O baú de Verissimo: exposição e livros póstumos marcam homenagens ao mestre do humor, que completaria 90 anos

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Durante mais de cinco décadas, Luis Fernando Verissimo colaborou diariamente com textos e desenhos para a imprensa. Essa produção gigantesca continua sendo mapeada e catalogada por pesquisadores e pela família do autor, que teria completado 90 anos no último 26 de setembro. E já começa a render projetos e lançamentos, pouco mais de um ano após a morte do romancista, cronista, desenhista, roteirista e mestre do humor. Bruna Lombardi reflete sobre poder feminino em novo romance: 'Não tive na vida o terror de um cara tóxico do meu lado' 'O Rio de Fernando Sabino' mostra como o escritor fez da cidade um trajeto de encontros e afetos Em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, a exposição “Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor” recupera 300 itens do seu acervo, incluindo desenhos inéditos, manuscritos, objetos pessoais, fotos de família e cadernos de infância. Já “Crônicas de domingo” reúne os últimos textos do autor gaúcho antes da aposentadoria, publicados originalmente no GLOBO e no jornal O Estado de S. Paulo entre 2016 e 2020 (e inéditos em livro). Com lançamento previsto para a próxima terça-feira, será a sua primeira publicação póstuma (e a primeira pela sua nova editora, a Alfaguara). — Quando pensei em fazer o livro, fizemos um primeiro levantamento das crônicas de 1998 em diante e, apenas no Estado de S. Paulo vieram uns quatro mil textos — lembra o músico Pedro Verissimo, filho de Luis Fernando e organizador do livro. — E isso porque nessa época ele já havia diminuído o ritmo e passado a escrever apenas três vezes por semana. Último desenho de Luis Fernando Verissimo ilustra capa de 'Crônicas de domingo' Acervo familiar Desligadas do calendário O farto material permite diferentes recortes e ainda renderá muitos livros, de acordo com Pedro. Para este agora, o filho escolheu se concentrar em textos originalmente publicados nas edições dominicais dos jornais — e nos quatro últimos anos de sua carreira. São crônicas “frias”, no sentido que não repercutem notícias urgentes. Por outro lado, são calorosas na forma com que revisitam memórias, diálogos com amigos e pequenos causos domésticos (como a batalha travada entre a esposa de Verissimo, Lúcia Helena, e as pombas do quintal da casa deles). O livro também registra as últimas aparições de uma de suas personagens mais icônicas, a nostálgica socialite Dorinha. À frente da sua ONG Socialites Socialistas, ela detalha sua candidatura à presidência da república. “Nas pesquisas, estou empatada com os que não sabem ou não quiseram opinar, mas as pesquisas ignoram um grande segmento da população, formado pelos meus ex-maridos”, explica a personagem, em uma crônica de 2018. — As crônicas de domingo eram mais desligadas do calendário — lembra Pedro. — Durante a semana ele escrevia muito sobre o que estava acontecendo, sobre política, filmes, coisas mais imediatas. No domingo, podia fazer uma pequena ficção, uma memória, uma reflexão. Rabiscos de Luis Fernando Verissimo Acervo familiar Arte do rabisco A próxima edição póstuma de Verissimo deve reunir versos e desenhos da série “Poesia numa hora dessas?”, publicada de forma recorrente na imprensa ao longo de mais de 20 anos. A série, que traduz o lirismo apressado do cotidiano, já havia rendido uma coletânea de 2002, mas há material de sobra para uma nova edição, de acordo com Pedro. As novas publicações irão explorar o gosto de Verissimo pela arte do rabisco e do croquis, que ele cultivou até o fim da vida. Para além da sua obra gráfica consolidada, que inclui as tiras filosóficas de “As cobras” e a sátira social de “Família Brasil”, o autor também tinha o hábito de fazer desenhos avulsos e despretensiosos enquanto pensava sobre seus textos. O último que ele fez antes de morrer estampa a capa de “Crônicas de domingo”. Já os livros de crônicas serão divididos por temas, adianta Pedro. — Ele tem