O boi sob vigilância: os desafios para a rastreabilidade no rebanho brasileiro - QTU Questões do Universo

O boi sob vigilância: os desafios para a rastreabilidade no rebanho brasileiro

Fonte: Bandeira da fonte

Em 2025, o Brasil atraiu ainda mais holofotes para sua pecuária bovina.
As exportações bateram recorde, com 3,5 milhões de toneladas, volume que transformou o país no maior produtor global do segmento, destronando os Estados Unidos, líder mundial nesse mercado desde sempre.
Mas o protagonismo teve efeitos colaterais.
A China suspendeu as compras de carne de plantas brasileiras em cujas cargas os chineses teriam identificado resíduos de medicamentos proibidos no país.
Hoje, cinco unidades estão vetadas.
Em julho, os Estados Unidos aplicaram mais uma tarifa sobre países que não teriam comprovado o enfrentamento ao trabalho forçado.
Os americanos isentaram a carne brasileira, mas dedicaram, em relatório, um tópico ao produto, alegando que o Brasil tirou mercado da carne americana ao não combater devidamente tais práticas.
Já a União Europeia deixará de receber cortes do Brasil a partir de setembro deste ano, sob a alegação de que faltam comprovações de que a cadeia não usa antimicrobianos proibidos no continente.
O bloco também proibirá, a partir de 2027, a compra de produtos agrícolas oriundos de áreas desmatadas.
Não se pode ignorar o argumento recorrente de que barreiras ambientais e sanitárias têm camuflado interesses comerciais, mas também é fato que o Brasil ainda não faz a rastreabilidade total e nacional da carne bovina.
“Não adianta querer se manter como grande exportador dizendo ‘a gente é bom’.
É preciso cada vez mais comprovar”, afirma o líder da força-tarefa de rastreabilidade da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Fernando Sampaio.
Visita de comitiva chinesa à Fazenda Carioca, no Pará: viagem ao Brasil para atestar boas práticas no processo produtivo
Márcio Nagano / Divulgação
Boa parte do problema deve-se à complexidade do segmento, no qual atuam fornecedores indiretos de segundo e primeiro nível, diretos, frigoríficos e processadores.
Costuma-se dizer que, onde há desmatamento, logo aparecem pasto e boi – e, cedo ou tarde, esse animal entra no processo.
É o monitoramento dos indiretos o maior gargalo do rastreamento.
Ainda há no Brasil a chamada “lavagem de gado”, transferência de animais criados em áreas irregulares para outras regulares.
Como a indústria monitora sobretudo o fornecedor direto, é mais difícil comprovar passivos de elos anteriores.
“Não dá para seguir como grande exportador apenas dizendo 'a gente é bom'" — Fernando Sampaio, líder de rastreabilidade da Coalizão Brasil
Grandes exportadores avançam no controle dos indiretos, o que não vale para a maior parte dos cerca de 1.100 frigoríficos brasileiros, que vendem ao mercado local 70% da carne produzida no país.
“Embora seja um assunto mais avançado na região amazônica, são poucos os que apresentam alguma política.
Nenhuma com controle dos indiretos”, diz a pesquisadora Camila Trigueiro, do Radar Verde, indicador que avalia o controle socioambiental na cadeia.
Dado o interesse público sobre o assunto, o Ministério Público Federal (MPF) criou, há mais de uma década, o programa Carne Legal e instituiu o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para frigoríficos que atuam na Amazônia Legal.
Após um longo período com foco no controle dos diretos, a iniciativa prepara-se para avançar sobre os indiretos de primeiro nível – fazendas que vendem gado ao fornecedor direto do frigorífico.
Ficarão de fora, por um bom tempo, os de segundo nível, como pecuaristas que fornecem bezerros a outras fazendas, que engordam e vendem os animais aos diretos.
A nova etapa cruzará dados socioambientais e das Guias de Trânsito Animal (GTAs) para identificar quando um frigorífico comprar de fazendas abastecidas com gado vindo de áreas irregulares.
Fazendas “contaminadas” serão identificadas ao frigorífico.
“O monitoramento de indiretos é exigido pelo TAC, mas não era possível.
Eu não tinha como exigir do frigorífico aquilo que era impossível de fazer”, sustenta o procurador Ricardo Negrini.
“Agora, entendemos que já existem ferramentas.” A regra deveria ter entrado em vigor em julho, mas foi adiada para janeiro de 2027.
Além do foco nos estados da Amazônia Legal, o trabalho também está em fase de expansão com vistas a cobrir também o Cerrado, informa Negrini.
Outra barreira histórica à implementação da rastreabilidade no Brasil foi o caráter voluntário de iniciativas prévias.
Um exemplo é o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov).
O sistema surgiu em 2002 e, primeiro, tinha como objetivo garantir à Europa que não havia no Brasil casos típicos de doença da vaca louca.
Mais tarde, porém, ele serviu para comprovar a sanidade em relação à febre aftosa.
Hoje, menos de 1.300 fazendas de bovinos – ou 0,05% dos 2,5 milhões que existem do país – adotam o Sisbov.
“Voluntariamente, é muito difícil fazer acontecer”, pondera uma fonte do setor que há mais de dez anos tem acompanhado o processo.

