'Nos encontramos em tempos de grande incerteza': Com mensagem de conciliação, Charles III discursa no Congresso dos EUA
No primeiro discurso de um monarca britânico ao Congresso dos EUA no Século XXI, o rei Charles III defendeu a união entre dois aliados históricos, classificada de aliança "insubstituível e inquebrável", pesar das recentes discordâncias entre os dois lados do Oceano Atlântico. Foi um dos pontos altos de uma viagem cercada de polêmicas, que tem entre seus objetivos aparar as muitas arestas entre Londres e Washington neste segundo mandato do presidente Donald Trump.
— Nos encontramos em tempos de grande incerteza; em tempos de conflito da Europa ao Oriente Médio, que representam imensos desafios para a comunidade internacional e cujo impacto se faz sentir em comunidades por toda a extensão dos nossos próprios países. — afirmou Charles III, sob aplausos de uma plateia que reuniu parlamentares, integrantes do governo federal, das Forças Armadas, da Suprema Corte e de outros campos da sociedade dos EUA. — Quaisquer que sejam nossas diferenças, quaisquer que sejam as nossas divergências, permanecemos unidos em nosso compromisso de defender a democracia e proteger todo o nosso povo de qualquer mal.
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Segundo o monarca, a relação entre EUA e Reino Unido "foi nascida da disputa, mas nem por isso é menos forte", referência ao passado colonial e à luta pela independência.
— Assim, talvez, com este exemplo, possamos entender que nossas nações são, de fato, instintivamente semelhantes em termos de mentalidade, um produto das tradições democráticas, jurídicas e sociais comuns nas quais nossa governança está enraizada até hoje — afirmou. — O vínculo de parentesco e identidade entre os Estados Unidos e o Reino Unido é inestimável e eterno; é insubstituível e inquebrável.
À maneira da realeza britânica, que fala mais nas entrelinhas do que nas aspas, Charles III citou uma fala do novelista irlandês Oscar Wilde — “Hoje em dia, temos praticamente tudo em comum com os Estados Unidos, exceto, é claro, o idioma!” —, e fez referência à tentativa de ataque contra um jantar de correspondentes na Casa Branca, no sábado, que teria Trump como alvo principal.
— Encontramo-nos também na sequência do incidente ocorrido não muito longe deste magnífico edifício, que procurou prejudicar a liderança da sua nação e fomentar um medo e uma discórdia ainda maiores. Permitam-me afirmar com uma resolução inabalável: tais atos de violência nunca terão sucesso — declarou.
Charles III chegou aos EUA na segunda-feira, acompanhado pela rainha britânica, Camila, e foram recebidos por Trump e pela primeira-dama americana, Melania, em um chá privado na Casa Branca, seguido por uma visita ao apiário da sede do Poder Executivo do país.
Mais tarde, uma segunda cerimônia regada a chá, desta vez nos jardins da Embaixada do Reino Unido, que contou com a presença de vários integrantes do Gabinete de Trump. Mas além de um cardápio recheado de itens clássicos da hora do chá da sociedade britânica, como sanduíches de pepino e tortas de frutas, o mal-estar entre os dois países estava exposto aos comensais e aos que não foram convidados.
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, sua relação com o premier britânico, Keir Starmer, passou por muitos altos e baixos, com desavenças claras sobre a defesa coletiva da Europa, o futuro da guerra na Ucrânia e, mais recentemente, o conflito lançado por EUA e Israel contra o Irã. O republicano jamais escondeu sua insatisfação com a falta de apoio europeu para a guerra, e mesmo as concessões feitas por Londres, como a permissão do uso de bases militares, não melhoraram a situação. O caso Epstein, que atinge politicamente Trump e o premier britânico, além da própria família real, jogou ainda mais gasolina na fogueira, e houve cobranças para que Charles III se reunisse com as vítimas do financista.
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Por isso, a visita de Charles III soa como uma iniciativa de peso para tirar o elefante da sala. Trump tem uma fascinação herdada da mãe, Mary Anne (uma imigrante vinda da Escócia), pela família real britânica. Em fevereiro do ano passado, quando Starmer levou ao presidente americano uma carta do monarca, o republicano não escondeu a satisfação com as palavras e com o convite para uma visita de Estado. Para analistas, uma jogada de mestre em meio ao já caótico segundo mandato trumpista.
Horas antes de falar ao Congresso, Charles III e Camila foram recebidos por Trump com uma cerimônia formal na Casa Branca, com tropas em revista, disparos de canhão e uma banda marcial. Em rápidas declarações, o presidente evitou temas políticos, e disse que se sua mãe estivesse viva, “estaria colada na televisão”, antes de fazer uma revelação íntima.
— Também me lembro dela dizendo muito claramente: "Charles... olha, o pequeno Charles, ele é tão fofo". Minha mãe tinha uma queda por Charles. Dá para acreditar? — afirmou o presidente.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o rei britânico, Charles III, entreolham-se durante recepção na Casa Branca
Aaron Chown/AFP
Em entrevista à rede CNN, o embaixador britânico nos EUA, Christian Turner, lembrou que esta não é a primeira visita de um monarca aos Estados Unidos em tempos de crise transatlântica. Ele citou a viagem de Elizabeth II em meio à Crise de Suez, nos anos 1950, e o encontro entre George VI e Franklin Roosevelt em Washington pouco antes do estouro da Segunda Guerra Mundial, quando Londres queria convencer os americanos a se juntarem contra o regime da Alemanha nazista.
— Nossos dois países já tiveram momentos em que as abordagens a questões internacionais foram diferentes — disse Turner. — Mas o rei está acima disso e é exatamente por isso que este é um momento para nos lembrarmos de que essa relação é profunda. Ela perdurará.