muitas crônicas sobre gente: pessoas reais, figuras históricas, figuras de música e tal. Eu adoraria fazer um “Quem é Quem” do Verissimo. Por exemplo: ele escreveu muito sobre John Coltrane, um de seus ídolos musicais. Dá para fazer fatias das mais variadas do trabalho dele. Luis Fernando Verissimo ainda menino em sua casa em Porto Alegre Divulgação Produção frenética Pedro e a mãe, Lúcia Helena, ainda vivem na histórica casa da família em Petrópolis, bairro de Porto Alegre, onde morou também o avô, Erico Verissimo, autor de clássicos da literatura brasileira como a saga “O tempo e o vento” e o romance “Incidente em Antares”. Para Pedro, a ausência do pai se transformou numa espécie de presença na residência. O escritório de Luis Fernando permanece intocado no primeiro piso, da mesma forma como ele próprio havia mantido o local de trabalho de Erico, no segundo andar. Durante décadas, enquanto Verissimo trabalhava simultaneamente em charges, crônicas, romances e roteiros para a TV, Lúcia Helena ficou responsável por armazenar a frenética produção do marido, formando um acervo que conta com coleções completas da produção de “As Cobras” e “Família Brasil”, crônicas, recortes de jornais, rascunhos e esboços, além de mais de mil livros e revistas (entre obras de autoria de Verissimo, traduções e exemplares usados em suas pesquisas pessoais). Tesouro digitalizado Todo esse tesouro de Luis Fernando Verissimo gaúcho foi cedido em comodato em 2017 para a Biblioteca da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) no campus de Porto Alegre. O autor já estava fragilizado com diversos problemas de saúde, mas continuava ativo. Em janeiro de 2021, escrevia uma crônica sobre os Estados Unidos para o jornal O GLOBO e decidiu deixá-la para o dia seguinte. Durante a madrugada, sofreu um AVC que afetou a parte cognitiva do cérebro e a sua capacidade de formular palavras. Depois disso, parou de escrever. Nos jornais antigos do seu acervo, é possível encontrar crônicas dos primeiros anos de carreira, publicadas uma única vez e que nunca chegaram a ser reunidas em livro. Também foram localizados textos que Verissimo não assinou (sua primeira função como jornalista foi escrever horóscopos), e que só sabemos que são dele porque foram guardados por Lúcia. — O acervo ainda está longe de ter sido inteiramente catalogado — explica Maicon Juliano Schmidt, bibliotecário da Unisinos e um dos responsáveis pela pesquisa do acervo. — A universidade pretende digitalizar esse material e disponibilizá-lo para pesquisa. Tira de Luis Fernando Verissimo Acervo familiar Rascunhos e ideias Parte desse material está em destaque na exposição “Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor”, que abriu no fim do mês passado no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo. A curadora Isa Pessoa, que editou a obra do gaúcho durante 15 anos, idealizou para a mostra uma espécie de mapa da mente do autor. O visitante faz uma imersão em sua obra por instalações, mas também em peças da sua vida íntima (como o saxofone que usava no seu grupo Jazz 6 ou ainda a impressionante coleção de álbuns iniciada na sua juventude, quando vivia nos Estados Unidos) e de seu trabalho. Anotações de possíveis diálogos engraçados e frases de efeito para o seu detetive Ed Mort, por exemplo, revelam o personagem ainda em estado embrionário e mostra como Verissimo lapidava seu texto humorístico. — A exposição ajuda a visualizar como nascem suas ideias e abordagens — diz Pessoa. — Tem esse lado didático, mas sempre com o humor que lhe era caro. Isa revirou o baú de Verissimo com a ajuda de sua família e encontrou objetos curiosos como cartas de tarô, algumas de suas primeiras crônicas enviadas para a imprensa e seus desenhos de juventude nos anos 1950. — A ideia é que todos os segmentos da exposição fossem acolhedores e dialogassem com a experiência estética da obra dele, que tem um texto culto e refinado, mas sem rebuscamentos. E sempre com muito humor — compara Isa.

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