No 'BBB 26', Tia Milena troca carisma por arrogância e falta de educação
Ninguém sai igual de uma experiência como o “Big Brother Brasil”, mas, para alguns, as mudanças parecem ainda mais profundas. Na edição atual, Tia Milena é uma personagem que convida à observação. Psicólogos mais atentos provavelmente encontrariam ali um campo fértil: suas ações, reações e movimentos dizem bastante.
A participante entrou tímida, pouco à vontade até para receber um abraço, e foi ganhando segurança. Há algo de interessante nesse desabrochar. De uma inibição quase comovente, passou, no entanto, a flertar com um tipo de autoconfiança que, às vezes, ultrapassa limites, aqueles que separam o próprio espaço do espaço do outro. A figura carismática e peculiar dos primeiros dias deu lugar a alguém que parece insuportável.
Ainda que muitos defendam seu papel como peça-chave para o entretenimento, cabe a pergunta: em que momento o que diverte começa a constranger? Essa linha, quase sempre sutil, parece ter sido cruzada mais de uma vez. Ou, ao menos, parte de quem assiste tem percebido assim.
Entre suas manifestações mais recentes, está um show de escatologia que arranca risos de alguns, mas no fundo é deprimente. Não satisfeita em soltar gases propositalmente na cara do rival Jonas, repetiu o ato tempos depois e, ao ouvir uma reclamação do rapaz, enfatizou: “Não o respeito’’. Ainda dirigindo-se a ele, citou o nome do filho do cara, comparou a mãe dele a Xuxa (com uma intenção claramente depreciativa) e se referiu ao brother como um velho: “Um homem de 40 anos que fica andando de cueca pela casa’’. Chama atenção, aliás, como uma geração que ainda está nos 20 anos recorre com tanta facilidade a argumentos etaristas. O tempo costuma reposicionar esse tipo de discurso.
Por agora, uma percepção se impõe: a torcida usa dois pesos e duas medidas a depender de quem age de modo questionável no “BBB 26’’. Tia Milena foi a primeira a criticar Alberto pelo fato de ele citar o pai doente de Ana Paula dentro do jogo. Semanas depois, estava ela mesma dando uma declaração infeliz sobre a enteada de Cowboy: “Graças a Deus, a criança não tem o sangue dele’’. Ainda que você não goste do jogo do mineiro, há de concordar que a fala dela está longe de ser inofensiva, muito menos ingênua.
Dentro da casa mais vigiada do Brasil, tudo é potencializado. Não acredito que, necessariamente, um confinado vá reproduzir aqui fora atitudes extremadas que pratica lá dentro. Como qualquer um, Milena não é cem por cento má e também não é a boazinha. Como nós lidaríamos com nossos piores lados numa situação de extrema pressão como é o “BBB”? Ponderações feitas, não dá para bater palma para uma pessoa que confunde adversário com inimigo. Milena não tem o mínimo de “fair play”, demonstra falta de maturidade quando discute com um oponente em plena festa, na frente de um convidado. Aconteceu mais de uma vez.
A força que ganhou por estar colada a Ana Paula Renault, considerada a favorita da edição, fez Milena se perder numa soberba cega. E perigosa. A babá de traços leves floresceu diante das câmeras. Mas o que mais chama atenção, agora, são os espinhos. Eles aparecem nas palavras, nos gestos, na forma como os conflitos se desenham. E, embora atinjam os outros, não deixam de dizer algo sobre quem os carrega. E sobre o tipo de comportamento que seguimos dispostos a tolerar.
Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br
