais detalhes.

Paralelamente, a Bloomberg noticiou na semana passada que o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS), vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, está conduzindo uma análise — iniciada pela própria Shein — sobre a aquisição da varejista americana Everlane pela empresa, em um negócio de US$ 80 milhões.

Nada disso desacelerou os gastos da Shein com publicidade nos Estados Unidos.
Pelo contrário, tanto a Shein quanto a Temu estão aumentando seus investimentos em anúncios no país, à medida que a demanda dos consumidores permanece resiliente, segundo a Sensor Tower.

Os Estados Unidos representaram 37% dos gastos globais da Shein com publicidade no acumulado do ano; o índice é superior aos 30% registrados em 2025, mas inferior aos 42% de 2024.
No caso da Temu, a participação do país subiu para 41% — ante 28% em 2025 —, situando-se em patamar próximo aos 42% registrados em 2024.

Entre os coordenadores do IPO da Shein estão as instituições financeiras americanas Goldman Sachs, Morgan Stanley e J.P.
Morgan.
Isso provocou críticas da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, uma vez que a Shein enfrenta diversas acusações relacionadas a trabalho forçado, jornadas de trabalho ilegais e violações na cadeia de suprimentos — alegações que a empresa nega.

"O fato de grandes bancos americanos financiarem o IPO da Shein demonstra que essas instituições não têm qualquer consideração pelos direitos humanos ou pelas vítimas de trabalho forçado que serão obrigadas a colher algodão para as roupas da Shein", afirmou John Moolenaar, presidente do Comitê Seleto da Câmara sobre a China, em um comunicado à imprensa divulgado em 25 de agosto.
"Esses bancos americanos estão sendo usados como ferramenta pelo Partido Comunista Chinês para fortalecer sua economia e seus mercados de capitais em declínio com recursos externos, viabilizando um esquema de pirâmide chinesa contra o restante do mundo", afirmou Moolenaar.