Nova leva de thrillers revela lado sombrio da internet com tramas sobre influencers, podcasters e fãs de K-pop

 

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Para seus milhões de seguidores no Instagram, Madison March é a perfeita “tradwife”. Como outras mulheres do movimento popularizado na internet, a influenciadora rejeita papéis de gênero modernos e se dedica exclusivamente ao lar. Nas redes sociais, sua vida se resume a assar pão, criar filhos e manter a casa impecável até a chegada do marido. Esse cenário idílico, porém, esconde segredos sombrios, que começam a vir à tona com a chegada de Cally, tutora dos filhos da influenciadora — e fã do conteúdo que a patroa posta.

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O abismo entre as fachadas virtuais e a realidade fora do feed é o tema do recém-lançado “A dona de casa perfeita” (Harpercollins), da britânica Liane Child. O romance integra uma nova leva de thrillers que examina o lado sombrio da fama na internet e transforma influenciadores, podcasters e integrantes de fandoms on-line em protagonistas de tramas criminosas. Nesse tipo de narrativa, que alguns críticos estão chamando de influencer noir, os mecanismos das plataformas digitais não são um mero pano de fundo, mas parte ativa da violência.

— O que me intriga no fenômeno das tradwives é que esse conteúdo vende uma fantasia — diz Child, em entrevista por vídeo. — O que você vê nunca é o que realmente está acontecendo na vida daquelas pessoas. E isso faz das redes sociais um cenário perfeito para thrillers, porque ali sempre existe uma distância enorme entre a imagem e a verdade.

Na semana passada, um escândalo sexual abalou o mundo das tradwives. Conhecida nas redes como TradCath, a influenciadora Sarah Stock foi acusada de ter um caso extraconjugal com o podcaster conservador Elijah Schaffer.

Traições matrimoniais, contudo, poderiam ser consideradas triviais perto das intrigas reveladas em “A dona de casa perfeita”.

O caso da fictícia Madison March entra, como era de se esperar, na esfera policial, mas também avança sobre temas com os quais qualquer leitor poderia se identificar, como controle abusivo e vulnerabilidade emocional.

— Muitas mulheres que se deixam seduzir pelo fenômeno não percebem que, quando você entrega o controle da sua vida a seu marido, você se torna dependente, tanto do ponto de vista financeiro quanto emocional — alerta a autora. — Ser uma “mulher do lar” pode nos colocar em perigo, mesmo quando não parece.

Submundo tóxico

O fenômeno das tradwives também inspirou outra escritora britânica, a best-seller Lisa Jewell, que prepara um novo thriller ambientado nesse universo. O projeto ainda não tem título.

Lançada no Brasil pela editora Intrínseca, Jewell conta que não acompanha de perto a cultura on-line e que prefere buscar ideias nos documentários de true crime das plataformas de streaming. Ainda assim, sua obra dialoga com diversos fenômenos surgidos na internet. Lançado em 2025, “Garota invisível” explora o submundo tóxico dos incel (celibatários involuntários) e a violência contra mulheres nos fóruns virtuais.

Outro sucesso da autora, “Nada disso é verdade”, coloca frente a frente uma podcaster bem-sucedida e uma mulher enigmática que ela decide entrevistar após um encontro casual em um pub. Ao simular proximidade e criar uma sensação imediata de confiança, o podcast acaba criando uma relação de intimidade artificial entre as duas mulheres. A entrevistadora quer gerar conteúdo, a entrevistada busca controle.

— Assim como os documentários de true crime, esses podcasts se apresentam como se estivessem “dando voz às vítimas”, mas, na prática, transformam tudo em um espetáculo de horrores — diz Jewell, que já vendeu 40 mil cópias no Brasil. — No fim, assistimos porque queremos ver como a vida dos outros é bagunçada, como as pessoas se permitem ser abusadas ou manipuladas. É desonesto fingir que não estamos assistimos ao desastre de vidas alheias por entretenimento.

