Novo calendário brasileiro traz impactos na preparação física e pode aumentar número de lesões

 

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A temporada de 2026 marca uma ruptura inédita no futebol brasileiro. Com o início do Campeonato Brasileiro no dia 28 de janeiro, todo o ecossistema do principal esporte do país será afetado: o condicionamento físico dos atletas, as movimentações do mercado da bola e os torneios estaduais. Na primeira reportagem da série desta semana sobre o novo calendário nacional, o GLOBO mostra como a mudança impõe férias mais curtas, pré-temporadas comprimidas, semanas congestionadas e um novo desafio para preparadores físicos, comissões técnicas e atletas. O impacto não será apenas no corpo, mas também mental e estratégico, e deve se refletir diretamente no desempenho dos times nas primeiras rodadas da competição.

Para profissionais da área, a mudança inaugura um período de adaptação que tende a gerar efeitos distintos ao longo da temporada — desde jogos mais cadenciados no início do campeonato até o risco maior de sobrecarga e lesões no meio do ano. O pouco tempo de pré-temporada, no entanto, não chega a ser uma novidade. Já é a realidade dos últimos anos, principalmente dos times mais competitivos.

Porém, os Estaduais perdem o papel de extensão da pré-temporada de anos recentes. Ainda que alguns clubes utilizem equipes mistas ou a base nas primeiras partidas, o quarto ou quinto jogo do ano já será a estreia no Brasileiro .

O Flamengo, por exemplo, só inicia a preparação com o elenco principal a partir do dia 12. No dia 28, irá ao Morumbis enfrentar o São Paulo, e, quatro dias depois, disputará a primeira final do ano: a Supercopa contra o Corinthians, no Mané Garrincha.

Para Diogo Linhares, preparador físico do Flamengo, a principal diferença de 2026 está na combinação entre menos recuperação física e mental e menos tempo para construção de carga antes da estreia. No médio prazo, isso pode aumentar o risco de lesões, pois haverá poucas semanas livres de jogos .

Realidades distintas

Ele pondera que os jogadores chegam ao início do ano no melhor condicionamento possível dentro do tempo disponível, embora ainda em processo da construção física necessária para todo o ano.

—A partir do quarto ou quinto jogo, pelas métricas utilizadas, eles já conseguem atingir os níveis que sustentamos ao longo da temporada. Não existe número mágico, depende do elenco, do modelo de jogo e do contexto — diz.

Os clubes não serão impactados da mesma maneira. A realidade do Bragantino é distinta à dos cariocas. O Campeonato Paulista, considerado o estadual mais competitivo do país, tem início no próximo fim de semana. O time de Bragança, que se reapresentou na última sexta-feira, terá menos de 10 dias de trabalho em conjunto até a estreia contra o Noroeste. Antes de dar o pontapé inicial no Brasileiro diante do Coritiba, vai enfrentar Corinthians, Mirassol e Santos.

— Antes, os estaduais ajudavam a construir sincronia coletiva, ajustar cargas gradativas e diminuir risco de lesão. Nunca tivemos tão pouco tempo. Serão nove dias presenciais. É um desafio real — afirma Lucas Itaberaba, preparador físico do Bragantino.

O jeito de minimizar o curto tempo foi fazer uma “mini pré-temporada” virtual com o elenco. A comissão técnica do Bragantino passou a todos os jogadores um cronograma de treinamentos entre os dias 26 e 30 de dezembro a ser realizado onde estivessem.

Trabalho nas férias

É parte da mudança da lógica das férias. Se antes o jogador ficava até dois meses totalmente parado, hoje o cenário é outro. A maioria dos atletas tira entre sete e dez dias de descanso absoluto e, em seguida, retoma atividades orientadas — seja com o clube ou com profissionais externos. Nas redes sociais, já virou praxe fotos e vídeos de jogadores treinando enquanto curtem o recesso. Marlon Freitas, capitão do Botafogo e prestes a ser anunciado pelo Palmeiras, foi um deles.

— Duas semanas sem estímulo já são suficientes para derrubar a parte aeróbica. O VO₂ (volume de oxigênio) cai, os níveis de sprint caem, e quando o jogador retorna, o corpo sente. O atleta entendeu que ele é a estrela. Deixou de ser só técnica. É uma corrida física anual. Alimentação, sono, hidratação, tudo conta para ter mais minutos em campo. Quem não se apresenta bem fisicamente perde minutagem — afirma o performance coach Kadu Fadel, que já trabalhou com Luiz Henrique, John Kennedy e André.

Apesar de todos os ajustes, a expectativa é de partidas mais lentas nas primeiras rodadas. Menos explosão, menos profundidade e mais controle de carga para evitar lesões. Estudos indicam que, em muitos casos, o jogador ainda não está totalmente recuperado 96 horas após uma partida, mas eles entram em campo mesmo assim.

— Teremos jogos com baixa intensidade e muitas substituições. Pode ser que muitos times comecem desfalcados por querem dar prioridade à preparação física e não colocar atletas importantes em risco — diz Luiz Felipe Sinforoso, gestor de performance e ex-preparador físico de Botafogo e Vasco. — Mas tudo é novo. Vamos aprender muito esse ano.