Nunca viu, comeu ou ouviu falar? Conheça vegetais subaproveitados como taioba, camu-camu e araruta
O Brasil tem pelo menos 369 espécies alimentares, entre vegetais, fungos e animais, subaproveitadas em seu potencial nutricional e comercial, segundo levantamento feito por um grupo de pesquisadores de 15 universidades, quatro institutos e duas ONGs que atuam com temas relacionados à biodiversidade. Entre os alimentos há desde plantas alimentícias não convencionais (Pancs), como a taioba, a frutas nativas, como o camu-camu, e animais de caça, como o jacaré.
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— São alimentos que fazem parte da nossa biodiversidade, mas que temos um pouco de dificuldade de acessar quando comparados a outros alimentos que estão cotidianamente no nosso prato — diz a autora principal do estudo, Michelle Cristine Medeiros Jacob, do laboratório de biodiversidade e nutrição da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Como exemplo, ela cita dados da Agência para Agricultura e Alimentação da ONU (FAO) que apontam que 60% das calorias que o mundo consome são provenientes de apenas quatro alimentos: batata, trigo, soja e milho.
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— O resultado é que a gente tem uma dieta bem monótona, esses alimentos que fazem parte da nossa paisagem não chegam ao nosso prato. Por isso têm o nome de “alimentos negligenciados” — explica Jacob.
O número encontrado, de 369 espécies, foi obtido a partir do levantamento na literatura científica e em outros documentos com registro de consumo humano. Em seguida, foi feita uma pesquisa sobre as informações nutricionais disponíveis.
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— Encontramos pouca informação nutricional sobre muitos deles, o que mostra uma lacuna. Existe um baixo consumo porque há pouco acesso, mas também porque há poucas informações para subsidiar o aconselhamento da população — diz a pesquisadora.
Mandioca além da farinha
Na comunidade ribeirinha Boa Esperança, no Amazonas, o líder comunitário Luiz Sérgio de Reis relata que é comum descartar parte da sua produção de taperebá por falta de mercado:
Luiz Sérgio de Reis, da comunidade ribeirinha Boa Esperança, no Amazonas, é produtor de frutas nativas
Arquivo pessoal
— Eu tenho quatro árvores no meu sítio, e só de uma delas eu fiz 100 quilos de polpa, as outras foram estragando tudinho porque não tinha onde colocar.
No rol de produtos locais, estão ainda o cupuaçu e o camu-camu, também nativos da Amazônia.
— A gente tem um monte de produto, mas não é bem aproveitado, porque falta mercado — lamenta Reis.
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Na comunidade Bom Jesus, também no Amazonas, a agricultora Edna Rocha Lopes busca conscientizar os vizinhos sobre o valor da biodiversidade local. No cultivo da mandioca, muito forte na região, ela lamenta o foco dado apenas à produção de farinha em detrimento de outros produtos obtidos da raiz considerada “rainha do Brasil”:
—Da mandioca, as pessoas costumam só fazer a farinha, mas dela também é retirada a goma, que dá para fazer farinha seca, o polvilho, tem o tucupi também.
Apesar de popular no prato dos brasileiros, a mandioca também é classificada como alimento negligenciado pelos pesquisadores. Jacob, da UFRN, ressalta que “a presença dela nas redes de suprimento ainda é menor do que a de outros tubérculos que a gente conhece, como a batata”.
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Esse cenário, segundo Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e também autor do estudo, impacta diretamente a segurança nutricional dessas comunidades:
— Nas comunidades ribeirinhas e indígenas, o índice de desnutrição infantil é mais ou menos seis vezes maior do que no Brasil no geral, e ao mesmo tempo há muitos nutrientes que estão disponíveis nas comunidades.
Indicação médica
Foi justamente um pedido médico que levou o agricultor Pedro Augusto Borges, de Conceição do Almeida, a iniciar a disseminação da araruta no Recôncavo Baiano em 2007:
— Um médico de Salvador que consultou o filho do cunhado de um amigo, que estava com problema sério de diarreia, disse que a única coisa que poderia salvar o menino era a araruta.
Nativo do Brasil, o tubérculo também é considerado negligenciado. Ele serve para fazer fécula e polvilho para uso em massas e biscoitos.
— Eu tenho 40 anos, as pessoas da geração da minha avó falam muito de araruta e hoje a gente não encontra no mercado — diz Jacob.
Borges, de 70 anos, luta para manter a produção:
— A araruta requer muita mão de obra, e a gente não está encontrando. Então mantenho minha produção pequena. Quando alguém me encomenda, eu vendo.
