No G7, Trump celebra memorando com Irã e promete solução para a Ucrânia, mas ceticismo segue presente
Dois dias depois de anunciar um memorando de entendimento para a guerra contra o Irã, primeiro passo para um acordo mais amplo, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse na reunião de cúpula do G7 que a crise no Oriente Médio “logo estará no retrovisor”, e que voltará suas atenções a outro conflito sem fim, na Ucrânia. Mas diante da falta de detalhes sobre o que foi acordado com Teerã e das conhecidas idas e vindas do republicano, a cautela deu o tom em Évian, na França.
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A reunião começou um dia depois do previsto para que Trump comemorasse o aniversário de 80 anos com um evento do UFC nos jardins da Casa Branca, e na França ele se referiu a um acordo definitivo com os iranianos como algo líquido e certo. Segundo o republicano, Teerã “nunca terá uma arma nuclear”, o Estreito de Ormuz será reaberto “sem a cobrança de pedágio” e os EUA não liberarão dinheiro de imediato — desde domingo, informações na mídia do Irã apontavam para uma promessa de investimentos de até US$ 300 bilhões, além do descongelamento de fundos no exterior.
— Temos um acordo fechado com o Irã, e ele deve ser bem-sucedido, passando para uma segunda etapa, que eu acho que será ainda mais fácil — disse a jornalistas. — Temos um acordo que é um acordo justo, é um bom acordo.
A assinatura está prevista para sexta-feira, em um luxuoso resort na Suíça, mas o que nem o republicano nem os iranianos explicaram é o que está no memorando. Trump diz já ter obtido o compromisso nuclear dos iranianos, mas oficialmente o regime jamais reconheceu que buscava um assento no clube de nações com arsenais atômicos. Ele prometeu conceder uma entrevista coletiva com os pormenores do plano nos próximos dias.
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O presidente declarou que, a partir de sexta, Ormuz estará reaberto, mas o Irã não abre mão de algum tipo de controle ou compensação: segundo a inteligência dos EUA, os iranianos adquiriram a capacidade de fechar a passagem a qualquer momento, queira Trump ou não. Segundo a imprensa americana, a conversa a portas fechadas com os demais líderes do G7 foi “franca”, e o republicano se mostrou aberto à presença de uma força-tarefa europeia para garantir a segurança na passagem.
— Não acho que precisaremos de muita ajuda, mas não acho que seja uma má ideia ter um ou dois navios aqui vindos de alguns países — destacou.
Mas há obstáculos à sua volta olímpica diplomática no Oriente Médio. Mesmo antes do anúncio do memorando, no domingo, Israel não prometeu cumprir um acordo sobre o qual não opinou. Apesar da promessa de pausa nos combates “em todas as frentes”, foram registrados ataques contra o sul do Líbano, algo inaceitável para Teerã, e que constitui uma violação do acordo preliminar.
“Agora, Washington precisa provar seu compromisso encerrando a guerra contra o Líbano e cumprindo todas as cláusulas do memorando de entendimento. A era da imposição unilateral contra os iranianos acabou”, escreveu, na rede social X, Ebrahim Azizi, chefe da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento do Irã.
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Como fez ao longo do fim de semana (especialmente no domingo, quando mais uma vez usou palavrões ao se referir ao premier Benjamin Netanyahu), não poupou palavras aos israelenses, explicando que “não está feliz com a forma como Israel lidou com o Líbano e com o Hezbollah”, e que o impasse “lança uma luz negativa sobre o grande acordo, que é o acordo com o Irã”. Não que entenda que o grupo xiita libanês, aliado de Teerã, mereça reconhecimento, mas sim porque acredita “que os israelenses deveriam ter conseguido resolver a situação mais rapidamente”. E foi além.
— Se Israel não conseguir resolver a situação [contra o Hezbollah] sem matar todos os outros, então ele resolverá. A Síria resolverá — afirmou aos jornalistas em Evian, acrescentando que o presidente sírio, o ex-jihadista Ahmed al-Sharaa, “não gosta” do grupo xiita”, “não é nenhum santo”, e com quem tem uma boa relação.
A simples menção do envolvimento sírio em questões de segurança no Líbano evoca memórias da Guerra Civil Libanesa (1975-1990) e da violenta ocupação militar encerrada em 2005. Ao tentar “resolver” um problema, a saída de Israel, Trump criaria outro ainda maior.
— A dimensão sectária aqui é muito arriscada. Dividiria o Líbano e seria um desastre. Acho que é uma caixa de Pandora. Ele (al-Sharaa) estaria cometendo um grande erro se fizesse isso — disse à rede CNN Michael Young, editor sênior do Centro Carnegie para o Oriente Médio, para quem a ideia é "completamente absurda".
Novas prioridades
Em Évian-les-Bains, famosa pelas suas águas minerais que recebeu os líderes do G7 e convidados (incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva), o tom foi, ao menos diante das câmeras, ameno.
— As discussões que tivemos entre nós e com o presidente dos EUA, tanto em reuniões oficiais quanto em encontros informais à margem do conflito, me dão uma certa sensação de otimismo — disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, à imprensa. .
Trump ganhou de Merz, uma camisa da seleção da Alemanha com o número 47 (Trump é o 47º presidente americano), foi convidado para um jantar no Palácio de Versailles, em homenagem aos 250 anos da independência dos EUA, e se declarou “fã de lugares bonitos”. Com a “resolução” no Irã, se disse pronto para retomar uma promessa de campanha, encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia.
— Agora, daremos atenção especial à Ucrânia . Agora vamos olhar para lá. Estávamos focados no Irã, que agora estará no segundo plano.
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O líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, estava presente, mas não o russo Vladimir Putin, que diz não ter recebido um convite: segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, “não existem canais oficiais entre Moscou e Kiev”.
— A Rússia deveria fazer um acordo. A Rússia perdeu um número enorme de pessoas, assim como a Ucrânia. No mês passado, perderam 35 mil soldados entre os dois países; isso é uma média mensal. A média era de 25 mil pessoas, a maioria soldados, jovens, gente bonita, e é uma loucura o que está acontecendo lá — declarou Trump a jornalistas, revelando uma conversa com Putin no domingo.
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De acordo com Zelensky, os europeus concordam que a Rússia “não está ganhando a guerra”, e discutem a adoção de novas sanções contra Moscou. Na mesma linha, Trump afirmou que, “em breve”, poderá retomar o embargo ao petróleo russo, suspenso devido à guerra no Golfo contra o Irã, sem dar prazos. À Reuters, o ministro das Relações Internacionais da Alemanha, Johann Wadepuhl, estimou que as conversas poderão ser retomadas no início do segundo semestre. Mas o líder americano fez questão de destacar que, para ele, essa é uma guerra europeia, não dos EUA.
— Não temos nada a ver com isso, nós vendemos armas para eles — disse Trump. — Isso (guerra na Ucrânia) não nos afeta em nada, além do fato de vendermos armas. Estamos a milhares de quilômetros de distância.
