O Brasil e a alegria: idosos e religiosos são mais felizes do que jovens e quem trabalha na 6x1, aponta pesquisa inédita
Kamilly Agostinho se considera feliz. Até aqui, aos 22 anos, avalia que a vida correu conforme o planejado. Mas nem sempre foi fácil focar na rotina: ao assistir relatos de celebridades nas redes sociais, ficou abalada por estar “ficando para trás”, até que decidiu desinstalar os aplicativos. Ainda hoje, a instabilidade financeira e o medo do futuro tiram o sono da psicóloga. Nos dias difíceis, ela conta sobretudo com os amigos, sua principal rede de apoio frente às angústias, como a aceitação social.
'Provas concretas' e risco de fuga: entenda pedido de prisão de MC Ryan SP, Poze do Rodo e grupo ligado a esquema bilionário
Paolo Zampolli: saiba quem é o aliado de Trump que chamou brasileiras de 'raça maldita' e 'programadas para causar confusão'
— Estou longe de alcançar o que eu quero e trabalho mais pelo financeiro que por prazer. Fica a ansiedade de tudo ir por água abaixo. Acabamos virando “máquinas” para fazer dinheiro — relata. — Nunca sofri homofobia diretamente, mas tenho que me limitar, pensar no que vou fazer ou falar simplesmente por ser quem sou. Posto foto com a minha namorada e penso: “Quem vai ver? No trabalho, vão aceitar”?
O caso de Kamilly ilustra os achados de uma pesquisa inédita conduzida pela especialista em Ciência da Felicidade Renata Rivetti, em parceria com o Instituto Ideia. O Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026 aponta que 89% dos brasileiros se dizem felizes, mas, no detalhe, o estudo desafia o clichê de população “alegre” e propõe uma definição mais complexa do sentimento.
A felicidade no Brasil é uma construção atravessada pelas relações, pela desigualdade, pelo ambiente digital e pelo mundo do trabalho. Consideram-se mais felizes, proporcionalmente, os idosos, os mais ricos, os heterossexuais e os religiosos. Já os mais jovens, os integrantes das classes D e E e os que trabalham na escala 6x1 aparecem entre os mais vulneráveis. Gênero e raça não apresentaram diferenças estatísticas relevantes.
Veja detalhes da pesquisa Mapa da Felicidade
Arte O Globo
Especificidade do país
Rivetti explica que o cenário brasileiro difere de outros países em que a felicidade é relacionada a uma estrutura social mais justa. Por aqui, apesar do alto índice de contentamento, 33% dos brasileiros citam a ansiedade como a emoção mais frequente no dia a dia, enquanto 29% apontam o estresse:
— O brasileiro se sente feliz, mas, quando é perguntado se se sente ansioso, preocupado, inseguro, se vê corrupção, ele diz que sim. Tem algo irracional nesse olhar: o Brasil é caótico, eu vivo sob pressão, mas me sinto feliz.
O levantamento sugere como eixos da felicidade no Brasil as redes de apoio, como famílias e comunidades; a fé e o pertencimento, como segurança psicológica e rotina social; e a esperança “inabalável” — apesar da preocupação constante, 93% pontuam esperar dias melhores pela frente. As palavras mais citadas para definir o sentimento incluem família, Deus e gratidão.
Ainda assim, um em cada oito brasileiros (12,8%) revela não ter com quem contar nas horas difíceis. A desassistência escala para um quinto (21%) entre os mais jovens, de 16 a 24 anos. Segundo Rivetti, é a camada mais “preocupante”, com menor índice de felicidade, menor percepção de apoio e maior exposição às redes sociais e ao desgaste laboral.
Até décadas atrás, estudos apontavam jovens muito felizes. Só depois o índice caía, na “crise da meia idade”, e depois subia de novo entre os idosos. Mas daí a internet passou a influenciar a percepção de si, o senso de pertencimento e a estabilidade emocional. A pesquisa mostra que 77% dos entrevistados de 16 a 24 anos afirmaram comparar a própria vida à de outras pessoas nas redes sociais (56,5% no geral), e 71% deles disseram já terem ficado tristes ao consumir conteúdo na web.
— Os usuários de 60 anos ou mais também usam Instagram, TikTok, mas usam mais para conexão, informação. Os mais jovens veem a vida irreal de um influenciador e pensam no que, aos 20 anos, ainda não conquistaram. Isso impacta a autoestima, a construção de relações mais profundas e a visão que têm do trabalho — analisa a cientista.
