'O calçadão é um milk-shake cultural': tese de doutorado sobre Copacabana dá origem a livro que traça mapa afetivo do bairro

 

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No livro “Copacabana e seus múltiplos imaginários” (Edufba), lançado na última quinta-feira pela professora e pesquisadora Alessandra de Figueiredo Porto, o bairro deixa de ser apenas cenário e assume o papel de personagem central, revelando camadas de memória, identidade e experiência urbana construídas ao longo de gerações.

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Resultado da tese de doutorado desenvolvida pela autora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o livro parte de depoimentos de moradores e frequentadores para mapear afetos e narrativas que ajudam a entender o bairro para além dos estereótipos. Alessandra constrói uma espécie de cartografia afetiva que evidencia como diferentes públicos (jovens, idosos, trabalhadores e boêmios) atribuem sentidos diversos ao mesmo território.

A escolha do bairro também tem raízes pessoais. Os pais de Alessandra se conheceram ali e escolheram o local para morar em uma quitinete nos anos 1960. Embora a família tenha se mudado para Niterói quando ela ainda era criança, Copacabana permaneceu presente em sua vida.

— Eles saíram de Copacabana, mas Copacabana não saiu de dentro deles. Cresci ouvindo histórias e sendo levada para passear lá. Virou uma paixão — afirma.

O trabalho também recupera a trajetória histórica da região, que até o fim do século XIX era formada por chácaras e ocupada por pescadores, isolada por morros, antes de se transformar em bairro turístico. Essa passagem do isolamento à centralidade ajuda a compreender os contrastes que marcam o lugar até hoje.

Alessandra de Figueiredo Porto. Professora, pesquisadora e autora

Divulgação

Segundo a autora, um dos aspectos mais marcantes identificados durante o trabalho de campo foi justamente a coexistência de diferentes realidades no mesmo espaço.

— O mais interessante na pesquisa foi entender essa Copacabana dos idosos, das manifestações políticas, mas também aquela outra Copacabana que aparece à noite — explica.

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Esses contrastes aparecem de forma clara no cotidiano do bairro.

— Existe uma Copacabana do dia, do lazer diurno, das farmácias e dos idosos passeando na Atlântica. Mas também existe a Copacabana da noite, das sombras, do afrouxamento e do fervo —diz a pesquisadora.

Entre os símbolos que ajudam a construir o imaginário coletivo da região aparecem espaços e referências históricas como o Copacabana Palace, o Beco das Garrafas e o calçadão da orla.

— O calçadão é um milk-shake multicultural. Ali tem o turista, os idosos, moradores, gente passeando com cachorro. É um espaço onde muitas histórias passam — observa.

Para o professor Ricardo Freitas, também da Uerj e autor da orelha do livro, a obra reúne curiosidades e referências que ajudam a compreender o imaginário do bairro, como o Biscoito Globo, os antigos cassinos, as boates, a moda-praia e o próprio calçadão.

Ao longo dos capítulos, a autora percorre símbolos marcantes como a vida praiana, os espaços de lazer, as práticas de consumo e as manifestações juvenis, compondo um panorama que revela Copacabana como território de contrastes e identidades em constante reinvenção.

A metáfora que resume essa dualidade aparece em um dos trechos da obra.

— Eu faço uma analogia. De dia ela é princesinha; de noite é uma Cinderela permissiva. Muita gente sente que à noite as pessoas ficam mais livres em Copacabana — diz Alessandra.

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