Nova pílula do laboratório que criou as estatinas reduz colesterol em 64%; entenda como funciona

 

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A pílula experimental da farmacêutica MSD para colesterol reduziu os níveis da placa que obstrui as artérias muito mais do que comprimidos mais antigos em um novo estudo, mostrando que ela pode rivalizar com potentes injeções no tratamento de pacientes de alto risco.

O novo comprimido, chamado enlicitide, cortou os níveis de colesterol ruim (LDL) em mais de 64% em pacientes que também tomavam estatinas, de acordo com resultados apresentados na última segunda-feira no encontro do American College of Cardiology em Nova Orleans, nos Estados Unidos.

Os dados foram publicados simultaneamente no periódico médico da entidade. A queda observada no colesterol foi significativamente maior do que a observada com o comprimido mais antigo Zetia, com o Nexletol, da Esperion Therapeutics, ou com a combinação dos dois, informou a MSD em comunicado.

O estudo de oito semanas é o terceiro a demonstrar a capacidade do enlicitide de reduzir o colesterol em pacientes com histórico de doença cardíaca ou com alto risco de eventos cardíacos. A farmacêutica planeja solicitar aprovação para uso às agências reguladoras rainda neste ano, após ser contemplada por um novo programa da Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, destinado a acelerar o acesso a novos medicamentos promissores.

A expectativa é que a empresa protocole o pedido no verão americano (inverno brasileiro) e obtenha aprovação a partir de setembro, segundo o analista do RBC Capital Markets Trung Huynh. Se aprovado, as vendas poderão alcançar US$ 5 bilhões até 2034, estimou o especialista.

A MSD aposta que sua nova pílula terá mais sucesso do que medicamentos mais antigos com o mesmo alvo terapêutico — que exigiam injeções e, inicialmente, tinham preços elevados — no combate às doenças cardíacas, principal causa de morte no mundo.

O uso dessas drogas, incluindo o Repatha, da Amgen, e o Praluent, da Sanofi e da Regeneron Pharmaceuticals, ficou muito aquém das expectativas dos investidores, apesar de estudos mostrarem que eram capazes de reduzir o colesterol LDL em uma faixa de aproximadamente 60% a 70%.

— O enlicitide tem real potencial para levar muito mais pessoas a atingirem sua meta de LDL — diz Puja Banka, vice-presidente associada de desenvolvimento clínico global da MSD.

Por se tratar de um comprimido, o laboratório pode oferecê-lo a um preço menor do que as injeções, que costumam ser mais caras para fabricar. Além disso, alguns pacientes preferem um comprimido de uso diário a uma injeção, afirmaram cardiologistas.

Entenda como funciona

Os dois tipos de medicamento, injetáveis e o novo comprimido, inibem o PCSK9, uma proteína que se liga aos receptores de LDL e impede que eles removam o colesterol ruim do sangue.

É difícil identificar diferenças de desfechos entre as duas abordagens, uma vez que o estudo não foi uma comparação direta, e os ensaios de longo prazo destinados a verificar se o enlicitide previne complicações como ataques cardíacos e mortes ainda estão em andamento. Mesmo assim, alguns médicos estão entusiasmados com as perspectivas da pílula.

— Acho que a migração para a via oral e a existência de uma alternativa mais barata provavelmente vão fazer explodir o uso — afirma Christopher Kramer, presidente do American College of Cardiology. A redução do colesterol produzida pela pílula da MSD parece ser "muito próxima" do que pode ser alcançado com os medicamentos injetáveis, acrescenta.

Em um grande ensaio publicado em fevereiro, o medicamento reduziu o colesterol em 55,8% a mais do que um placebo ao longo de 24 semanas, de acordo com os resultados publicados na revista científica New England Journal of Medicine. O ensaio atual comparou o enlicitide a outros comprimidos frequentemente adotados em combinação com estatinas, uma classe amplamente usada de medicamentos redutores de colesterol.

Para pessoas em risco de doença cardíaca, o objetivo é geralmente manter os níveis de LDL abaixo de 70. No entanto, novos estudos destacaram que, para grupos de maior risco, é preferível chegar abaixo de 55, diz Kramer. Isso frequentemente não é possível apenas com estatinas.

— Qualquer coisa que você possa fazer para levar o LDL a 55 nos pacientes — e no número crescente de grupos que se beneficiariam dessa meta — é algo que faz muita falta. Os PCSK9 são incrivelmente eficazes nesse sentido, e ter um PCSK9 oral é uma enorme vantagem — conta.