É difícil imaginar, no Congresso Nacional do Brasil, um político de bancada conservadora, defensor da redução dos gastos públicos e do tamanho do Estado, discursando em favor da instalação de aparelhos de ar-condicionado em escolas públicas, enquanto deputados e senadores de esquerda se opõem radicalmente à ideia.
Mas na França, com as ondas de calor cada vez mais intensas que assolam o país, é exatamente isso que está acontecendo.
Graças ao aquecimento global, o aparelho virou símbolo de uma batalha ideológica entre direita e esquerda, no debate sobre quais políticas públicas a nação deve adotar para aplacar os efeitos do calor extremo.
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Na França, o uso de ar-condicionado em residências e equipamentos públicos sempre foi tratado com cautela.
Durante anos, a climatização foi de certa forma associada ao consumo excessivo de energia e a uma forma individualista de responder às mudanças climáticas.
A prioridade sempre foi equipar prédios e casas com isolamento, proteção contra o sol e boa ventilação para limitar, sempre que possível, o uso de aparelhos de ar-condicionado.
Mas esse ano o país teve o mês de junho mais quente da história, com temperatura média quase 4°C acima da média do mês registrada entre 1991 e 2020.
Na segunda metade de junho, o país enfrentou uma onda de calor mais longa e intensa do que o normalmente esperado.
Entre 24 e 25 de junho, a temperatura média nacional em 24 horas ultrapassou pela primeira vez os 30 °C, o maior valor já registrado.
O impacto na sociedade foi bem além de um desconforto normal causado por temperaturas elevadas em residências e prédios públicos onde não é comum haver ar-condicionado.
Durante um desses períodos de excesso de calor em junho, registrou-se um excesso de mortes em relação ao número esperado, impactando a maioria das faixas etárias, embora mais concentrado nos idosos.
Em Paris, tornou-se comum ver bombeiros atendendo chamados para resgatar pessoas mais velhas debilitadas pelo calor em seus apartamentos.
O calor fez a prefeitura cancelar ou adiar eventos importantes da cidade.
A "Marche des Fiertés", que reúne dezenas de milhares de pessoas e é um dos principais eventos públicos parisienses, foi remarcada para setembro.
Os tradicionais "Bals de Pompiers", celebrações muito populares nos dias 13 e 14 de julho, foram cancelados para que os serviços de emergência pudessem permanecer disponíveis.
Foi nesse contexto que uma pergunta começou a ganhar dimensão política: devemos instalar mais aparelhos de ar-condicionado na França? E como ficam as escolas e hospitais?
Quando o ar-condicionado entra na disputa política
O Rassemblement National (RN), partido de extrema-direita liderado por Marine Le Pen, passou a defender um “grande plano de climatização” para escolas, hospitais, outros serviços públicos e financiamento para particulares.
Mas a posição da esquerda e da extrema-esquerda é diferente.
A La France insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, criticou a ideia de transformar a climatização em resposta generalizada ao calor e defendeu principalmente a renovação térmica dos edifícios, a proteção solar e a criação de espaços frescos.
Mas reconhece que escolas e hospitais podem ser exceção.
Marine Tondelier, líder do partido Les Écologistes, afirmou que existem lugares na França onde “não podemos mais prescindir” da climatização, embora tenha insistido que ela não pode ser a única resposta.
Essa mudança é relevante.
E o debate chegou às lojas
A proporção de casas francesas com algum sistema de ar-condicionado vem crescendo rapidamente nos últimos anos].
Durante o verão, ventiladores e climatizadores simplesmente desapareceram das lojas.
Na maioria delas os estoques acabaram em poucos dias de filas e grande procura.
Comprar ou não comprar vira uma declaração
Em meu artigo anterior publicado no The Conversation France, argumentei que o consumo pode funcionar como um marcador político.
A literatura chama esse fenômeno de consumo político.
Ele ocorre quando consumidores deliberadamente evitam ou compram produtos por razões políticas, sociais ou éticas.
O "boycott" corresponde à decisão de não comprar para rejeitar algo considerado inadequado.
Já o "buycott" é o movimento oposto: comprar ou apoiar aquilo que percebemos como alinhado aos nossos valores.
No caso do ar-condicionado, alguém pode decidir não comprá-lo porque acredita que consumir mais energia é ambientalmente menos responsável.
Outra pessoa pode procurar deliberadamente um aparelho mais eficiente.
Uma terceira pode defender a climatização de escolas porque considera que proteger crianças do calor é uma prioridade social.
As três pessoas estão tomando decisões diferentes diante do mesmo produto.
Mas estão de certa forma dizendo algo sobre valores que consideram importantes.
Inimigo comum
Na França atual, a polêmica do ar condicionado persiste nos debates publicos, mas o calor e tanto que ja se percebe sinais de convergencia ate entre parece certo afirmar que, após este verão de 2026, até os diferentes campos políticos tenderão a concordar e reconhecer a urgência de adaptar os serviços públicos e proteger os indivíduos mais vulneráveis do calor.
*Jorge Jacob é professor de Ciências Comportamentais, na Escola de Administração IÉSEG School of Management
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons.
Leia o artigo original.
No verão mais quente da história, ar‑condicionado protagoniza disputa entre direita e esquerda na França, entenda
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