Há muitos anos eu escuto a mesma frase, principalmente de quem associa a bebida ao relaxamento, à diversão ou à recompensa: “o álcool me dá energia”. Essa sensação existe por conta da sensação que a substância traz: de repente, a pessoa se solta, perde a vergonha, fala mais, ri mais, dança mais. De fato, o álcool parece um combustível social, mas a realidade é outra. Biologicamente, ele desacelera o cérebro e não dá energia nenhuma.
Para quem quer emagrecer, o álcool não é um aliado, pois ele pode afetar a composição corporal e acabar com a disposição.
O álcool reduz a atividade cerebral e interfere na comunicação do cérebro e do corpo, agindo em sistemas importantes como o GABA e o glutamato, responsáveis por regular coordenação, tomada de decisão, percepção de risco, controle de impulso e equilíbrio. Ou seja, é um depressor do sistema nervoso central. Você não fica mais poderoso, fica menos crítico.
O impacto no emagrecimento é gigante, muito maior do que só as calorias que existem na bebida. É algo mais sério e profundo.
Quando o cérebro perde parte da capacidade do controle, acaba perdendo também a eficiência nas escolhas, e as chances de exagerar aumentam. Você acaba beliscando sem nem perceber, pede comida sem ter fome, come rápido demais, sem saborear e perceber a comida. Dorme mal, acorda indisposta, o treino acaba sendo mal feito e acaba entrando em um efeito dominó.
Muitas pessoas passam a semana se alimentando bem, criando uma rotina consistente, treinando e acabam destruindo em dois dias de exagero a parte mais importante desse processo. Não porque passaram do ponto, mas porque o álcool afeta os mecanismos que sustentam os resultados.
A revista Appetite publicou um estudo que revelou que o consumo do álcool pode aumentar a ingestão calórica justamente pela chamada desinibição. A pessoa perde parte da capacidade de regular o comportamento alimentar. Uma situação que acontece muito, e quase ninguém fala dela, é o álcool também atrapalhar o resultado do treino após seu término.
O treino nada mais é do que um estímulo de adaptação. Então, primeiro você treina para seu corpo responder àquele estímulo, recuperar e evoluir. Esse processo, na verdade, depende de mecanismos hormonais, neurológicos e musculares extremamente organizados. As pesquisas sobre a recuperação pós-treino mostram que o álcool é capaz de reduzir a síntese da proteína muscular, uma das etapas fundamentais para adaptação do corpo ao treino.
Foi publicado na revista PLOS One um estudo que observou que essa diminuição acontece até mesmo quando o álcool foi consumido juntamente com a proteína. Ou seja, o corpo continua sofrendo impactos.
Quando há o consumo de álcool, o cérebro acaba perdendo a qualidade de recuperação profunda, porque a substância faz você dormir rápido mas sem qualidade. O corpo regula pior hormônios que estão ligados à fome e à saciedade, como grelina e leptina, e no dia seguinte você sente menos disposição para se movimentar e muito mais vontade de buscar comida altamente calórica. O problema nunca foi uma cervejinha, uma taça de vinho ou o drinque, mas seu efeito em cadeia.
O ponto aqui não é nunca mais ingerir uma gota de álcool, ser radical e nunca mais beber. Afinal, eu acredito que a saúde envolve o equilíbrio, a vida pede isso, a mescla entre o social e o prazer. Mas é necessário fazer esse alerta, e informar sobre a diferença entre beber sabendo que isso gera um grande impacto no corpo e beber acreditando que são apenas calorias extras no corpo.
O álcool é um grande vilão, reduzindo clareza mental, piorando decisões, causando uma grande bagunça, que envolve desde o sono até a recuperação muscular, aumentando impulsos alimentares e diminuindo a constância. E você já sabe, transformação corporal não acontece na intensidade de um único treino, ela acontece na repetição das boas escolhas.
