O castelo de Textor

 

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Na última quarta-feira, a SAF do Botafogo deu entrada em um pedido de recuperação judicial. Quatro anos depois de ser constituída e ter 90% de suas ações compradas pelo americano John Textor, valendo-se da lei que permite salvar clubes quebrados, a empresa admitiu uma dívida de R$ 2,5 bilhões e patrimônio negativo de quase meio bilhão. Não é um rombo — é um abismo.

Ao adquirir o futebol do Botafogo, em 2022, Textor assumiu uma série de compromissos. Não produzir mais dívidas era um dos principais pontos do acordo que o Botafogo Social, como acionista minoritário, devia fiscalizar. No fim da quinta-feira, o americano foi ejetado da gestão da SAF pelo Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas — que havia sido instaurado como mediador da crise societária entre Textor e a holding que controla seus clubes, a Eagle. O ex-presidente Durcésio Mello foi nomeado CEO interino.

A crise remonta a 2022, quando Textor pegou um empréstimo com o fundo Ares para comprar o Lyon e deu as ações da Eagle como garantia. Como não conseguiu pagar, a Ares assumiu o controle da Eagle, rifou Textor do Lyon e tentou fazer o mesmo no Botafogo. O americano se segurou aqui graças a uma liminar e ao apoio do clube social.

No pedido de RJ, seus advogados tentam limitar os poderes da Eagle na SAF. Se a Eagle, que tem 90% das ações, não puder mais apitar, é natural que os poderes voltem para o outro acionista, o clube social, que detém 10%, certo? No Brasil, como sabemos, o certo pode ser muito incerto nos tribunais da vida.

Textor sabe que a paciência do Social com ele se esgotou. Como não manda mais na Eagle, ele tenta se sustentar criativamente. A indicação de Durcésio — que se tornou um dos principais aliados do gringo — mostra que sua influência continua presente. Mas como ele vai comandar uma empresa contra a vontade dos dois sócios? Não por acaso, Eagle e Social já se movimentam para remover Durcésio.

No passado, houve quem tentasse marcar Textor em cima. Em 2023, sete conselheiros fiscais tentaram vetar o balanço do clube social e renunciaram em protesto. O economista Laércio Paiva, articulador do projeto da SAF, ofereceu-se para pagar uma consultoria para fiscalizar a relação entre Eagle e Botafogo. Foi ignorado. Esses poucos gritavam, entre outras coisas, contra a alteração da cláusula do acordo de acionistas que impedia Textor de alienar suas ações para terceiros. Sem essa amarra, o americano pôde incluir seus 90% da SAF alvinegra nas garantias para a Ares.

O Botafogo competiu em alto nível em 2023 e ganhou tudo em 2024 anabolizado pelo caixa único — mas a conta chegou. O fracasso na França contaminou o grupo todo e inviabilizou o plano original — fazer uma oferta pública da Eagle na Bolsa de Nova York.

Não há torcedor que não seja grato a Textor pela ressurreição esportiva e por 2024. Mas nada justifica a barafunda atual. O gringo pode dourar a pílula, culpar atores externos e passar dez quilos de maquiagem no espantalho — mas o responsável é ele. A história contada no pedido de RJ tenta ser bonita — fala em aumento de receita e de títulos. É a descrição de um lindo castelo de areia que finge que a maré não vai subir.

O contraste com o Cruzeiro é flagrante. O clube mineiro também virou SAF entre 2021 e 2022. Foi saneado por Ronaldo, vendido para um milionário fanático e trilha um caminho consistente. Textor se diz apaixonado pelo Botafogo e jura querer o bem do clube. Será que o torcedor ainda acredita?