Novo vídeo indica que míssil Tomahawk, dos EUA, atingiu base perto de escola no Irã; democratas cobram investigação
A divulgação de novos vídeos sobre o ataque a uma escola primária em Minab, no sul do Irã — onde mais de 170 pessoas morreram, muitas delas crianças — vem pressionando o governo dos Estados Unidos, que nega oficialmente a autoria do bombardeio. Nesta segunda-feira, um dia após a agência semioficial iraniana Mehr publicar uma gravação que reforça as acusações de que um míssil Tomahawk americano teria atingido o local, congressistas democratas pediram uma investigação “imparcial” do Pentágono sobre o episódio. O local foi severamente danificado por um ataque de precisão ocorrido ao mesmo tempo que bombardeios dos EUA atingiam uma base naval operada pela Guarda Revolucionária Iraniana, ao lado da escola.
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Na semana passada, o jornal já havia divulgado um conjunto de evidências — incluindo imagens de satélite, postagens em redes sociais e outros vídeos verificados — que sugeria que os EUA foram responsáveis pelo ataque ao prédio da escola primária Shajarah Tayyebeh.
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"Uma análise independente sugere de maneira plausível que o ataque pode ter sido lançado por forças americanas, o que, se for verdade, o tornaria um dos piores casos de baixas civis em décadas de intervenção militar dos Estados Unidos no Oriente Médio", escreveram vários senadores democratas em um comunicado publicado nesta segunda-feira. "O assassinato de estudantes é ultrajante e inaceitável em qualquer circunstância".
No documento, os congressistas americanos exigem que o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, apresente uma "investigação completa e imparcial" sobre o incidente. No sábado, ao ser perguntado por um repórter do jornal americano se os Estados Unidos haviam bombardeado a escola, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negou.
— Não. Na minha opinião e com base no que vi, isso foi feito pelo Irã. Eles são muito imprecisos, como vocês sabem, com suas munições — afirmou no sábado.
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Ao lado de Trump, Hegseth disse que o Pentágono havia aberto uma investigação, mas afirmou que "o único lado que visa civis é o Irã”.
O vídeo do ataque divulgado pela agência iraniana Mehr, publicado pela primeira vez pelo coletivo de investigação Bellingcat, também foi verificado de forma independente pelo New York Times. O jornal americano comparou características visíveis nas filmagens com novas imagens de satélite capturadas dias após os ataques em Minab.
Secretário de Defesa (ou da Guerra) dos EUA, Pete Hegseth
Anna Moneymaker/Getty Images/AFP
As imagens foram filmadas de um canteiro de obras em frente à base e mostram um caminho de terra batida em uma área gramada e pilhas de detritos também evidentes em imagens de satélite recentes, reforçando sua credibilidade. O vídeo também condiz com outros verificados gravados logo após os ataques.
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Uma das análises realizada pelo jornal americano mostra o míssil atingindo um edifício descrito como uma clínica médica na base da Guarda Revolucionária. Colunas de fumaça e detritos saem do prédio após o impacto, enquanto gritos distantes de moradores são ouvidos.
À medida que a câmera se move para a direita, grandes colunas de poeira e fumaça já estão subindo da área ao redor da escola primária, sugerindo que ela havia sido atingida pouco antes do ataque à base naval. Isso é corroborado por um cronograma dos ataques montado pelo Times, que mostra que a escola foi atingida por volta do mesmo horário que a base.
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Vários outros edifícios na base naval também foram atingidos por ataques de precisão na ofensiva, segundo mostra uma análise de imagens de satélite. Determinar precisamente o que aconteceu tem sido dificultado pela falta de fragmentos de armas visíveis e pela incapacidade de repórteres estrangeiros chegarem ao local.
Mas o jornal americano identificou o míssil do vídeo como um modelo Tomahawk, que nem os militares israelenses nem os iranianos possuem. Dezenas deles já foram lançados por navios de guerra da Marinha dos EUA contra o Irã desde 28 de fevereiro. O Comando Central dos EUA afirmou que um vídeo divulgado por eles, mostrando vários Tomahawks sendo lançados de navios da Marinha, foi filmado naquele dia, quando a base iraniana e a escola foram atingidas.
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O Departamento de Defesa descreve os Tomahawks como mísseis guiados de “longo alcance e alta precisão” que podem voar cerca de 1.600 km. Eles são programados com um plano de voo específico antes do lançamento, e os mísseis se autoguiam até seus alvos. Cada míssil tem cerca de 6 metros de comprimento e 2,6 metros de envergadura, de acordo com a Marinha. Os Tomahawks mais comumente usados possuem ogivas que contêm o poder explosivo de cerca de 450 kg de TNT.
Trevor Ball, um ex-técnico de descarte de artefatos do Exército dos EUA, também identificou o míssil no vídeo como um Tomahawk, assim como outro especialista em armas, Chris Cobb-Smith, diretor da Chiron Resources, uma agência de logística e segurança.
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Comando Central dos EUA
O general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, disse em uma conferência de imprensa na quarta-feira que as forças dos EUA estavam realizando ataques no sul do Irã no momento em que a base naval e a escola foram atingidas. Um mapa apresentado por ele mostrou que uma área incluindo Minab, perto do Estreito de Ormuz, foi alvo de ataques nas primeiras 100 horas da operação, embora não tenha identificado explicitamente a cidade.
— Ao longo do eixo sul, o grupo de ataque do USS Abraham Lincoln continuou a exercer pressão a partir do mar ao longo do lado sudeste da costa e tem desgastado a capacidade naval em todo o estreito — disse o general. — Os primeiros atiradores no mar foram Tomahawks lançados pela Marinha dos Estados Unidos.
Em junho, um submarino da Marinha lançou mais de duas dúzias de Tomahawks em uma instalação nuclear em Isfahan, no Irã, como parte de uma guerra que durou 12 dias.