Enquanto 77% dos entrevistados dizem que o trabalho os torna mais felizes, esse número cai a 53,3% entre os mais jovens (16-24) e atinge o auge entre idosos — 87,3%. Os dados sugerem reveses e frustrações na entrada no mercado de trabalho.
Julgamento nas redes
Aos 26 anos, Layla Dorbação considera a comparação social nas redes “inevitável” e frisa que já foi “extremamente julgada” por seu peso. O que mais a aflige hoje, porém, é a perspectiva de trabalho. Ela se diz feliz, pelas pessoas que a cercam, por fazer mestrado e por ajudar alunos em um pré-vestibular social. Mas nada suplanta o medo:
— Vivo em prol do futuro, tenho muito medo de as coisas não darem certo. A pressão da vida acadêmica e profissional me tira do eixo. Vivo ansiosa e estressada.
Segundo a pesquisa, os fatores que mais sustentam a felicidade no trabalho são flexibilidade e qualidade de vida (26,4%), estabilidade (22,8%) e salário (17,3%). Já os que drenam o bem-estar são sobrecarga (23,6%), salário (19,6%) e liderança ruim (14,2%). Os pontos negativos atingem sobretudo as classes D e E, em que 33,4% se declaram infelizes no ofício. Os mais pobres têm ainda menores índices de rede de apoio e frequência em atividades sociais.
— Está tudo ligado: nas classes D/E, trabalham muito, não se realizam no trabalho, se sentem solitários. Fala-se muito que “dinheiro não traz felicidade”, mas a falta dele traz insegurança, escalas piores, comparação social — destaca Rivetti.
Além da classe econômica, o bem-estar também varia conforme a visão de mundo, o pertencimento, a fé e a aceitação social. O Sul do país registra maior sensação de solidão (16%) e menor índice de felicidade (84%). Uma pista, segundo a pesquisadora, é que os sulistas citaram mais incômodo com a corrupção, a falta de segurança e a estabilidade.
Se 90,9% dos heterossexuais se dizem felizes, o número recua a 84,1% entre homossexuais. Estudar Medicina, a sua “faculdade dos sonhos”, e os “ótimos amigos” fazem Felipe Pereira feliz. Mas o receio de fracassar na profissão e o preconceito abalam o jovem de 20 anos:
— Ser homossexual assumido me traz muita felicidade, por poder ser eu mesmo, ser livre. Mas também é muito difícil, porque nem sempre sou aceito.
Os dados sobre religiosidade mostram que o senso de comunidade e a crença compartilhada também contribuem para a felicidade. A estudante de Engenharia Maria Isabel Bromberg, de 20 anos, se esforça por resultados positivos no futuro. Mas o otimismo vem da fé.
— Ninguém passa pelo mundo isento de problemas. Se vejo sentido na vida, é por causa da religião. Há um motivo para tudo, nos momentos de “cruz” e nos de felicidade. Empecilhos são permissões de Deus. Isso me deixa em paz — esclarece a católica praticante.
Vida ao ar livre
Renata Rivetti destaca que a população tem, de certa forma, se “anestesiado” na espiritualidade e em momentos prazerosos — “o samba, a Copa do Mundo, a ‘dopamina’ da internet”. Essa passividade, afirma ela, não induz mudanças estruturais e sistêmicas:
— As pessoas pensam: “Ah, o Brasil sempre foi inseguro, corrupto”. Vivem para sobreviver. Mas momentos de prazer não vão trazer uma felicidade sustentável ou uma sociedade mais justa.
Para a especialista, o bem-estar precisa ser prioridade na construção de uma sociedade igualitária, sem que o desenvolvimento econômico seja o único parâmetro de sucesso. Ela alerta para os impactos da alta de licenças por saúde mental na produtividade e na prosperidade do país e defende o reforço de políticas para educação e vida ao ar livre:
— Precisamos valorizar professores e discutir abertamente a regulação das redes sociais, a escala 6x1 e a própria arquitetura das cidades. Cada vez mais estamos perdendo o espaço público para interagir. Precisamos de bibliotecas públicas, parques, áreas para as crianças brincarem.
A pesquisa ouviu 1.500 brasileiros por telefone, entre 20 de fevereiro e 1º de março. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, com 95% de confiança estatística. Nos módulos específicos, foram ouvidos 1.425 usuários de redes e 1.208 trabalhadores. (*Estagiários sob a supervisão de Alfredo Mergulhão)
