O brilho que redesenhou o Rio: imagens raras revelam a revolução da eletricidade na cidade em exposição virtual
O Rio de Janeiro que conhecemos hoje, vibrante sob as luzes da orla e pulsante no vaivém de seus transportes, começou a ser “desenhado” muito antes do primeiro interruptor ser clicado em uma residência comum. Às vésperas de completar 461 anos, no próximo domingo, 1º de março, a capital fluminense ganha um presente que ajuda a decifrar sua própria identidade: a exposição virtual “A energia que iluminou o cotidiano: imagens e memórias do Rio de Janeiro”.
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Lançada pela Memória da Eletricidade em parceria com a Light, a mostra reúne 33 imagens raras no Google Arts & Culture. O acervo é um convite para entender como a eletricidade não apenas iluminou ruas, mas redesenhou o espaço urbano e a própria alma do carioca no início do século XX.
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Do bonde à sala de estar
A exposição percorre momentos cruciais, como a construção da Usina de Fontes, em 1905 — então a mais moderna do país —, e o trabalho dos milhares de operários que mantinham a rede de pé. As lentes de cronistas visuais, como Augusto Malta, capturaram a transição dos bondes a burro para os elétricos, que passaram a conectar bairros antes isolados.
Para dentro de casa, a revolução veio por meio de aparelhos que hoje parecem banais, mas que nos anos 1930 eram o ápice da modernidade: rádios, ventiladores e geladeiras que alteraram o trabalho doméstico e a rotina das famílias.
Avanço a passos lentos
A mostra também dedica um capítulo à democratização tardia desse recurso. A eletrificação das favelas, que avançou a passos lentos durante o século XX, é retratada em registros de comunidades como Rocinha e Mangueira. Somente a partir do final da década de 1970, programas estruturados da Light começaram a tratar a iluminação dessas áreas como um direito à infraestrutura urbana, integrando definitivamente esses territórios à malha oficial da cidade.
Para o historiador Marcus Dezemone, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a chegada da eletricidade foi o braço forte de um projeto político. A ideia era modernizar a capital federal para apagar os traços do período colonial, que à época eram vistos como símbolos de atraso em comparação a outras metrópoles sul-americanas.
— No fim do século XIX, a eletricidade era vista como símbolo de progresso. Eletrificar a capital federal foi uma forma de dizer que as promessas de "ordem e progresso" estavam sendo cumpridas — explica. — A chegada dos bondes, por exemplo, com a retirada da tração animal, transformou o dia a dia dos cariocas. A iluminação também foi um elemento-chave, além de todas as inovações que a eletricidade proporciona, como o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.
Aceleração do cotidiano
A chegada da eletricidade na então capital federal não foi apenas uma mudança técnica, e sim um choque cultural que alterou a percepção do tempo. Segundo o historiador e professor da UERJ, André Azevedo, a eletrificação tornou a vida urbana mais veloz.
— Uma coisa é se deslocar com o bonde puxado por mulas, a paisagem passa vagarosamente. Com o bonde elétrico, a paisagem passa rápido. Há um ganho de tempo e uma aceleração da vida cotidiana. As relações se tornam mais fugazes — explica Azevedo.
Essa revolução sobre trilhos, iniciada por figuras como o engenheiro Pereira Passos, que viria a ser prefeito da cidade, é um dos destaques da exposição. Foi ele quem trouxe, em 1891, o primeiro bonde elétrico de Salt Lake City, nos Estados Unidos. No espaço, é possível ver registros da Rua Primeiro de Março, em 1905, ainda dominada por mulas, em contraste com a chegada triunfal dos bondes elétricos que, anos depois, passaram a conectar o Centro à Zona Sul, reorganizando o solo urbano e o acesso à cidade.
'Colar de pérolas'
Se hoje a mureta da Urca ou o calçadão de Copacabana são destinos noturnos certos, deve-se à segurança trazida pelos novos postes. Azevedo lembra que essa mudança de hábitos também ressignificou o lazer. Ele cita como exemplo o “colar de pérolas”, apelido do sistema de iluminação da orla de Copacabana inaugurado pelo então prefeito Paulo de Frontin, em 1919, que atraiu a vida urbana para a região da orla mesmo à noite.
— O Rio, já no fim do século XIX, apresentava uma incidência considerável de criminalidade. A chegada da luz elétrica passou a evocar o passeio noturno, algo pouco comum até então, já que a cidade ficava muito mais escura. Isso reduziu a relação de medo com o espaço urbano e permitiu que praças e calçadões passassem a ser usados de outra forma após o pôr do sol — pontua.
Esta é a terceira mostra da Memória da Eletricidade na plataforma Google Arts & Culture. Além da nova exposição, os internautas podem navegar pela história da Usina Hidrelétrica Alberto Torres (Piabanha) e pela emblemática Exposição Nacional de 1908.
Para conferir as 33 imagens e os textos explicativos, basta acessar o site oficial da plataforma ou o link disponibilizado nas redes sociais da Memória da Eletricidade.
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