Estúdio de Criação
Em 2024, o governo federal lançou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Pnib).
A iniciativa prevê que todo o rebanho seja identificado até 31 de dezembro de 2032.
A primeira etapa, de criação da plataforma online, deveria ter começado em julho de 2025, mas só teve início no primeiro semestre deste ano, após negociações entre governo e setor privado sobre quem a financiaria, segundo outra fonte próxima às conversas.
A Globo Rural procurou o Ministério da Agricultura, que não respondeu ao pedido de entrevista.
Sistemas estaduais também foram lançados recentemente, com o impulso da COP30, que ocorreu, no ano passado, em Belém.
Em novembro, Mato Grosso aprovou o programa Passaporte Verde, obrigatório a partir de 2030.
O Pará havia largado na frente em dezembro de 2023, com o anúncio de seu sistema de monitoramento individual de bovinos.
A previsão era de obrigatoriedade, em 2026, do uso de brincos e chips em animais movimentados entre fazendas, e de todo o rebanho em 2027.
Mas, em dezembro, o então governador Helder Barbalho decretou o adiamento do plano para 2030.
A pecuarista Amália Sechis, que trabalha com fazendas em três estados: decisão de não comprar animais de fornecedores que tenham embargos ambientais ou trabalhistas
Gabriela Lutz / Divulgação
“Estávamos em um processo muito intenso, produtores buscando brincos, a adesão estava indo bem mesmo.
O decreto desacelerou o processo”, diz a gerente de rastreabilidade e cadastro agropecuário da Agência de Defesa Agropecuária do estado (Adepará), Barbra Lopes.
Quem defendeu a postergação, conta ela, argumentou que seria melhor acompanhar o cronograma do Pnib.
Grandes companhias da indústria de carnes vêm tentando fazer sua parte.
A MBRF diz ter alcançado, no fim de 2025, a rastreabilidade dos seus cerca de 3.000 fornecedores, incluindo os indiretos de segundo nível.
O trabalho teve início há 14 anos com o então programa Marfrig Verde+ (hoje, MBRF Verde+), que coletou dados e fez o georreferenciamento dos pecuaristas e indiretos a eles associados.
Em 2019, com o apoio da consultoria Agroicone, a empresa desenvolveu um sistema no qual inseriu as informações dentro de uma tecnologia blockchain.
A companhia criou ainda um mapa do país com cinco níveis de risco e rastreou, de 2021 a 2025, os pecuaristas de cada grau, relata Paulo Pianez, diretor global de sustentabilidade e relações governamentais da MBRF.
A JBS informa que monitora 100% de seus fornecedores diretos há mais de 15 anos, mas que ainda não rastreia todos os indiretos.
Para estender o monitoramento aos demais elos, a empresa tem uma plataforma na qual fornecedores podem inserir dados dos seus provedores de bezerros ou boi magro, além dos “Escritórios Verdes”, que dão assistência para regularização.

