No coração da Amazônia, ZEG usa IA para detectar incêndios e gerar renda com a floresta em pé - QTU Questões do Universo

No coração da Amazônia, ZEG usa IA para detectar incêndios e gerar renda com a floresta em pé

Fonte: Bandeira da fonte

No meio da floresta amazônica em Roraima, uma torre de 60 metros de altura abriga uma das ferramentas usadas pela ZEG para tentar proteger uma área de mais de 14 mil hectares.
No topo da estrutura, uma câmera equipada com inteligência artificial gira continuamente à procura de sinais de fumaça.
Quando identifica um possível foco de incêndio, o sistema envia um alerta para que a equipe em campo possa agir.
A tecnologia integra o projeto Vale do Rio Branco, iniciativa de conservação florestal mantida pela ZEG em Caracaraí, Roraima.
Um Só Planeta e Época NEGÓCIOS visitaram a operação, em uma viagem de cerca de três horas a partir de Boa Vista.
Além da detecção de incêndios, a tecnologia aparece em outras frentes da operação.
Câmeras instaladas na floresta são usadas para acompanhar a fauna e auxiliar no mapeamento da biodiversidade.
Segundo a ZEG, 28 espécies de mamíferos e 206 espécies de aves já foram identificadas na área.
O objetivo é monitorar uma área de floresta nativa que, de acordo com a companhia, poderia ter parte de sua vegetação legalmente suprimida.
O projeto abrange 14 mil hectares de floresta conservada e prevê evitar o desmatamento legal de 6 mil hectares, com compromisso contratual de permanência por 40 anos.
Onça pintada é flagrada por câmera trap
Divulgação
Uma das estruturas visitadas pela reportagem foi justamente o sistema de prevenção e monitoramento de incêndios.
A câmera instalada no alto da torre utiliza IA para analisar as imagens captadas da floresta e identificar indícios de fumaça.
Segundo Carlos Jacob, CEO da ZEG, o objetivo é reduzir o tempo entre a identificação de um possível incêndio e a resposta da equipe.
“Qualquer sinal de fumaça que é detectado nesse meio do caminho, a inteligência artificial identifica que é um foco de incêndio e avisa em alguns segundos para que a gente consiga tomar a ação.”
Carlos Jacob, CEO da ZEG
Divulgação, @jsdrones
A instalação do sistema com inteligência artificial exigiu um investimento de aproximadamente R$ 200 mil, segundo a ZEG.
No total, a companhia afirma já ter investido cerca de R$ 20 milhões no projeto Vale do Rio Branco.
A infraestrutura de conservação da fazenda inclui ainda câmeras trap – equipamentos acionados pela presença de animais – e aceiros, além da equipe responsável pelo monitoramento da floresta.
Por que conservar uma área que poderia ser desmatada?
A tecnologia é uma peça de uma discussão maior por trás do Vale do Rio Branco: como atribuir valor econômico à manutenção da floresta em uma região em que parte dela poderia ser convertida legalmente para outras atividades.
“Esse projeto é muito importante aqui porque ele está evitando o desmatamento legal, que é o desmatamento permitido por lei”, afirma Isabella Mondino, head de Negócios da ZEG.
Isabella Mondino, head de Negócios da ZEG
Divulgação, @jsdrones
Segundo Mondino, a mudança na reserva legal do estado ajuda a explicar a proposta da iniciativa, dado que em 2022 Roraima teve, através de um decreto, a redução do percentual de reserva legal de 80% para 50%.
“E aí a gente está em um momento de emergência climática e pensando como que a gente faz conservação florestal”, afirma.
A área plantada de soja em Roraima cresceu 500% nos últimos sete anos e deve chegar a cerca de 145 mil hectares em 2026, alta projetada de 9,4% sobre 2025.
Castanheira é uma das espécies encontradas no projeto Vale do Rio Branco
Divulgação
A lógica do projeto é fazer com que a conservação possa competir economicamente com a mudança no uso da terra.
“É um conceito um pouco difícil.
Simplesmente manter a floresta em pé.
Como que a gente monitora isso? Como que a gente gera valor?”, diz Mondino.
“E aí a ZEG tem essa finalidade de providenciar uma alternativa econômica para proprietários que legalmente poderiam suprimir parte de suas áreas da produção tradicional.”
O projeto Vale do Rio Branco recebeu a certificação REDD+, além da classificação AA.pre da BeZero Carbon, que considera critérios como adicionalidade, permanência, contabilização de carbono e risco de execução.
Entre os diferenciais apontados estão o compromisso contratual de 40 anos, monitoramento contínuo, equipe própria em campo e tecnologia para detecção de incêndios.
Além de preservar a floresta, o projeto foi estruturado para gerar créditos de carbono a partir do desmatamento evitado.
Com as certificações obtidas, a ZEG já está autorizada a comercializar os créditos, mas a estratégia da companhia é não acelerar as vendas imediatamente.
Segundo Jacob, a previsão é iniciar a comercialização em 2027 e ganhar escala principalmente no ciclo de 2030 e 2031.
A empresa pretende direcionar os créditos sobretudo a grandes companhias globais que buscam compensar parte de suas emissões.
Entre os mercados potenciais citados pelo executivo estão as grandes petroleiras.
Diversas espécies foram registradas por câmeras trap instaladas no projeto
Divulgação
O plano também é ampliar a escala da operação em Roraima.
Segundo o CEO, a ZEG pretende expandir o modelo para mais algumas dezenas de milhares de hectares no estado, além dos mais de 14 mil hectares atualmente abrangidos pelo Vale do Rio Branco.
Castanha-do-Brasil como alternativa econômica
A estratégia de manter a floresta em pé também inclui uma frente que não depende de inteligência artificial.
Em agosto, a ZEG formalizou uma parceria com uma associação de castanheiros da região e um fundo social da Vale.
Pelo acordo, a empresa cede aos associados o direito de uso dos castanhais para coleta e comercialização das castanhas, condicionado ao cumprimento das regras de manejo e conservação da área.
A associação reúne 37 pessoas, das quais 23 castanheiros estão diretamente envolvidos na coleta na fase piloto.
“A gente está estruturando a cadeia da castanha-do-Brasil, que anteriormente era uma cadeia informal aqui na região”, afirma Mondino.
A proposta é associar a conservação da área a uma atividade econômica que dependa justamente da manutenção da floresta.
Durante a visita, um dos castanheiros participantes do projeto resumiu o que o acordo de longo prazo representa para quem vive da atividade.
“Continuar quebrando castanha com um longo prazo, uns 40 anos, para nós foi uma felicidade no momento.
E para a gente vale muito mais a floresta em pé do que ela queimada, transformada em pasto ou em soja”, afirmou João Inácio Neto, castanheiro participante do projeto.
*O jornalista viajou a convite da ZEG
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