No país que envelhece, São Paulo oferece cuidado multidisciplinar aos idosos
O Brasil está envelhecendo — e rapidamente. Em 2024, a expectativa de vida da população chegou a 76,6 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As projeções indicam que, em 2070, quase quatro em cada dez brasileiros terão 60 anos ou mais. O desafio já é realidade em São Paulo, onde mais de 2 milhões de moradores estão nessa faixa etária.
Entre 2010 e 2022, a capital ganhou quase 700 mil novos idosos — um crescimento de 51,1%. Diante desse cenário, a cidade tem ampliado sua rede especializada de atendimento, com foco na prevenção da fragilidade, na autonomia e na qualidade de vida.
É como se a capital paulista recebesse nesse período toda a população de Cuiabá – sem bebês, crianças, adolescentes ou jovens adultos, apenas idosos.
Rede de apoio para oferecer qualidade de vida
Mas o que fazer para lidar com o aumento da longevidade para que os 60+ avancem com saúde e qualidade de vida?
A Prefeitura de São Paulo vem ampliando as Unidades de Referência à Saúde do Idoso (URSIs), serviços especializados que atendem pessoas idosas em situação de fragilidade e oferecem acompanhamento multiprofissional.
Como equipamento de saúde, a URSI acompanha os casos encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) com o apoio de equipes multiprofissionais e interdisciplinares, especializadas em geriatria e gerontologia. Paralelamente, acolhe os cuidadores e cuida da formação e da educação em saúde da pessoa idosa para toda a rede municipal.
Hoje, mais de 12 mil pessoas com 60 anos ou mais recebem atendimento em uma das 14 URSIs da capital paulista. Entre as atividades estão controle de dor, prevenção de quedas, protagonismo feminino, saúde mental, nutrição, dança e inclusão digital. Recentemente, foi criado um grupo de luto para familiares que perderam frequentadores da unidade.
A 14ª unidade foi entregue pela Secretaria Municipal da Saúde no início do mês, no Campo Limpo (Zona Sul da cidade). O equipamento tem capacidade para fazer até 1.180 atendimentos especializados por mês, entre consultas médicas e atividades ligadas à saúde e bem-estar, além de visitas domiciliares e eletrocardiogramas com laudo.
Psicólogo da URSI Santana Jaçanã, Izaque Almerindo explica que o serviço especializado se diferencia por ser desenvolvido a partir de duas linhas de trabalho: personalização e interdisciplinaridade.
– Nossa adaptação começa na avaliação gerontológica global junto ao geriatra e depois com especialistas em psicologia, nutrição, terapia ocupacional, fonoaudiologia, serviço social, enfermagem, farmacêutica clínica e fisioterapia. Isso nos permite olhar além da doença e focar na funcionalidade – resume o psicólogo.
No Coral Vozes da Sabedoria, cada ensaio exercita memória, respiração e escuta, fortalecendo corpo e mente na maturidade
Edson Lopes Jr/SECOM/Divulgação
Ainda segundo Almerindo, para esse perfil de paciente é fundamental ir além do atendimento básico. Por isso, URSIs como a Santana-Jacanã oferecem atividades que desafiam o cérebro e o corpo. É o caso do coral Vozes da Sabedoria, em que são trabalhadas questões importantes para os idosos, como a memória de curto e longo prazo, a capacidade respiratória e a acuidade auditiva.
Enquanto alguns frequentadores precisam de reabilitação, outros se enquadram no perfil dos chamados “superidosos” — pessoas com mais de 80 anos que mantêm características físicas e cognitivas de adultos décadas mais jovens. Para cada perfil, a equipe constrói estratégias específicas, que vão da recuperação funcional à manutenção da autonomia e do protagonismo.
– O superidoso, para nós, é uma inspiração. Na URSI, buscamos ter um ambiente que forneça o combustível para a longevidade. Não se trata apenas de mais combustível aos anos de vida, mas vida aos anos por meio da ciência, da arte e do nosso acolhimento – explica o psicólogo da unidade Santana-Jaçanã.
Esse tipo de atendimento procura trazer três resultados principais: redução de danos, autonomia e pertencimento. O especialista nota, particularmente nos últimos anos, que a pessoa idosa deixa de ser uma receptora passiva de cuidados para se tornar protagonista de sua saúde e de sua história. Ao deixar de lado o isolamento social, quem frequenta o URSI sai da esfera domiciliar e, com o apoio de especialistas, preserva a autonomia por mais tempo à medida que se engaja mais nas atividades.
Mais atendimento aos idosos de São Paulo
As URSIs paulistanas têm acelerado desde 2021, de forma consistente, o volume de atendimento, chegando a 863 mil no acumulado entre 2021 e janeiro de 2026. Quando se compara o desempenho em 2021 e 2025, o número quase dobrou, saltando de 110 mil atendimentos para 215 mil.
Segundo previsão da Secretaria Municipal de Saúde, além da URSI Campo Limpo, devem ser entregues novas instalações da URSI Cidade Ademar (Zona Sul) e Carandiru (Zona Norte), que vai funcionar no complexo Paulistão da Saúde, em obras.
Cuidados e novas oportunidades
Aos 89 anos, Otávio de Almeida encontrou na URSI Jaçanã um espaço que, segundo ele, transformou sua rotina.
— Tem ajudado muito na questão do meu bem-estar e da minha qualidade de vida. Nem tenho palavras para dizer, mas é o máximo — afirma.
Ele conta que descobriu problemas de saúde que desconhecia ao realizar exames na unidade e hoje se sente melhor acompanhado.
— Passo com a equipe multiprofissional, todo mundo me acompanha. Estou sempre aqui: consulta, receita, uma coisa ou outra.
Mais do que atendimento médico, Otávio destaca o ambiente acolhedor. — Se precisar, eu venho. Mesmo sem precisar, eu venho também. Isso aqui é uma beleza. Ele participa do coral e das atividades culturais e celebra a oportunidade de aprender algo novo.
— Nunca tive tempo de aprender a cantar. Trabalhei dia e noite por muito tempo. Agora estou tendo essa oportunidade.
