No coração do Douro, Alves de Sousa revela vinhos em que a tradição e o território somam prêmios; conheça quatro rótulos da vinícola portuguesa

 

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Produtora de vinhos únicos, que revelam com precisão a belíssima região do Douro, a portuguesa Alves de Sousa é uma vinícola familiar que soma prêmios ao longo de sua história. Ela é comandada por Domingos Alves de Sousa e o filho Tiago, enólogo premiado. Na elaboração de rótulos das denominações Douro e Porto, a marca é conhecida pelo uso de vinhedos centenários; pela pesquisa do território e das uvas; e pelo emprego de diferentes formas de vinificação. Conheça quatro vinhos que contam os segredos do sucesso da vinícola.

Tradição de uvas brancas

O Branco da Gaivosa 2024 é um vinho feito com três uvas nativas portuguesas: Rabigato, Gouveio e Viozinho. Para Tiago, esse vinho revela muito da propriedade:

— Cada uva foi trabalhada de forma diferente e depois complementam-se no corte final. É um vinho que tem realmente uma expressão aromática muito bonita, com um lado bem floral. Depois também nos remete muito para a Quinta da Gaivosa, e o frescor que a localização traz, com essa altitude e que a exposição solar mais protegida. Também traz muito daquilo que é a paisagem da Gaivosa, com muita floresta, muita mata. Encontramos nele elementos mais herbais, mais resinosos, como o pinheiro, e que lhe dão muita identidade.

Tiago explica que a Quinta da Gaivosa sempre teve tradição de cultivar uvas brancas para fazer vinho do Porto branco. Quando decidiu comercializar vinhos brancos do Douro, no entanto, foi preciso um trabalho de pesquisa no território:

— Uma das grandes tradições da família era fazer vinho do Porto. Quando começamos a fazer os primeiros vinhos do Douro, houve uma transição natural com a uva tinta do Porto. No branco, não foi tão natural. Foi um processo de reconhecer os locais vocacionados para ter a uva que permitiria os vinhos brancos que queríamos. Passamos para as cotas mais altas, para as encostas expostas, à Nascente e a Norte, além da seleção das castas que sabíamos estavam que estavam adaptadas às nossas condições naturais, como Malvasia Fina, Rabigato, Viozinho. São as nossas uvas nativas.

Ele brinca que o mundo já tem Chardonnay suficiente:

— É uma uva linda, mas está em todo lado. Já uvas como as que temos cá têm identidade própria e qualidade. Faz todo sentido continuar a estudá-las e a, efetivamente, a tê-las nos nossos vinhos. Elas complementam-se muito, muito bem, mas são uvas bastante diferentes.

Quinta da Gaivosa 2022

Abandonado: vinhedo com nove décadas

O tinto Abandonado é feito com uvas de um vinhedo que soma 90 anos e exigiu muita dedicação para dar resultado:

— É um dos vinhedos mais velhos e mais especiais da família, plantado há 90 anos aproximadamente. Era cultivada com o uso de cavalos, com os meios que existiam. Quando os nossos antepassados estavam a preparar o solo, não conseguiam ir fundo o suficiente porque a rocha fica demasiado próxima da superfície. Não tinha solo suficiente, e a videira tão jovem morria. Metade morria numa fase muito precoce. Como era muito difícil, ele foi esquecido. Todo mundo conhecia este local como abandonado.

Segundo Tiago, muitos anos mais tarde, quando ele e o pai já estavam trabalhando juntos, os dois passavam ali, olhavam o cenário abandonado e queriam fazer alguma coisa no local.

— Pensávamos que tínhamos que fazer alguma coisa. Quase não se produzia, havia muitas falhas. Mas se replantássemos, morreria tudo outra vez porque estávamos a plantar sobre a rocha. Pensamos em ser mais drásticos, colocar dinamite para quebrar tudo. Mas meu pai quis preservar tal e qual como era.

Tiago contou que a solução foi recuperar uma parcela ao lado, que também estava invadida por outras plantas:

— Na verdade, era ainda mais abandonada porque tinha sido muito invadida até pela floresta. Na primeira fase, criamos um corredor entre a floresta e o vinhedo. Plantamos o porta-enxerto americano, e demorou anos para conseguirmos enxertar, quando o comum é no ano seguinte. As condições dali são tão pobres que não permitiam que ganhasse o vigor suficiente. E que é que nós enxertamos? A lenha de poda do abandonado. Acabamos mais ou menos a clonar, a recriar não apenas as mesmas castas, mas literalmente as mesmas plantas. É o mesmo DNA, com as condições mais próximas possíveis.

Ele explicou que a segunda etapa foi avançar para o vinhedo mais antigo, que foi recuperada.

— Plantamos a seleção ainda mais profunda das castas que já existiam, de forma a prepararmos o Abandonado para o futuro. Até temos Touriga Francesa, algum Sousão, mas usamos Malvasia Preta, Tinta Francisca, Tinta Carvalha. Acabamos por ir precisamente a algumas que são fundamentais no Douro atual. Mas também muitas das variedades antigas que ainda existem no primeiro vinhedo abandonado, para garantir que se mantenha.

Quinta da Gaivosa Porto Branco 20 anos