No Congresso dos EUA, 'tropa de choque' de Trump defende legalidade de guerra contra o Irã, mas objetivos seguem incertos

 

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Quatro dias após iniciar, ao lado de Israel, um ataque de grande porte no Irã, o governo de Donald Trump afirmou que eliminou “a maioria” das capacidades militares de Teerã, e citou um possível vácuo de lideranças internas, depois que dezenas delas foram mortas. Mas o discurso segue acompanhado pelas contradições sobre a motivação e os objetivos de uma guerra impopular nos EUA, e que é questionada pelo Congresso. Nesta terça, Trump escalou uma “tropa de choque” para apresentar aos parlamentares os argumentos da Casa Branca e defender a legalidade da ação.

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A portas fechadas no Senado, Rubio garantiu que o governo cumpriu todos os requerimentos legais para iniciar a guerra, citando que notificou lideranças dos dois partidos sobre os bombardeios antes de seu início, além de fornecer detalhes a respeito da operação nos dias posteriores. Segundo o senador democrata Chris Murphy, ouvido pelo New York Times, os representantes do governo disseram que esse é um "conflito sem prazo definido", e que a campanha militar "ainda nem começou de fato", prevendo mais mortos em ações de combate.

— Estou realmente preocupado com o desvio de foco da missão — disse ao New York Times o senador democrata Chuck Schumer, que classificou a reunião de "muito insatisfatória", e acusou o governo de oferecer “respostas diferentes todos os dias” sobre os motivos da guerra.

Além de Rubio, estão no Capitólio o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e o diretor da CIA, John Ratcliffe. Eles se falarão ainda com os deputados.

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Trump sabe que não há consenso sobre mandar tropas e recursos para o Oriente Médio, mesmo contra um algoz histórico. Nos próximos dias, os democratas devem colocar em votação uma resolução que reduz os poderes do presidente para ordenar guerras sem o aval do Congresso, proposta que tem o aval de alguns republicanos.

O presidente da Câmara, Mike Johnson, acredita ter os votos necessários para barrar a medida, mas os democratas dizem que há chances de aprovação. Um texto alternativo, apresentada por democratas de centro e que é menos dura com o governo, foi apresentada nesta terça.

Na véspera, Rubio conversou com líderes dos dois partidos, e disse que os EUA foram à guerra porque Israel estava determinado a atacar o Irã, mesmo sem os americanos, e que se juntaram a eles para reduzir os impactos das retaliações iranianas, na prática, uma guerra defensiva. A explicação foi rejeitada por Trump e pelo premier israelense, Benjamin Netanyahu.

— Isso é ridículo — respondeu Netanyahu, em entrevista à rede Fox News. — Donald Trump é o líder mais poderoso do mundo. Ele faz o que acha que é o certo para os EUA.

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Na Casa Branca, Trump garantiu ter ordenado a operação em primeiro lugar.

— Eles (Irã) iriam atacar se não fizéssemos nada, eles atacariam primeiro. Eu tinha certeza disso — disse o presidente, ao lado do chanceler alemão, Friedrich Merz. —Se alguma coisa aconteceu, talvez eu tenha forçado a mão de Israel, mas Israel estava preparado, e nós estávamos preparados, e tivemos um impacto muito, muito forte, porque praticamente tudo o que eles tinham foi destruído. Agora, o número de mísseis deles está diminuindo drasticamente.

Rubio tentou se explicar.

— Eu disse a vocês, isso tinha que acontecer de qualquer maneira, o presidente tomou uma decisão, e a decisão que ele tomou foi que o Irã não teria permissão para se esconder atrás de seu programa de mísseis balísticos — se esgueirou o secretário de Estado, antes das audiências no Congresso. — A questão fundamental é a seguinte: nós, no caso, o presidente, determinamos que não seríamos atacados primeiro.

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Antes de sábado, Casa Branca mesclava ameaças de guerra com palavras de incentivo às negociações para um acordo envolvendo o programa nuclear de Teerã, acusado de ter finalidades militares (o que os iranianos negam). No discurso sobre o Estado da União, há uma semana, o presidente falou pouco sobre o tema, sinalizando que uma saída diplomática era a preferida.

