No Rio, número de feminicídios quase triplicou, e 65% das vítimas de agressão e de ameaça na cidade são mulheres
Após mais de 35 anos de casamento, Rosa Almeida, de 56, começou a perceber que sofria abusos dentro de casa. Há cerca de seis anos, ela perdeu a mãe. A partir de então, notou que as violações morais e as proibições que sofria do marido correspondiam a tipos de violência contra a mulher, tema a que ela teve acesso ao estudar cada vez mais o assunto.
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— Nas brigas, ele colocava o dedo da minha cara e dizia que ele mandava. Até que um dia eu falei para me respeitar e disse que não ia mais calar a boca. Falei: “eu tenho voz e vou falar”. Vi que o que eu passava era abuso. E um dia ele me bateu. Ele me proibiu de fazer bolo, de trabalhar... — conta ela.
Paciente bariátrica de uma operação feita há 12 anos, ela viveu ainda momentos de terror por sofrer violências do ex-marido no pós-cirúrgico de uma cruroplastia (operação que remove o excesso de pele e gordura da parte interna ou externa das coxas), há pouco mais de seis. Além das feridas psicológicas, ela carrega na pele cicatrizes de mais de 50 centímetros, marcas que não se apagarão.
— Eu chamei a polícia e os agentes, ao me verem, chamaram o Samu rápido. Escorriam dos pontos pus, ceroma..
Depois de reagir aos ataques, de ser ameaçada e agredida, Rosa pediu o divórcio. Mas se deparou com mais uma situação degradante: o marido dividiu a casa com tapumes de madeira que a isolaram dos cômodos com ventilação. A baixa perspectiva financeira imposta — já que ela era proibida de trabalhar fora e de estudar — impossibilitou que ela saísse da casa onde sofreu as violências. O que a protegeu de ser por mais tempo vizinha de quarto de seu agressor e de tirava até o seu ar foi uma medida protetiva obtida na Justiça há menos de seis meses:
— Ele hoje vive em Bento Ribeiro. Amanhã, pela primeira vez vou limpar a casa. Ass baratas do espaço sujo onde ele estava estão passando para onde estou — conta ela, hoje acompanhada por assistentes sociais da Casa da Mulher Carioca, equipamento da prefeitura em Madureira, e também por psiquiatra, psicóloga e nutricionista do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione, Iede.
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Violência doméstica e violência patrimonial são dois dos tipos de crime que constam na Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/2006), principal mecanismo legal no Brasil para garantir a defesa de vítimas do sexo feminino de namorados, maridos, ex-parceiros, colegas de trabalho homens que tentem violações. Rosa, carioca da Zona Norte é uma entre as mais de 100 mil vítimas que, nos últimos anos, foram vítimas de agressões.
Segundo o Mapa da Mulher Carioca, levantamento lançado nesta terça-feira pela secretaria municipal de Políticas para Mulheres e Cuidados, apenas em 2024 foram registradas 102.470 notificações de ameaça no município, sendo 67.090 contra mulheres, que são 65,5% das vítimas. Nos casos de lesão corporal, elas também são maioria: 42.107 vítimas, o equivalente a 64,9% dos registros.
O ex-marido de Rosa, que foi denunciado em setembro de 2025, a proibiu de exercer uma profissão em todo o tempo em que foram casados. Ele, marceneiro, tinha liberdade de ir e vir. Dentro de casa, ela era responsabilizada pelo cuidado dos dois filhos, pelas tarefas domésticas e, caso quisesse obter a própria renda, que fizesse bolo, costurasse bonecas ou encontrasse outra atividade que pudesse ser realizada dentro do lar. Sua realidade se reflete em outro novo dado da secretaria: mulheres dedicam 364 horas a mais por ano ao trabalho doméstico que os homens.
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O levantamento da prefeitura de 12 capítulos teve integração com as pastas de educação, saúde, segurança pública, assistência social, emprego e renda e mobilidade urbana. Joyce Trindade, secretária da pasta de Mulheres e Cuidados, que encabeça a pesquisa, crê que, ano a ano, levantamentos cada vez mais abrangentes, ano a ano, possibilitarão mais políticas públicas de prevenção e assistência:
— Hoje entendemos, por exemplo, que 6 em cada 10 feminicídios são cometidos por parceiros íntimos atuais ou anteriores e 75% acontecem em casa. Sete em cada dez vítimas são mulheres negras. Isso revela padrão, estrutura e desigualdade. Só com monitoramento contínuo é possível agir com responsabilidade e precisão diz a secretária.
As agressões e a ameaça de morte foram violências que motivaram outra vítima, Laura Ramos, de 71 anos, a denunciar o homem com quem viveu por 48 anos e de quem sofreu agressões, entre elas uma tentativa de estrangulamento. Faz só seis meses que ela vive com a filha na Pavuna, na zona Norte, e se disponibiliza ainda a ajuda a outras mulheres que precisam de mais proteção.
— Na época que procurei a delegacia para denunciar, tive que responder a perguntas constrangedoras de um homem: ele queria saber que xingamentos eu ouvia, perguntou se minhas filhas eram deste casamento. Ainda existe um despreparo muito grande. Estes homens precisam aprender. Não existe acolhimento às mulheres nas Deams.
Na véspera do Dia da Mulher, dia 7 de março, uma aula inaugural dos cursos do Programa Mulheres do Rio, da prefeitura, na Barra Olímpica. São das ZonasNorte, Oeste e Sudoeste as maiores taxas de vulnerabilidade feminina. O programa oferece capacitação e instruções sobre recolocação profissional.
— Hoje sabemos que 78,4% dos casos de violência que chegam à saúde são contra mulheres, e 43,2% são causados por parceiros ou ex-parceiros. O feminicídio não começa no último ato. Ele inicia nos sinais que muitas vezes são ignorados. O Mapa da Mulher Carioca traz informações que salvam vidas. Sem evidência nós não conseguimos avançar e garantir políticas públicas para as mulheres. Por isso ele é permanente. Vamos continuar atualizando, aprofundando e ampliando esses dados. É necessário saber onde a violência está, quem ela atinge e como ela acontece.
8.332 tentativa de suicídio e automutilação
Cerca de dois terços das tentativas de suicídio e automutilação envolveram mulheres, que também representam 65% dos casos de intoxicação exógena (exposição a agentes externos, como remédios ou outras substâncias químicas).
A população feminina passou de 3.366 mulheres no início de 2024 para 3.485 no primeiro semestre de 2025, crescimento de 3,5%. As visitas de maridos e parentes caíram de 7.050 para 974 em 2025, redução de 86,2%, indicando maior isolamento.
Em 2024, houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com 89,99% das vítimas de violência sexual sendo meninas. A maioria das ocorrências ocorreu dentro da residência, 65,4%, e foi cometida por familiares, 61,2%.
