No Iraque, milícias pró-Irã assumem protagonismo em frente paralela da guerra de EUA e Israel contra Teerã

 

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Horas depois de EUA e Israel iniciarem uma ofensiva de grande porte contra o Irã, no dia 28 de fevereiro, uma base usada pelos americanos em Erbil, no Iraque, foi atacada por drones. Uma ação sem vítimas, mas que marcou a entrada na guerra de uma das principais linhas auxiliares de Teerã: a rede de milícias xiitas que efetivamente controlam o Estado iraquiano, e que há décadas são consideradas ameaças à segurança regional.

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Além da base em Erbil, os foguetes e drones dos grupos atingiram instalações militares, um consulado dos EUA no Norte do país e um escritório do Departamento de Estado no aeroporto internacional de Bagdá. No fim de semana passado, quatro foguetes atingiram a embaixada dos EUA na capital iraquiana, e o premier Mohammad al-Sudani afirmou que os autores do ataque, chamado por ele de terrorista, “estão cometendo um crime contra o Iraque”. Ainda houve relatos de explosões em uma base usada pelos americanos na Jordânia, perto da fronteira.

Como em outros marcos de desestabilização recente no Oriente Médio, as milícias xiitas ganharam força após a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, quando aproveitaram o desmantelamento do Estado para se expandir, e viram no Irã um aliado de conveniência. Grupos armados atuaram na insurgência contra as tropas americanas, que jamais deixaram de ser seus alvos, mas combateram ao lado delas (e de outras forças ocidentais) contra o grupo terrorista Estado Islâmico.

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No contexto do Eixo da Resistência, a aliança liderada por Teerã de forças na região, desempenham papel de contenção aos EUA e a forças rivais, como os curdos anti-Irã, perto de sua fronteira. No último conflito entre Irã e Israel, em junho do ano passado, escolheram não se envolver por questões internas (disputas políticas e as eleições parlamentares de novembro passado) e foram desencorajadas pelos iranianos. Mas o contexto mudou com a morte do líder supremo, Ali Khamenei, e os ataques que puseram a sobrevivência da República Islâmica em xeque.

— É natural que as facções armadas iraquianas participem de qualquer guerra que possa eclodir entre o Irã e qualquer outro Estado, seja Israel, os Estados Unidos ou mesmo a Turquia — disse Essam al-Faili, professor de Ciência Política na Universidade al-Mustansiriya, ao portal The New Arab. — Do ponto de vista delas, não há mais justificativa para não participar de qualquer confronto em que o Irã esteja envolvido.

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Dentre as dezenas de milícias, uma das mais influentes é a Kata’ib Hezbollah, fundada em 2003, nos primeiros dias da invasão americana, quando atacou bases, detonou explosivos ao lado de comboios e usou atiradores de elite para matar soldados. O grupo replica as ações do Hezbollah libanês, com uma rede de serviços e estruturas voltadas a ações militares e atividades civis, além de presença formal na política. Estima-se que tenha cerca até 30 mil combatentes.

Já a Organização Badr surgiu nos anos 1980, reunindo opositores de Saddam Hussein com forte apoio iraniano. Após a queda de Saddam, assumiu posições de destaque nos serviços internos de segurança. Também respondendo à Guarda Revolucionária, o Asa'ib Ahl al-Haq surgiu em 2004, como uma dissidência do Exército Mahdi, comandado pelo clérigo xiita Moqtada al-Sadr, um enredo que acompanhou outros aliados de Teerã no país árabe. O Harakat Hezbollah al-Nujaba, criado em 2013, atuou na Guerra Civil da Síria, ao lado das forças do ditador Bashar al-Assad, e lança ataques recorrentes contra bases dos EUA no Iraque.

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Em comum, elas têm representações políticas no Parlamento — o Asa'ib Ahl al-Haq, por exemplo, ganhou 27 cadeiras nas eleições de novembro passado —, estão entranhadas no Estado iraquiano, têm o apoio da Guarda Revolucionária e integram as Forças de Mobilização Popular, um emaranhado de milícias xiitas que oficialmente respondem a Bagdá, e que na prática seguem Teerã.

— Muitas organizações islâmicas, em geral, não acreditam tanto em fronteiras políticas quanto em uma autoridade de liderança transfronteiriça — explicou al-Falli ao The New Arab. — Essas facções seguem a orientação do líder supremo. Isso torna a dimensão espiritual uma parte essencial de seus movimentos.

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Enquanto países europeus incrementavam sua presença no Oriente Médio em ações “defensivas”, Teerã alertou que se eles se juntarem aos EUA e Israel seriam alvos legítimos. Para as milícias no Iraque, isso soou como uma autorização para novos ataques.

Na quarta-feira, um drone atingiu uma base usada por forças italianas no norte do Iraque, sem deixar feridos. A ação ocorreu no momento em que as tropas no país se preparavam para voltar para casa. Segundo o Wall Street Journal, dos 300 militares baseados em solo iraquiano antes da guerra, cerca de 100 já retornaram, e outros 70 foram estão na Jordânia.

Porta-aviões francês Charles de Gaulle atracado no porto de Malmö

Johan Nilsson/TT News Agency/AFP

No dia seguinte, um sargento francês morreu em um ataque com drones contra uma base usada pelo país nos arredores de Erbil, que deixou outros soldados e oficiais feridos. Horas antes da ação, uma milícia conhecida como Kataib Sarkhat al-Quds, surgida em 2019, afirmou que a presença do porta-aviões Charles de Gaulle no leste do Mar Mediterrâneo tornava os franceses seus alvos — o grupo armado, contudo, não assumiu a autoria do ataque.

“Este ataque contra as nossas forças, que estão empenhadas na luta contra o ISIS desde 2015, é inaceitável. A presença delas se dá estritamente no âmbito da luta contra o terrorismo. A guerra no Irã não justifica tais ataques”, escreveu o presidente da França, Emmanuel Macron, na rede social X.

Boeing KC-135 Stratotanker é uma aeronave militar americana de reabastecimento aéreo

Wikipedia

No domingo, os EUA anunciaram ataques no Iraque, com o objetivo de fragilizar as capacidades e estruturas dos grupos armados, rompendo com uma estratégia de evitar embates diretos de tal porte. Ocorreram bombardeios nos arredores de Bagdá e na fronteira com a Síria, áreas usadas para o lançamento de drones e foguetes, e na região central do país, onde um comandante do Kata’ib Hezbollah morreu.

Segundo o Pentágono, uma unidade dos Fuzileiros Navais especializada em operações terrestres foi enviada para o Oriente Médio, composta por cerca de 2,5 mil integrantes e veículos navais e aéreos.

Não está claro se elas fazem parte de uma eventual incursão no Irã, hipótese que os EUA não descartaram, ou se poderão atuar em outras frentes, como no Iraque. Há alguns dias, a Casa Branca sugeriu que poderia apoiar um ataque de forças curdas no Irã, mas oficialmente já abandonou a ideia — rivais do regime, essas milícias estão se reunindo perto da fronteira, aguardando uma janela de oportunidade.

O comando militar americano também confirmou a morte dos seis tripulantes de uma aeronave de reabastecimento que caiu em uma área isolada do deserto iraquiano. Uma coalizão de milícias, a Resistência Islâmica do Iraque, anunciou que havia abatido o KC-135, mas os EUA rejeitaram as alegações. Um segundo avião, do mesmo modelo, se envolveu no incidente, mas pousou sem problemas no aeroporto internacional de Tel Aviv.