Nota de Flávio sobre operação contra Ciro pega mal no Centrão e alimenta cautela sobre aliança com bolsonarismo
A nota divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a operação da Polícia Federal (PF) que mirou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) provocou desconforto entre aliados do presidente do PP e ampliou, nos bastidores, a cautela de setores do Centrão em relação à aliança com o bolsonarismo para as eleições deste ano.
Reservadamente, parlamentares do PP e do União Brasil afirmam que a manifestação do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi interpretada como uma tentativa de distanciamento político em um momento de crise envolvendo um dos principais articuladores da federação União-PP e aliado histórico do grupo bolsonarista. Ciro foi ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro.
Em nota enviada à imprensa horas depois da operação, Flávio afirmou considerar “graves” as informações divulgadas sobre o caso e defendeu que os fatos sejam apurados “com rigor e transparência”. O senador também elogiou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado por Bolsonaro à Corte e responsável por autorizar a operação.
A reação desagradou aliados de Ciro, que esperavam uma demonstração mais explícita de solidariedade política diante da ofensiva da PF.
Um integrante da cúpula do União Brasil afirmou reservadamente que a fala de Flávio foi interpretada como abandono político do senador piauiense e disse que o filho do ex-presidente “largou total a mão do Ciro”.
Segundo esse interlocutor, o avanço da investigação já provoca preocupação dentro da federação e deve levar dirigentes partidários a adotarem postura mais reservada nas próximas semanas. Para essa pessoa, isso representa o “feitio do PL”.
Um aliado de primeira hora de Ciro resumiu o incômodo em tom de desabafo dizendo que em momentos como esse “você vê quem é amigo ou não”.
A avaliação é que os elementos já conhecidos da investigação aumentaram o constrangimento político sobre Ciro e ampliaram a apreensão entre lideranças do Centrão diante da possibilidade de novos desdobramentos atingirem outros dirigentes partidários. Além de Ciro, outro cardeal do grupo, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também aparece citado no entorno do caso Master, embora não tenha sido alvo da PF.
A representação da PF descreve um suposto contexto de vantagens indevidas entre Ciro e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Os investigadores citam, entre outros pontos, pagamentos mensais de R$ 500 mil a uma “estrutura vinculada ao Senador”, custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados.
Um dos principais elementos citados pela PF é uma emenda apresentada por Ciro para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo a investigação, a proposta teria sido redigida dentro do Banco Master e enviada ao senador. A PF também identificou mensagem em que Vorcaro comemora o texto apresentado no Congresso afirmando: “Saiu exatamente como mandei”.
Outro interlocutor ligado à federação União-PP pondera, porém, que o episódio não deve provocar um afastamento definitivo entre o Centrão e o bolsonarismo. Segundo ele, a relação continuará condicionada ao cenário eleitoral de 2026.
Para essa figura, “o Centrão é isso” e se Flávio estiver para ganhar, “não há nada que separe”. Se o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro estiver indo mal nas pesquisas eleitorais, “não tem nada que junte”.
Esse mesmo interlocutor também relativiza as críticas sobre o distanciamento de aliados em relação a Ciro. Segundo ele, em momentos de crise política e investigação, a tendência é de preservação individual. “Quem vai assumir nessas horas?”, questionou.
Ele lembra ainda que o próprio Ciro negou envolvimento com o caso Master e com Daniel Vorcaro ao afirmar, em declarações recentes, que “Vorcaro tem um CPF e eu tenho outro” e que renunciaria ao mandato caso surgisse alguma prova de irregularidade envolvendo seu nome. P
Apesar das críticas reservadas, integrantes do PP tentaram evitar uma escalada pública da crise. O senador Dr. Hiran (PP-RR), colega de partido de Ciro, contemporizou o episódio e defendeu que as investigações sigam seu curso.
— Todo mundo pode ser investigado, que se investigue. Tenho profunda amizade pelo Ciro — afirmou.
O próprio PP divulgou nota à imprensa, afirmando que a sigla espera que os fatos desta quinta que ocorreram com Ciro “sejam devidamente esclarecidos, com estrita observância ao amplo direito de defesa e ao devido processo legal”. “O partido manifesta sua confiança nas instituições e na Justiça brasileira”, diz a nota. O texto é assinado por Aldo Rosa, secretário-geral do PP.
Parlamentares do Centrão admitem que o episódio também elevou a cautela sobre o custo político da aproximação com o bolsonarismo em 2026. A avaliação é que a reação do PL ao caso reforçou a percepção de que o núcleo bolsonarista tende a preservar distância de aliados do grupo em momentos de desgaste.
Já integrantes da base governista passaram a apostar reservadamente que o episódio pode marcar um ponto de inflexão na relação entre setores do Centrão e o bolsonarismo. A leitura é que a reação de Flávio expôs fissuras na aliança construída para a próxima disputa presidencial.
Para um interlocutor governista, a semana tende a terminar “murcha” para a aliança entre bolsonaristas e setores do centrão.
