Nosso senso de identidade está profundamente ligado à memória; psicólogo explica como
Você pode dizer que tem uma “memória ruim” porque não se lembra de qual bolo comeu na sua última festa de aniversário ou do enredo de um filme que assistiu no mês passado. Por outro lado, talvez consiga lembrar com precisão a temperatura da superfície do Sol sempre que alguém pergunta.
Então, sua memória é ruim ou está tudo bem com ela? A memória está no cerne de quem somos, mas é surpreendentemente complexa quando começamos a analisar como tudo se encaixa.
Na verdade, existe mais de um tipo de memória, e isso determina como lembramos certos fatos sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Como classificamos a memória?
Psicólogos cognitivos distinguem entre memória declarativa e memória não declarativa. As memórias não declarativas são expressas sem recordação consciente, como habilidades e hábitos — por exemplo, digitar em um teclado ou andar de bicicleta.
Já as memórias das quais você tem consciência são declarativas — você sabe seu nome, sabe em que ano estamos e sabe que há mostarda na geladeira porque foi você quem a colocou lá.
No entanto, nem todas as nossas memórias são armazenadas da mesma forma, nem no mesmo lugar do cérebro. A memória declarativa pode ser dividida em memória semântica e memória episódica.
A memória semântica se refere ao conhecimento geral sobre o mundo. Por exemplo, saber que gatos são mamíferos.
A memória episódica se refere a episódios da sua vida, geralmente com elementos de “o quê”, “onde” e “quando”. Por exemplo, eu me lembro de estar abraçando meu gato de estimação (o quê) no meu escritório em casa (onde), pouco antes de me sentar para escrever este artigo (quando).
Um senso de autoconsciência está fortemente envolvido na memória episódica. É a sensação de se lembrar pessoalmente de algo.
Nas memórias semânticas, essa sensação não é tão forte — você pode ter um conhecimento desvinculado do contexto de “como” e “quando”. Por exemplo, eu sei que Canberra é a capital da Austrália (memória semântica), mas não consigo me lembrar especificamente de quando e onde aprendi isso (memória episódica).
Lições da amnésia
Em meados do século 20, estudos de caso famosos de pacientes amnésicos foram as primeiras evidências dessa distinção entre memória semântica e episódica.
Por exemplo, Henry Molaison e Kent Cochrane sofreram danos cerebrais que afetaram gravemente suas capacidades de memória episódica.
Eles não conseguiam se lembrar de eventos de suas vidas, mas sabiam muitas coisas sobre o mundo em geral. Na prática, o passado pessoal deles havia desaparecido, embora o conhecimento geral tivesse permanecido intacto.
Em uma entrevista após o acidente que causou seu dano cerebral, Cochrane conseguiu descrever em detalhes perfeitos como trocar um pneu furado — apesar de não se lembrar de já ter realizado essa tarefa.
Também há relatos de pessoas cuja capacidade de recordar memórias semânticas é amplamente prejudicada, enquanto suas habilidades de memória episódica parecem, em grande parte, preservadas. Isso é conhecido como demência semântica.
A idade afeta como sua memória funciona
Crianças pequenas têm ambos os sistemas de memória, mas eles se desenvolvem em ritmos diferentes. A capacidade de formar memórias semânticas fortes surge primeiro, enquanto a memória episódica leva mais tempo para se desenvolver.
De fato, a verdadeira capacidade de memória episódica pode não se desenvolver plenamente até cerca dos três ou quatro anos de idade. Isso ajuda a explicar por que temos poucas lembranças da primeira infância. Também é por volta dessa idade que adquirimos maior autoconsciência.
Enquanto a memória episódica se desenvolve mais lentamente no início da vida, ela também declina mais rapidamente na velhice. Em média, adultos mais velhos tendem a se lembrar de menos detalhes episódicos do que adultos mais jovens em avaliações de memória.
Em idosos com declínio cognitivo mais grave, como na demência, a capacidade de recordar memórias episódicas costuma ser muito mais afetada em comparação com as memórias semânticas. Por exemplo, eles podem ter dificuldade para lembrar que comeram macarrão no almoço do dia anterior (memória episódica), mas ainda saber perfeitamente o que é macarrão (memória semântica).
No fim das contas, tudo funciona em conjunto
Estudos de neuroimagem revelaram que áreas sobrepostas do cérebro são ativadas tanto ao recordar memórias semânticas quanto episódicas. Do ponto de vista neurológico, esses dois tipos de memória parecem ter mais semelhanças do que diferenças.
De fato, alguns pesquisadores sugerem que a memória episódica e a semântica talvez sejam melhor compreendidas como um continuum, em vez de sistemas de memória completamente distintos. Atualmente, reconhece-se que a recordação da memória na vida cotidiana envolve uma interação estreita entre os dois tipos.
Um exemplo importante de como ambos precisam trabalhar juntos é a memória autobiográfica, também chamada de semântica pessoal. Ela se refere a informações pessoalmente relevantes sobre você mesmo.
Digamos que você se considere “um bom nadador”. À primeira vista, isso pode parecer uma memória semântica — um fato sem o como, o porquê ou o quando. No entanto, a lembrança de um fato pessoalmente relevante como esse provavelmente também evocará recordações episódicas relacionadas às experiências em que você esteve nadando.
Tudo isso está relacionado a algo conhecido como semantização — a transformação gradual de memórias episódicas em memórias semânticas. Como você pode imaginar, isso desafia a distinção entre memória semântica e episódica.
Em última instância, a forma como lembramos molda a maneira como nos entendemos. A memória episódica nos permite retornar mentalmente a experiências que parecem pessoalmente vividas, enquanto a memória semântica fornece o conhecimento estável que une essas experiências em uma história de vida coerente.
Com o tempo, a fronteira entre as duas se suaviza à medida que eventos específicos são condensados em crenças mais amplas sobre quem somos, o que valorizamos e o que somos capazes de fazer. A memória não é simplesmente um depósito do passado. É um sistema ativo que remodela continuamente nosso senso de identidade.
* Shane Rogers é professor sênior de psicologia na Universidade Edith Cowan.
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.