A Minerva Foods, a terceira maior empresa de carne bovina do país, começou a monitorar fornecedores em 2009, levantando as atividades das fazendas fornecedoras diretas (cria, recria ou engorda).
Quanto aos indiretos, a meta da companhia é rastrear todos até 2030, avaliando propriedades com ciclo completo, monitorando animais identificados individualmente de outras fazendas e acompanhando os indiretos de primeiro nível, informou, em nota.
“Sem efetiva rastreabilidade, para fins sanitários ou ambientais, o mercado vai se fechar" — Camila Trigueiro, pesquisadora do Radar Verde
Na outra ponta da cadeia, produtores investem para comprovar a procedência da carne.
“Nos chamam de chatos porque exigimos tudo isso”, declara a pecuarista Amália Sechis, criadora da marca Beef Passion.
Tudo isso é uma extensa relação de requisitos para compras de terceiros, como não constar em “listas sujas” do Greenpeace e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nem ter embargos ambientais e trabalhistas.
Esses animais chegam às fazendas ainda bezerros e recebem o brinco individual.
Quando não há a garantia de procedência, são recusados.
Filha de pecuarista, Amália sugeriu ao pai criar uma marca que seguisse os preceitos do bem-estar animal.
E o controle de origem se tornou um pilar fundamental.
Hoje, a carne da marca é de animais das raças angus e wagyu nascidos e criados em quatro fazendas em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo.
O foco da operação não é o volume, e sim a margem – a empresa abate cerca de 50 animais por mês, o que representa em torno de 10 toneladas.
A Beef Passion recebe de R$ 370 a R$ 450 por arroba, média superior aos R$ 340 que figuravam no indicador Cepea/Esalq no fim de julho.
A rastreabilidade também faz parte da gestão das seis fazendas da Novapec Agropecuária, em Mato Grosso.
Porém, na avaliação do zootecnista e diretor Arlindo Vilela, o prêmio que ele recebe, de cerca de 1% para animais aptos para a Europa, não compensa.
Para valer a pena, o ágio deveria ser de pelo menos 10%, avalia.
Um projeto-piloto que está em fase de estruturação no Imaflora visa exportar carne bovina certificada como livre de desmatamento a partir de 2027 para a China, destino de mais da metade das exportações brasileiras em 2025.
A iniciativa, batizada de Beef on Track, responde à preocupação dos chineses com a meta de neutralizar emissões de carbono até 2060, diz Louise Nakagawa, coordenadora de projetos no instituto.
Os importadores chineses estariam dispostos a pagar até 10% a mais por esse produto, afirma ela.
No Pará, a Fazenda Carioca, que Altair Burlamaqui e um sócio fundaram há 15 anos, trabalha com o Imaflora para atestar aos chineses que sua produção de carne de fêmeas está livre de irregularidades.
Em abril, uma comitiva da China esteve na propriedade para conhecer pessoalmente o sistema produtivo.
A Carioca tem três propriedades, que ficam em Castanhal, a 100 quilômetros de Belém, e têm, somadas 1.100 hectares.
Para evitar comprar bezerras de pecuaristas envolvidos em infrações, Burlamaqui diz que se limita a trabalhar com criadores que conhece há anos.
Quando soube que o Imaflora buscava interessados na certificação, ele topou o desafio.
O pecuarista Altair Burlamaqui: para assegurar a procedência, ele compra animais apenas de criadores que conhece há anos
Igor Cordero / Márcio Nagano / Divulgação
A rastreabilidade também pode gerar ganhos no campo sanitário, cerne do bloqueio europeu à carne do Brasil.
O bloco diz que o país não conseguiu demonstrar o controle de antimicrobianos proibidos na Europa, embora as discussões sobre o assunto já ocorram há três anos.
No curto prazo, o Brasil não deve atestar o cumprimento da regra em toda a vida dos animais que vende à Europa, já que bezerros identificados agora só serão abatidos em dois a três anos.
"Se não existir efetiva rastreabilidade, para fins sanitários ou ambientais, o mercado vai se fechar", diz Camila Trigueiro, do Radar Verde.
Rastrear a produção também será determinante para a lei antidesmatamento do bloco (EUDR, na sigla em inglês), que valerá a partir de 30 de dezembro de 2026.
A lei diz que qualquer importador europeu precisará comprovar que os produtos que entram no bloco não vieram de áreas desmatadas, ainda que o desmate tenha sido legal.
“É fundamental que União e estados construam soluções (...) que evitem a fragmentação em sistemas que não se comunicam" — Maria Eduarda Blaiklock, consultora internacional
Representantes públicos e privados dizem ser factível e necessário implementar um sistema nacional, mas concordam que isso exige “coordenação”.
“Há muitas iniciativas sérias em andamento.
É fundamental que União e estados (...) construam soluções interoperáveis, para evitar a fragmentação em sistemas que não se comunicam”, diz Maria Eduarda Blaiklock, consultora internacional que trabalhou no Ministério da Agricultura de 2004 a 2025.
“O Pnib foi bem desenhado.
Se conseguirmos efetivamente implantá-lo, colocaremos o Brasil em outro patamar”, afirma Pianez, da MBRF.