Dois dias depois, em Genebra, representantes dos dois países se reuniram pela quarta vez, e os comentários posteriores sugeriam avanços importantes: uma proposta à mesa era o compromisso dos iranianos em não manter mais material enriquecido no país, além da promessa de diluir o urânio enriquecido a níveis adequados para uso civil. Uma reunião em nível técnico estava marcada para segunda-feira.

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Como nos bombardeios de junho do ano passado, diplomacia foi interrompida pela guerra, desta vez um conflito de grande porte e impactos globais. O que ainda não está claro para o público americano e para o meio político local é o que motivou Trump a atacar o Irã neste momento.

Em janeiro, quando quase ordenou bombardeios, Trump falava em ajudar a população que tomava as ruas em protestos contra o governo, e que foi reprimida de maneira atroz, com milhares de mortos. Durante as negociações, acusou Teerã de não aceitar suas demandas maximalistas, como o fim dos programas nuclear e de mísseis balísticos, além do desmantelamento da rede de milícias aliadas.

Agora, novas e velhas justificativas foram usadas. O presidente disse que, em breve, o Irã teria mísseis capazes de atingir os EUA (o que especialistas dizem que levaria anos), que queria facilitar a queda dos aiatolás, e que o país estava perto de uma bomba atômica (o chefe da agência nuclear da ONU afirmou na terça que não há indícios disso). Na segunda-feira, surgiu a versão da guerra defensiva de Rubio, que parece já ter sido descartada.

— Não havia nenhuma ameaça iminente aos Estados Unidos da América por parte dos iranianos — disse o senador Mark Warner (democrata da Virgínia), membro sênior do Comitê de Inteligência do Senado, na segunda-feira. — Já vimos os objetivos desta operação mudarem, creio eu, quatro ou cinco vezes.

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Antes da visita da “tropa de choque” ao Congresso, Trump defendeu a guerra ao lado do chanceler alemão na Casa Branca. Ele afirmou que havia destruído boa parte da capacidade militar iraniana, se mostrou surpreso com a escala das retaliações ao redor do Golfo Pérsico, e revelou que um nome visto por Washington como novo provável líder do Irã foi morto, sem dize quem era.

Trump comparou o cenário ao da Venezuela pós-captura de Nicolás Maduro, em janeiro, "quando o regime permaneceu intacto", mas disse que, diante do grande número de baixas nos altos escalões iranianos, "provavelmente não conhecemos mais ninguém" com quem dialogar. Se dirigindo à população local, pediu que "ainda não saiam" às ruas para pedir a queda do regime, uma vez que "muitas bombas estão sendo lançadas".

— Gostaríamos de ver alguém lá que traga o poder de volta para o povo, e veremos o que acontece com o povo — explicou, descartando que o poder será assumido por alguém da oposição no exílio, como Reza Pahlevi, herdeiro do xá Mohammad Reza Pahlevi, último monarca do Irã. — Algumas pessoas gostam dele, e não temos pensado muito nisso. Parece-me que alguém de dentro do governo seria mais apropriado.

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Além da desconfiança no Congresso, a guerra de Trump e Netanyahu tem pouco apoio entre os americanos. Pesquisas mostram que mais de 60% dos entrevistados são contra a ofensiva, na maioria democratas e independentes. Números que podem aumentar se houver mais mortes de militares dos EUA — até o momento, seis morreram no Kuwait —, se o governo ameaçar enviar tropas ao Irã — o que Trump não descartou —, ou se o conflito começar a ser sentido no bolso.

O preço do barril do petróleo disparou desde os ataques, e o virtual fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% da produção global de petróleo e gás, pode agravar o cenário. Nos EUA, a gasolina teve o maior salto desde 2005. A poucos meses de uma eleição crucial para Trump, com a renovação da Câmara e parte do Senado, e que tem o custo de vida como um dos temas centrais, os reajustes nas bombas são uma perigosa vulnerabilidade.

— Assim que isso terminar, acredito que esses preços cairão ainda mais do que antes — disse Trump na Casa Branca, pouco antes de sinalizar que poderia usar navios da Marinha para escoltar os petroleiros no Estreito de Ormuz, o que ajudou a conter a alta do petróleo nos mercados.

(Com The New York Times)