O boom do Hyrox: a corrida fitness que virou fenômeno mundial

 

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Quando Jessica Thompson entrou no Hyrox Atlanta, em outubro passado, sentiu-se intimidada pela quantidade de corpos em forma ao seu redor. Ela havia passado meses treinando para a corrida de fitness, mas, ao ver homens e mulheres musculosos correndo e agachando, questionou sua decisão de se inscrever.

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— Eu estava apavorada — disse. — Quase dei meia-volta e fui embora.

Mas, ao atravessar o túnel de largada característico do Hyrox, sentiu-se calma e confiante.

Naquele dia, competia como atleta adaptada. Após sobreviver a um acidente de carro quase 20 anos antes, tinha movimentos limitados no braço esquerdo e dificuldades de equilíbrio. Ainda assim, gostava de desafios. E, ao avançar na prova, foi impulsionada pelos aplausos do público.

— Eu estava acostumada a ouvir tudo o que não podia fazer — afirmou Thompson, de 39 anos. Provar a si mesma que conseguia completar um Hyrox foi, segundo ela, “transformador”.

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Desde sua criação, na Alemanha, em 2017, o Hyrox explodiu em popularidade. As inscrições se esgotam em minutos e, em algumas cidades, há listas de espera com milhares de pessoas. Mais de 1,5 milhão de participantes, em 30 países, já competiram ao menos uma vez, com idades entre 16 e 85 anos. Em Nova York, o evento triplicou de tamanho no último ano, passando de 15 mil para cerca de 50 mil inscritos.

Na prova, os participantes alternam corridas de um quilômetro com oito exercícios, como empurrar e puxar trenós, burpees com salto em distância e carregamento de peso. É possível competir individualmente, em dupla ou em revezamento.

Nos primeiros anos, o Hyrox atraía sobretudo atletas altamente condicionados. Hoje, porém, pessoas com diferentes níveis de preparo físico participam. Mais de 15 mil academias no mundo tornaram-se centros oficiais de treinamento.

Dan Trink, treinador de força em Nova York e dono da academia The Fort, hoje afiliada ao Hyrox, lembra que, em 2022, sua primeira participação foi intimidadora.

— Tinha mais abdômen definido do que narizes na sala — disse. — Todo mundo era extremamente definido. No evento do ano passado, havia de tudo um pouco.

Transformando treino em esporte

De certa forma, o Hyrox segue a tradição de provas como Tough Mudder e Spartan, triatlos Ironman, competições de CrossFit e maratonas.

Mas, segundo especialistas, a barreira de entrada é menor, já que os exercícios — movimentos funcionais — podem ser treinados com equipamentos básicos e sem exigir grande carga de tempo.

— Nas corridas Spartan, você sai coberto de lama e às vezes até ferido — disse Shay Kostabi, consultora da indústria fitness. Em comparação, o Hyrox é “controlado, limpo e seguro”, sem deixar de ser desafiador.

Embora seja uma prova de resistência, seu sucesso também está ligado ao crescimento do interesse por treinamento de força.

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A proposta foi intencional, segundo Moritz Fürste, cofundador do Hyrox e medalhista olímpico. A ideia era criar uma competição para pessoas comuns que não queriam treinar para maratonas, mas buscavam um objetivo desafiador e alcançável.

— Queríamos criar um campo de jogo para quem frequenta academia — afirmou.

Para especialistas, transformar o treino em competição aumenta o engajamento. — Se você transforma algo em jogo, o interesse cresce — disse Mark Dyreson, professor de cinesiologia.

Desafio e pertencimento

Helen Ogunjimi, personal trainer de Chicago, afirma que o Hyrox trouxe de volta um senso de desafio que havia perdido após a carreira no basquete. Inicialmente, resistiu à ideia. — Parecia muito difícil — disse.

— Fiquei com medo, porque não me movimentava assim há muito tempo. Ainda assim, acreditou que conseguiria com treino.

Ela competiu em Chicago no ano passado e pretende disputar uma prova no Japão. Seu objetivo é se classificar para o campeonato mundial da modalidade.

— Estou reconstruindo meu condicionamento — afirmou.

O crescimento do Hyrox também é impulsionado pelas redes sociais, onde participantes compartilham suas conquistas.

— Dá às pessoas uma identidade — disse Kostabi. — Cria um senso de pertencimento.

Além disso, a prova permite que atletas amadores comprovem sua capacidade física. E, diferentemente de corridas tradicionais, não há “últimos colocados”, já que largadas são feitas em ondas.

O espírito de comunidade também se destaca. Antes de uma prova, Thompson recebeu ajuda de outra competidora para amarrar o tênis.

— Mesmo em um ambiente competitivo, as pessoas cuidam umas das outras — disse.

Segundo ela, o apoio do público e dos participantes torna desistir quase impossível. — Muda a forma de pensar. Você deixa de focar no que falta e passa a enxergar o que é capaz de fazer.