O agro vive uma grave crise de crédito?

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Na segunda parte da entrevista a VEJA Negócios, Antônio Luz, economista-chefe da Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), diz que o agronegócio brasileiro vive uma crise de crédito muito grave, mas que não se restringe ao setor. Há, inclusive, um risco patrimonial para os produtores, por conta de adaptações bruscas de bancos estatais a uma regulamentação do Banco Central.

Essa é uma continuação de uma entrevista cuja primeira parte foi publicada aqui. Leia a sequência:

A falta de crédito está restrita ao agro? Não.

O Brasil vive uma crise de crédito muito grave. Na minha experiência, nunca vi uma situação como esta.

É possível olhar o crédito total e encontrar crescimento, mas é preciso separar crédito direcionado de crédito livre. Minha avaliação é que a restrição está justamente no crédito livre, que é fundamental para empresas, pessoas físicas e produtores rurais.

Uma crise de crédito não combina com um setor cuja expansão depende de alavancagem. Podemos reduzir o endividamento para nos proteger dos juros altos, mas isso também significa crescer menos.

Continua após a publicidade No Rio Grande do Sul, as perdas climáticas explicam a dificuldade de acesso a financiamento?

Elas agravam o problema, mas não o explicam sozinhas. O produtor gaúcho às vezes acha que o que está acontecendo com ele é exclusivo do estado, por causa das perdas climáticas.

Não é. A restrição está no Brasil inteiro.

No Rio Grande do Sul, a situação fica mais difícil pelo histórico recente de safras ruins e renegociações. Mas não podemos confundir uma carteira pressionada por renegociações com inadimplência.

Continua após a publicidade Os dados de liberação de crédito que estou apresentando mostram uma queda expressiva no país.

Isso materializa o relato do produtor que vai ao banco e não encontra recursos. Não é um problema apenas dele, nem apenas do estado.

Por que os pedidos de recuperação judicial ganharam espaço entre produtores rurais? Uma parte da explicação é que o acesso ao instrumento se ampliou.

Empresas do agronegócio já podiam recorrer à recuperação judicial; a novidade foi a possibilidade de o produtor rural também utilizá-la, observados os requisitos. Continua após a publicidade

Na minha avaliação, há duas situações. Existe o produtor que realmente não tinha outro recurso.

Mas também houve quem aderisse sem entender direito as consequências. Formou-se um mercado de oferta de recuperação judicial como se ela fosse uma solução de financiamento.

Parte dos escritórios apresentou o instrumento dessa maneira. Outros profissionais, mais cautelosos, sempre defenderam que ele deveria ser o último recurso.

Uma solução que pode fazer sentido para alguns também pode encarecer o crédito e endurecer as garantias para o conjunto dos produtores. Continua após a publicidade

Além dos juros, que mudanças nas regras bancárias afetaram o financiamento rural? A entrada em vigor da Resolução 4.966, em janeiro de 2025, foi um fator importante.

Ela mudou as regras de provisionamento, isto é, o reconhecimento de perdas esperadas nas operações de crédito. Não considero a regra um problema em si.

Minha crítica é à forma como instituições financeiras fizeram a transição. Houve tempo para adaptar as operações, rever garantias e conversar com os clientes, mas essa preparação não ocorreu de maneira adequada em parte do sistema.

Continua após a publicidade O produtor que estava acostumado a obter determinado valor passou a enfrentar exigências maiores de garantia e limites menores.

Quando isso acontece de forma brusca, o fluxo de caixa é interrompido. Como a redução de um limite pode acabar aumentando a inadimplência?

Imagine um produtor que sempre toma determinado valor, paga a operação e conta com a renovação para financiar a safra seguinte. Se o banco reduz esse limite pela metade, ele precisa encontrar outra fonte de dinheiro, possivelmente muito mais cara.

Pode chegar a um ponto em que pensa: “Se eu pagar tudo agora e não conseguir financiar o próximo plantio, paro de produzir”. Isso cria um incentivo perverso.

A restrição que deveria reduzir o risco pode acabar agravando a dificuldade de pagamento. O produtor organiza seus compromissos contando com um fluxo de financiamento.

Quando esse fluxo é quebrado de uma hora para outra, o problema se espalha para fornecedores, revendas, cooperativas e outros credores. Como essa transição deveria ter sido feita?

Gradualmente, com comunicação e planejamento. A instituição deveria ter explicado ao cliente que as regras mudariam e que seria necessário rever garantias, limites e prazos.

Se não fosse possível manter todo o financiamento nas condições anteriores, poderia negociar uma combinação de linhas ou uma redução progressiva. O produtor teria tempo para se reorganizar.

O problema foi sair de uma situação para outra de forma abrupta. Somamos juros altos por muito tempo, menor disponibilidade de crédito, novas exigências e um ciclo desfavorável de commodities.

Foi a combinação desses fatores que agravou a crise. A situação do agro é pior do que a de outros setores?

Sinceramente, não acho. Embora muita gente do meu setor queira que eu diga que o agro está na pior situação, considero que micro e pequenas empresas de comércio e serviços enfrentam dificuldades ainda maiores.

O agro tem saídas e perspectivas. Minha expectativa é de uma boa safra em 2027 e de preços melhores, com uma mudança no ciclo das commodities.

Isso não significa que estejamos bem. Mas temos uma perspectiva de recuperação.

Pequenos negócios de comércio e serviços estão muito endividados e enfrentam um cenário de desaceleração econômica. Na minha avaliação, a situação deles é pior.

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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