Tendência mundial, a onda de podcasts de true crime também é pano de fundo de "No Rastro da Mentira", de Amy Tintera, que sairá pela Arqueiro em abril deste ano. Na trama sobre memórias apagadas e busca pela verdade, uma mulher acusada de matar sua melhor amiga retorna à sua cidade natal para provar a sua inocência.

No suspense “Sua vida me pertence”, que será lançado em junho pela Seguinte, a escritora Giu Palumbo investiga a obsessão de uma adolescente por uma atriz de novelas. Integrante de um comunidade virtual de fãs da artista, a jovem acaba se aproximando demais do alvo de sua idolatria, confundindo ficção e realidade. Influenciadora no TikTok, onde produz conteúdo sobre dramaturgia brasileira, Palumbo reflete sobre as fronteiras entre idolatria, pertencimento e manipulação no ambiente digital, explorando um universo que ela conhece bem.

Fandoms e fóruns

— Os fandoms que se formam nas redes intensificam a idealização dos ídolos e a vulnerabilidade de quem acompanha — diz a autora. — A gente idealiza vidas que são completamente editadas. Quanto maior o influenciador, mais performática essa imagem se torna.

Para Palumbo, o impacto do ambiente on-line na vida contemporânea tornou inevitável a sua apropriação nas tramas contemporâneas de crime.

— Não tinha como tirar a internet da minha história — explica. — É ali que as relações se formam, se inflamam e se distorcem: nas mensagens, nos mal-entendidos, nas disputas entre fãs. Um texto fora de contexto, uma frase ambígua, e o conflito já está criado.

A autora aposta que outros fenômenos digitais ainda devem migrar para a ficção criminal.

— Já estamos lidando com crimes cometidos em busca de visibilidade on-line. Isso se vê nas plataformas como o Discord, onde os usuários fazem desafios de filmar e compartilhar a violência.

Linchamento virtual

Alguns autores recorrem à ficção para exorcizar sua própria relação com a idolatria e o julgamento virtual. O novo livro de Colleen Hoover, “Mulher em queda” (Galera), tem sido visto pelos leitores como uma alusão a uma recente polêmica jurídica envolvendo a mega best-seller americana.

O romance acompanha Petra Rose, uma escritora que entra em colapso criativo depois de ser alvo de um linchamento virtual provocado pela versão para as telas de uma de suas obras. “Cancelada” nas redes, Petra foge da pressão numa cabana isolada, mas acaba confrontada por traumas do passado.

Fãs de Hoover não demoraram para identificar paralelos entre o drama da personagem e a experiência pública da autora com a adaptação cinematográfica de seu livro mais famoso, “É assim que acaba”. Protagonista e produtora do filme, a atriz Blake Lively acusou o ator e diretor Justin Baldoni de assédio sexual e de liderar uma campanha de difamação nos bastidores da produção. Baldoni contra-atacou com uma ação judicial milionária.

Mesmo sem se envolver, Hoover acabou marcada pelo episódio. Na nota que encerra o livro, a autora faz, em vão, um pedido direto ao público: “Por favor, não tentem estabelecer conexões entre minha vida pessoal e esta história, porque elas não existem”.

Com lançamento previsto pela Alt, selo jovem da Globo Livros, “Holy Boy”, da sul-coreana Lee Heejo, mergulha no universo do K-pop, uma indústrias conhecida por suas intensas e fiéis comunidades de fãs. No thriller, quatro mulheres sequestram um idol de 21 anos, conhecido apenas como “o garoto”.

— Desde Agatha Christie e Conan Doyle, os thrillers tentam refletir as discrepâncias e as crueldades de suas épocas — diz Amanda Orlando, editora da Globo Livros. — Não é surpresa que, na era digital, esse gênero comece a questionar os efeitos da internet na nossa vida, suscitando discussões importantes sobre identidade, saúde mental e as pressões impostas por padrões inalcançáveis e irreais das redes, especialmente sobre mulheres e jovens.