'O ambiente pareceu congelar por um instante', diz a chef Monique Benoliel após episódio de intolerância no Leblon

 

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Na semana do Pessach, período no qual os judeus celebram a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, a chef carioca Monique Benoliel passou por momentos desagradáveis ao entrar para compras de rotina em um estabelecimento que frequentava há anos. O caso aconteceu na delicatessen Delly Gil, na Cobal do Leblon. A simples pergunta por um tipo específico de produto— o matzá, um pão plano e crocante, sem fermento, tradicionalmente consumido pelas famílias judaicas nesse período — desencadeou uma resposta agressiva que, na descrição de Monique fez o ambiente parecer "congelar por um instante". O dono do estabelecimento disse que estava “cansado dos judeus” e não os queria mais como clientes, segundo relatou a chef. O caso de intolerância chegou à Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj) que denunciou o episódio que notificou extrajudicialmente a loja, com prazo de três dias, para que a empresa apresente manifestação formal sobre os fatos. Procurada, a delicatessen não atendeu às ligações, mas publicou uma nota oficial no Instagram, lamentando o caso. Confira abaixo o relato de Monique Benoliel sobre o que aconteceu na loja:

"Era para ser uma visita comum, como tantas outras ao longo dos anos. Cheguei à Delly Gil antes de meio dia. Sou frequentadora assídua da delicatessen, sou familiarizada com o ambiente, cumprimentando todos como de costume. Ao perceber o Gil se aproximando e pedindo para um colaborador pegar um carrinho para mim, eu perguntei ingenuamente porque nessa Pessach ele não havia comprado Matzá. Contextualizando, em anos anteriores, sempre encontrava produtos típicos da época de Pessach na Delly Gil.

A resposta veio de forma abrupta e inesperada. Em voz alta, sem qualquer constrangimento, o proprietário declarou que não comprava mais produtos judaicos. Disse que estava “cansado dos judeus” e que não pretendia mais vender nenhum produto judaico, que não vendia mais para judeu.

O ambiente pareceu congelar por um instante. Confesso que fiquei em choque, visivelmente abalada, surpresa não apenas pelo conteúdo da fala, mas pela forma direta e hostil com que foi expressa. Aquela não era apenas uma decisão comercial — era uma declaração carregada de preconceito.

Ainda tentando processar o que acabara de ouvir, eu falei , com a voz entre a incredulidade e a tristeza:
“Então tenho que parar de vir aqui.” Sem hesitar, o proprietário retrucou, de maneira seca:
“É isso aí.”

Falei ainda com a Lívia, filha do Gil, pessoa que sempre foi extremamente querida por mim, e ela me pediu desculpas. Enquanto ela tentava reverter, seu pai insistia para ela ir “atender clientes” que precisavam de ajuda.

Diante disso, não restou muito a ser dito. Eu, que por tanto tempo havia frequentado o local, deixei meu carrinho com os produtos e saí em silêncio, carregando comigo o peso de uma experiência inesperada e profundamente desconfortável — um rompimento brusco com um espaço que fazia parte da minha rotina.

Estava acompanhada da Naná, que pode ser testemunha e também pude observar vários clientes incrédulos que podem contribuir com o meu relato."

* Em depoimento a Walter Farias