No topo do mundo: saiba como é viver na cidade mais ao norte dos EUA, onde o sol desaparece por 65 dias
No extremo norte do Alasca, onde o inverno pode apagar o sol por mais de dois meses e o termômetro despenca para além dos -40°C, a rotina segue outro relógio. Em Utqiaġvik, a cidade mais ao norte dos Estados Unidos, as estações falam mais alto que o calendário, e viver ali significa aprender a escutar o gelo, o vento e o mar. Segundo reportagem da CNN Travel, é nesse cenário de tundra ártica e oceano congelado que cerca de 4.500 moradores constroem uma vida entre tradição e modernidade.
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Para Robin Mongoyak, morador local e dono da Kiita Tours, a primavera não começa oficialmente com uma data, mas com o retorno das escrevedeiras-das-neves. As pequenas aves pretas e brancas anunciam que o sol da meia-noite está se aproximando e que o inverno finalmente recua. Enquanto observa o céu da varanda de casa, ele guarda uma perna de rena congelada retirada da neve, ingrediente do aluutagaàq, prato tradicional Iñupiat preparado com carne de rena ao molho. “É como um despertador natural”, contou à CNN Travel.
Quando o sol volta, a cidade desperta
Todos os anos, o sol desaparece no horizonte em novembro e só retorna no fim de janeiro. Durante esse período, Utqiaġvik vive sob um brilho azul constante, em uma longa noite polar. As temperaturas podem chegar a -45,5°C e, com a sensação térmica provocada pelos ventos, se aproximar de -67°C. Quando a luz reaparece, a transformação é imediata. Festivais, danças Iñupiaq, fogueiras e até partidas de golfe no gelo marcam o Piuraagiaqta, celebração local cujo nome significa “vamos sair para brincar”.
A cultura indígena Iñupiat permanece no centro da vida local. Muitas famílias ainda dependem da caça de subsistência, da pesca no gelo e da caça de baleias para alimentação e identidade cultural. Corrine Danner, nascida e criada na região, lembra da infância acompanhando o pai, capitão baleeiro, em expedições de pesca que duravam semanas. O alimento vinha da terra e do mar: rena, foca, ganso, caribu e o valioso muktuk, feito de pele e gordura de baleia, ainda hoje compartilhado entre toda a comunidade após uma boa temporada de caça.
Mesmo com a forte presença das tradições, Utqiaġvik também vive os desafios da modernidade. O custo de vida é alto: uma pizza congelada pode custar mais de US$ 25, enquanto um galão de leite chega a US$ 13. Como a cidade só é acessível por avião ou, no verão, por balsa, praticamente tudo precisa ser transportado por via aérea. A falta de moradias também é um problema, agravado pelo permafrost, o solo permanentemente congelado que exige casas erguidas sobre palafitas para evitar rachaduras e afundamentos.
A exploração de petróleo trouxe empregos e infraestrutura, mas também abriu debates delicados. Se por um lado a atividade financia serviços essenciais e melhorou a qualidade de vida, por outro alterou rotas tradicionais de migração das renas e levantou preocupações ambientais. Mongoyak resume esse dilema como uma busca por equilíbrio: desenvolver sem comprometer a sobrevivência futura das próximas gerações.
Para quem chega de fora, o impacto costuma ser imediato. Shane Parker, policial e fotógrafo de vida selvagem que trabalha em turnos na cidade, diz que a paisagem parece de outro planeta. Em Point Barrow, o ponto mais ao norte dos EUA, ele já fotografou ursos polares, raposas-do-ártico e corujas-das-neves. À noite, a aurora boreal toma o céu. “Não está apenas no horizonte, está completamente acima da sua cabeça”, contou à CNN Travel.
Apesar do isolamento e do frio extremo, Utqiaġvik costuma provocar o efeito contrário: faz as pessoas voltarem. O próprio nome da cidade, segundo moradores, carrega essa ideia, “um lugar para onde retornar”. Para Mongoyak, que já tentou viver em outros lugares como Havaí e Anchorage, a atração é inevitável. “Não importa para onde formos”, disse à CNN Travel, “sempre será um lugar para onde poderemos voltar” .
