Num ano de eleição presidencial, desaceleração da economia se acentua no segundo semestre

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Fonte da notícia: Globo Globo

A economia brasileira deverá desacelerar com ainda mais força na segunda metade do ano. Para vários analistas, haverá estagnação do PIB no período de julho a dezembro, depois de um primeiro trimestre de crescimento forte, de 1,1% em relação aos três meses anteriores, feito o ajuste sazonal, e de uma expansão já mais moderada no segundo, de 0,5%, com queda de 0,4% no consumo das famílias. Esse enfraquecimento da atividade pode ajudar a entender os níveis de desaprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num cenário marcado por juros elevados e pesado endividamento – na pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, 51% dos entrevistados afirmam desaprovar a administração do presidente, enquanto 45% se dizem satisfeitos.  Na sexta-feira, a XP reduziu a estimativa de crescimento para 2026 de 2% para 1,7%, observando que “dados de alta frequência apontam para um desempenho ainda mais fraco no terceiro trimestre”. Segundo os economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, o PIB no período de julho a setembro deverá ficar estável em relação ao trimestre anterior; antes, trabalhavam com uma alta de 0,3%. “Nossas projeções para os principais indicadores de atividade de julho estão no território negativo”, escrevem eles, para quem “o baixo dinamismo da atividade deve continuar no quarto trimestre”, prevendo expansão de apenas 0,1% sobre o terceiro.  A 4intelligence também destaca o enfraquecimento da atividade econômica no terceiro trimestre, observando que os primeiros indicadores do período confirmam esse quadro. “A produção industrial de julho cresceu apenas 0,2% em relação ao primeiro, e sua composição reforçou o diagnóstico de desaceleração”, aponta a consultoria. “O nível de produção da indústria de transformação foi, em julho, 1,7% inferior ao pico recente, ocorrido em abril. No acumulado do ano, esse segmento cresceu apenas 0,1%.” A XP nota que o mercado de trabalho continua aquecido, mas aponta sinais de moderação no emprego e na renda cada vez mais claros. Com isso, deverá ter uma contribuição menor para o crescimento nos próximos trimestres. 

O governo adotou várias medidas para estimular a economia neste ano, mas o efeito sobre o consumo foi limitado, como afirmam os economistas da 4 intelligence, citando a expansão do crédito para bens duráveis (como automóveis para motoristas de aplicativos e taxistas) e a isenção do imposto de renda para que ganha até R$ 5 mil. “O elevado comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida, após forte expansão estrutural da oferta de crédito e sob uma política monetária restritiva, desestimulou novas operações e limitou a capacidade de converter o impulso de renda em maior consumo”, diz a consultoria.

Para a XP, o “mercado de crédito segue como principal risco” para a atividade. Números referentes a julho sobre empréstimos e financiamentos mostraram um aumento disseminado da inadimplência. “As concessões de crédito vêm perdendo ímpeto, com exceção aos financiamentos imobiliários, que seguem firmes. O comprometimento de renda das famílias com o serviço das dívidas renovou máximas históricas, o que pesa sobre a confiança dos consumidores”, observam Margato e Maluf. “A deterioração das condições de crédito não será revertida no curto prazo, sendo um elemento relevante de contenção do crescimento adiante”, dizem eles. 

A 4intelligence também reduziu a projeção de crescimento para 2026, de 2% para 1,9%. Para comparação, a economia cresceu 2,3% em 2025, após expansão de 3% ou mais de 2022 a 2024. Na visão da consultoria, “a demanda doméstica perdeu impulso, os setores mais sensíveis ao ciclo já exibem desaceleração e a política monetária restritiva produz efeitos cada vez mais visíveis”. No segundo trimestre, os setores que garantiram um crescimento um pouco melhor foram justamente os menos ligados ao ciclo econômico – a agropecuária, que teve alta de 2,8% em relação ao primeiro, e a indústria extrativa, com expansão de 3,4%. 

A desaceleração da economia abre espaço para a continuidade do ciclo de queda dos juros, que ocorreu timidamente a partir de janeiro -  desde então, a Selic recuou apenas 1 ponto percentual, de 15% para 14% ao ano. Novos quedas da taxa parecem prováveis no segundo semestre, mas a expectativa é de cortes modestos, num cenário em que a inflação deste ano e as expectativas para os próximos continuam acima da meta perseguida pelo Banco Central (BC), de 3%. A XP estima que os juros terminarão 2026 em 13,25%, o que ainda será uma taxa real elevada, de 8,7%, quando se desconta o IPCA projetado para 2027, de 4,2%. 

Nesse quadro, os juros ainda ficarão elevados nos próximos meses, causando um alívio pequeno e não imediato para a massa de famílias endividadas. Grande parte dos eleitores que votarão daqui a menos de um mês, vale lembrar, sofre com dívidas caras. É um motivo de descontentamento em relação ao governo, apesar de mais uma versão do Desenrola ter sido lançada neste ano. O programa de renegociação de débitos expirou no fim de agosto, aparentemente sem ter produzido grande efeito sobre a massa de endividados.

Amir Balam / Unsplash

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