Nos gigantes da economia, uso da IA já é o novo normal

 

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Sócio-líder de Inteligência Artificial para a América Latina na EY, empresa de consultoria e serviços presente em mais de 150 países, David Dias é sucinto em sua avaliação sobre o atual cenário da novidade no mundo corporativo:

— A tecnologia de IA virou o novo normal — diz ele. — Há cinco anos, ninguém a utilizava, e hoje uma plataforma como o ChatGPT já chega a 800 milhões de usuários por semana.

Os sinais são claros. Já não se trata de uma tendência, mas de uma realidade nas principais cadeias produtivas globais.

Na indústria automotiva, por exemplo, as montadoras têm apostado na IA generativa aplicada ao design, para reduzir o ciclo de engenharia dos veículos. Segundo um levantamento da McKinsey realizado em 2025 com executivos do setor, 40% dos entrevistados já haviam investido cerca de US$ 6 milhões cada nesse tipo de solução. Em 10% dos casos, o investimento chegava a US$ 23 milhões.

A aplicação da IA em mecanismos de direção autônoma também atrai as apostas. É o caso da Tesla, que adquiriu a startup Deep Scale, para desenvolver sistemas de assistência ao motorista e criar uma plataforma de robotáxis autônomos.

Energia inteligente

A administração de infraestrutura também é outro segmento em que a IA vem ganhando importância estratégica, desde a gestão de trânsito e infraestrutura urbana até o manejo de redes de transmissão e distribuição de energia.

— Os grids de energia inteligente são uma tendência de futuro — diz Carlos Grillo, vice-presidente de Tecnologia da WEG, empresa que, não por acaso, comprou a Reivax, player importante no segmento de automação para usinas hidrelétricas e parques fotovoltaicos e eólicos.

Na mineração, empresas como a Vale incorporam a IA como parte de sua estrutura de gestão de riscos. Os centros de monitoramento geotécnico da mineradora brasileira combinam sensores, equipamentos não tripulados e análise preditiva por Inteligência Artificial, para acompanhar em tempo real, 24 horas por dia, o comportamento de barragens e outras estruturas. Segundo a empresa, a alta capacidade de processamento do sistema permite antecipar cenários de risco e tomar medidas preventivas.

A Vale também tem avançado no projeto Radar Orbital, desenvolvido em parceria com a área de Geotecnia e o AI Center. Por meio de sensoriamento remoto por satélite, dados de instrumentação tradicional e modelos de analytics e IA, é possível acompanhar deformações de terreno ao longo do tempo e obter dados para decisões mais ágeis e eficientes.

Amadurecimento

Segundo Andrea Faggion, consultor de Data & AI da Kyndryl Brasil, os investimentos em IA no país cresceram em média 40% em 2025:

— Ainda assim, a maior parte das iniciativas segue concentrada em ganhos operacionais como automação de processos, eficiência e suporte à tomada de decisão e não necessariamente em novos modelos de negócio ou crescimento direto.

Andrea explica que é comum as empresas buscarem primeiro resolver dores muito objetivas, antes de pensar em usos mais sofisticados da IA. Nesse contexto de amadurecimento, a próxima evolução da tecnologia ganha espaço: a Inteligência Artificial Agêntica.

— Estamos falando de Agentes de Inteligência Artificial que não apenas respondem a comandos, mas conseguem interpretar contexto, recomendar ações, orquestrar fluxos e executar tarefas dentro de limites de governança definidos pela empresa — diz.

Essa revolução dos Agentes de IA já chegou ao Varejo, em nível global.

— Uma empresa tradicional como o Wal-Mart já preparou suas plataformas de e-commerce para atender as compras que serão realizadas por Agentes de IA — diz. — E o Google já lançou seu protocolo para que os Agentes de Inteligência Artificial procurem produtos e façam as compras diretamente no site de buscas.

Enquanto isso, no Brasil, o setor financeiro e de seguros é o que apresenta maior maturidade no uso da IA.

— Nos últimos dois anos, as empresas criaram governança e estrutura para aproveitar essa tecnologia. E temos casos muito bem-sucedidos, como a assistente de IA do Bradesco, por exemplo, que tem uma taxa de retenção de 85% a 90% nas interações com o público — afirma Dias.

Para Fernando Musolino, presidente regional da datatech TransUnion do Brasil, isso acontece porque os segmentos com maior potencial de se beneficiar da IA são aqueles que exigem decisões em tempo real, com alto grau de precisão e confiança.

— E esses são justamente os bancos, financeiras, fintechs, que dependem de decisões críticas e rápidas sobre crédito e prevenção à fraude, por exemplo, e que também operam em ambientes altamente regulados — explica.

Serviços terceirizados

Para Pedro Donati, CEO da EquipeAI, a transformação impacta diretamente cadeias de serviços terceirizados, como as empresas de BPO (Business Process Outsourcing).

— São segmentos em que o serviço oferecido pode ser substituído diretamente pela entrega realizada pela inteligência artificial — diz.

Donati aplica a mesma lógica à própria indústria de tecnologia:

— As empresas de software terão de reinventar seus negócios, uma vez que as soluções de IA podem substituir muitas funcionalidades hoje exercidas por diferentes sistemas de gestão.

Ao mesmo tempo, a tecnologia pode abrir portas inesperadas nos mais diversos setores.

— Desenvolvemos um Agente de IA para um escritório de advogados que trabalha com contencioso de grande volume, em especial no setor bancário — conta Donati, explicando que os fraudadores usam o grande número de processos para burlar o Judiciário com dados falsos, testemunhas repetidas em casos diferentes e outras artimanhas.

— A IA foi treinada para identificar esse tipo de situação — continua Donati.

O sucesso foi tanto que a solução criada para resolver um problema interno passou a ser oferecida pelo escritório ao mercado, tornando-se uma nova fonte de receita para o negócio.

O caminho da transformação, no entanto, tem desafios para as empresas e para a sociedade.

— Muitas empresas ainda têm uma mentalidade de “Feira de Ciências” em suas estratégias de IA — critica Dias. — Há muitas iniciativas isoladas, muitas provas de conceito e produtos MVP (Produtos Minimamente Viáveis, na sigla em inglês), e poucos conseguem dar escala real aos projetos.

Donati, por sua vez, observa que as pessoas precisam aprender a lidar com a mudança de paradigma gerada pela IA.

— Cada vez mais, a IA vai exigir que as pessoas sejam gerentes. Ou seja, que saibam prover contexto para as ferramentas de inteligência artificial e avaliar os resultados devolvidos pela solução — diz. — Por outro lado, se todos vão ser gerentes no futuro, também precisamos repensar o que significa o começo de carreira, onde ficam os empregos de entrada nesse novo cenário.