No Rio, roteirista de 'La casa de papel' fala do fracasso que precedeu o sucesso da série
Enquanto Javier Goméz Santander, chefe de roteiro e um dos produtores-executivos da série espanhola “La casa de papel”, anda pelo Rio, o spin-off “Berlim e a Dama com Arminho” é a série de língua não inglesa mais vista globalmente na Netflix. O que ele tem a dizer sobre ela? Nada.
— Não vi “Berlim”, nem a “La casa de papel: Coreia” (versão sul-coreana da produção) — disse o espanhol em conversa com o GLOBO ontem no Rio2C, evento de criatividade que acontece na Cidade das Artes até domingo. — Senti que, quando terminou a quinta temporada, o meu trabalho estava feito. Já não queria seguir explorando nem esses personagens, nem spin-offs, nem possíveis continuações.
A exaustão é justificada: foram mais de cinco anos contando a história de Professor, Berlim e todo um grupo de ladrões que armam o maior assalto da história da Espanha: o da Casa da Moeda. O ambicioso plano deu certo (e não estamos dando spoiler sobre o roubo): a série se tornou um dos maiores fenômenos do catálogo da plataforma. Tirando as três temporadas de “Round 6”, a quarta parte de “La casa de papel” é o conteúdo em língua não inglesa mais assistido da história da plataforma.
Javier Goméz Santander
Divulgação
Incerteza
Difícil acreditar que esse sucesso foi precedido por um estrondoso fracasso, como Javier contou no painel “O valor da criação”, com a roteirista francesa Noèmi Saglio (de “Nice girls”) e o brasileiro Cauê Laratta (de “Pico da neblina”) e o presidente da Gedar (Associação de Direito dos Criadores Roteiristas), André Mielnik. A série começou a ser exibida na emissora de TV Antena 3, uma das maiores da Espanha, no início de 2017, dividida em duas partes, que não deram o resultado esperado e cancelou o prosseguimento da história. A Netflix, então, a colocou no catálogo global no fim daquele 2017 e... deu no que deu.
— No nosso trabalho, por mais que você faça as coisas bem, sempre há uma grande incerteza de como vai funcionar — disse ele, depois da palestra. —Para isso, você precisa de várias coisas, incluindo a sorte. Em termos práticos, a sorte nos trouxe o lugar adequado para a série. Meus amigos não a assistiam na Antena 3 porque já haviam deixado de ver TV linear. Eles me diziam: “é muito tarde e tem comerciais”. E “La casa de papel” se adaptou muito melhor ao streaming. Fomos um fracasso, estivemos a ponto de “morrer”, mas tivemos sorte que a Netflix mudou o destino da série e o nosso.
Uma das discussões do dia foi justamente como plataformas de streaming, como a Netflix, podem mudar os rumos financeiros de um criador — mas não em países como o Brasil. Apesar do sucesso da série aqui, Javier não recebe a cada vez que ela é exibida, como ocorre na Espanha. Isso porque, no modelo audiovisual nacional, os criadores assinam uma cessão de direitos com pagamento fixo no desenvolvimento do roteiro, mas o mercado brasileiro não prevê, de forma estruturada, o pagamento recorrente a cada reexibição, independentemente da plataforma. Se ela for um estouro, o roteirista não recebe necessariamente a mais por isso.
— Como profissional espanhol, considero importante receber direitos do meu país e de outros países europeus — refletiu Javier. —Num mundo ideal, queria receber de todo o mundo, mas não acho que seja a batalha de hoje. O verdadeiro problema é que os roteiristas brasileiros não recebem os direitos do mercado nacional, que deveria cuidar deles. Estamos falando de um dos mercados mais importantes do mundo, o único que trata os criadores de forma tão injusta.
Hoje, o país de onde dele mais recebe os chamados residuals é a França.
— Na União Europeia também há um debate muito forte agora sobre direitos autorais e não há consensos. Fundamentalmente, é uma batalha entre as pessoas com poder na indústria e nós, que somo s muito menores. Precisamos que os Estados nos apoiem.
Apuração jornalística
Javier cita o Brasil de novo ao falar como a criação nacional o inspira: as histórias criminais, de um jeito diferente do espetaculoso roubo de “La casa de papel”.
— Os brasileiros fazem muito bem a narrativa do mundo do crime. Conseguem fazer com uma verdade que me interessa muito — diz Javier, citando, entre suas séries favoritas “Dom” (Prime Video), “Impuros” (Disney+) e “Irmandade” (Netflix).
Hoje à frente de três projetos (em México, Espanha e Argentina) cujos temas são confidenciais, ele investe no gênero de “baseado em fatos”. As ideias surgiram a partir de apurações que o conectam com os tempos como jornalista numa emissora de TV, antes de virar roteirista e produtor.
—Investigamos algo como jornalistas e construímos como roteiristas, mas de forma ficcional.
