No interior do Brasil, aplicativos apostam na cultura local e no relacionamento próximo com o lojista

 

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Enquanto as gigantes do mercado de delivery concentram sua atuação nas capitais brasileiras, aplicativos regionais vêm crescendo no interior do país.

Com uma estratégia de negócios ancorada na hiperlocalidade, esses apps apostam no entendimento da cultura local e no relacionamento mais próximo com o lojista como trunfos para expandir as operações.

Tal proximidade é possível porque os aplicativos regionais de delivery geralmente trabalham em conjunto com empreendedores locais. Por meio de licenciamento, microfranquia ou afiliação, eles viram “donos” do app no município onde moram.

Ficam responsáveis pelas atividades comerciais e de marketing e são remunerados com uma porcentagem da receita obtida pelas plataformas. Essa abordagem permite compreender melhor as dores dos lojistas, humanizar o atendimento e adaptar soluções a fim de conquistar mercado.

Foi com um modelo de licenciamento baseado nessa estratégia que o aiqfome, fundado em Maringá (PR) em 2007, conseguiu escalar — mesmo nunca tendo recebido investimento — e chamar a atenção do Magazine Luiza, que adquiriu o aplicativo em 2020.

Presente hoje em mais de 700 cidades de 50 mil a 500 mil habitantes, espalhadas por 22 estados, é considerado o maior do ramo de delivery no interior do Brasil. A média de pedidos mensais ultrapassa dois milhões, somando itens de restaurantes, supermercados e farmácias, além de produtos do segmento pet, água e gás de botijão.

A empresa, que começou como um guia gastronômico na internet e virou app em 2014, viu a oportunidade de crescer justamente ao notar a demanda por delivery em locais aonde as gigantes não chegavam.

Para o cofundador e CEO do aiqfome, Igor Remigio, embora essas grandes companhias estejam expandindo para o interior, a concorrência não é uma ameaça.

— Ainda somos líderes na maior parte das cidades em que atuamos. A hiperlocalidade é um diferencial porque o licenciado fala o sotaque do lojista. É uma pessoa que nasceu e mora na cidade e, portanto, sabe o que dá resultado. Dessa forma, conseguimos atender o cliente de uma forma que os grandes não conseguem.

O aiqfome tem cerca de 300 licenciados, que repartem meio a meio com a central as taxas cobradas no aplicativo. O investimento para comprar a licença é de R$ 10 mil a R$ 15 mil, dependendo da praça, e de R$ 20 mil a R$ 30 mil para lançar o aplicativo na cidade.

A aquisição pelo Magazine Luiza e a integração do aiqfome ao SuperApp Magalu impulsionaram a base de parceiros, que triplicou para 30 mil estabelecimentos. A meta, agora, é aproveitar o alcance nacional do grupo Magalu e começar a preparar a escalada para cidades com mais de 500 mil habitantes.

Hoje, o aiqfome tem cerca de oito milhões de usuários, três mil entregadores e 400 funcionários diretos. Em 2025, o faturamento foi de R$ 1,1 bilhão, salto de 83% ante 2020.

Cultura bairrista

Criada em 2011 em Santa Maria (RS), a Delivery Much também nasceu como um site e depois se transformou em app. O sucesso na cidade, de tradição universitária, foi rápido. Com o retorno de alguns estudantes para seus municípios de origem ao término dos estudos, começaram a surgir pedidos para que o serviço fosse levado a outras regiões.

Daí veio a ideia de desenhar um modelo de microfranquia, no qual os empreendedores operam localmente o relacionamento com os estabelecimentos parceiros.

— O grande segredo é gastar sola de sapato e se relacionar com o lojista. As grandes plataformas de delivery têm dificuldade de fazer isso. Hoje temos cerca de cem microfranqueados atuando junto aos donos de restaurantes, que entendem que o aplicativo joga ao lado deles. A gente não quer se tornar um mal necessário para esses negócios — afirma o fundador e CEO da Delivery Much, Pedro Judacheski.

Mais de cem cidades

O app já alcança mais de cem cidades no país, a maioria no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, mas também outras no Norte, Centro-Oeste e Sudeste. Aquelas com menos de 100 mil habitantes são o alvo principal da empresa. Neste ano, a meta é abrir operação em cerca de 20 localidades.

— Às vezes, um município de 15 mil ou 20 mil habitantes surpreende. Faz sentido que o aplicativo esteja ali, porque todo mundo tem celular. Nossa estimativa é que, para cada 800 a mil pessoas, há pelo menos um restaurante fazendo delivery — diz Judacheski.

Mais de quatro milhões de consumidores estão cadastrados na plataforma da Delivery Much. Já o número de lojistas parceiros passa de sete mil. Com receita bruta anual de R$ 55 milhões, o objetivo é crescer 10% em 2026.

Para ser mais competitiva, a empresa oferece aos restaurantes mais duas tecnologias além do app de delivery: uma solução de inteligência artificial para automatizar o atendimento por WhatsApp e um sistema de gestão integrada para o estabelecimento.

Em Lagarto (SE), cidade de 110 mil habitantes a cerca de uma hora de Aracaju, 140 funcionários fazem acontecer o trabalho da QueroDelivery, lançada em 2018, quando não havia qualquer aplicativo de delivery na região.

Morador do local, o fundador e CEO da QueroDelivery, Miguel Neto, sentia na pele a dificuldade de pedir lanches por ligação telefônica — único meio disponível no interior na época — e começou a desenvolver uma solução para o problema.

Expansão

Seis meses depois do lançamento do app, a expansão para municípios vizinhos foi iniciada. Hoje, a atuação se estende por mais de 200 cidades com população entre 10 mil e 250 mil habitantes, distribuídas em 14 estados, a maior parte no Nordeste.

Cerca de 70% da operação roda com o modelo de afiliação — ao todo, são 30 afiliados, responsáveis pela prospecção de clientes e pelo relacionamento próximo com os estabelecimentos parceiros. O restante é gerido diretamente pela central.

— Não temos interesse em municípios maiores. Ainda existe um campo grande para crescimento nessas pequenas cidades, onde há baixa ou quase nenhuma penetração de grandes players — diz Neto. — Viemos do interior e entendemos a cultura local, que muitas vezes é bairrista. Esse conhecimento acaba sendo um diferencial competitivo.

Mais de 20 mil estabelecimentos entre restaurantes, farmácias, supermercados e comércios de água e gás compõem a base de parceiros da QueroDelivery, que faz cerca de 1,2 milhão de entregas por mês. A empresa prevê que o faturamento cresça em torno de 30% ante o ano passado e bata R$ 650 milhões em valor transacionado.