No 'BBB 26', Ana Paula Renault é jogadora, sim; já exemplo a ser seguido, nem tanto

 

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Num mundo cada vez mais dominado pelo fanatismo, discordar virou quase uma afronta. Ter e sustentar um olhar crítico dá trabalho, exige disposição para ir contra a corrente e conviver com o incômodo de não pertencer ao coro. No “Big Brother Brasil 26”, a trajetória de Ana Paula Renault escancara esse comportamento: mais do que uma jogadora forte, ela se transformou em símbolo intocável para parte do público. Questioná-la virou quase um pecado, é mais confortável estipular simplesmente um lado certo e um errado.

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O programa ainda está no ar, mas, a não ser que uma reviravolta improvável aconteça, é nítido que Ana Paula caminha para a vitória. E merecidamente. Não por ser absolutamente brilhante, como parte das redes sociais insiste em pintar, mas porque seus adversários, em sua maioria, não conseguiram rivalizar à altura. Desde o início, a mineira conduz o jogo com relativa tranquilidade, sem grandes ameaças.

O que mais chama atenção, no entanto, é a necessidade de transformá-la em exemplo incontestável de como agir e encarar a vida. No confinamento, ela já provou, sim, qualidades: demonstra consciência de classe e, num país onde as elites frequentemente ignoram a desigualdade social, isso não é pouco. Ainda assim, para alguém com acesso à educação e à informação, muito do que ela verbaliza está longe de ser extraordinário, é o mínimo esperado.

A questão é que seu comportamento, visto por muitos como um farol a guiar especialmente as mulheres, raramente admite ressalvas. Onde há quem enxergue apenas autoconfiança e coragem, há também momentos de arrogância e autocentrismo, mas apontá-los parece quase proibido. No episódio em que se recusou a usar o vestido para uma festa, por exemplo, muita gente celebrou a firmeza de uma mulher que não se submete. Já outros viram ali falta de respeito com a produção e com a equipe envolvida, uma leitura que rapidamente foi soterrada. O mesmo se repetiu quando o apresentador Tadeu Schmidt foi criticado por chamar a atenção dela durante o último sincerão. Se há regras, elas deveriam valer para todos, e só ela reclamou na ocasião. Tadeu cumpriu o seu papel.

Fiquei pensando se essa lógica não extrapolaria o reality. Talvez as mesmas pessoas que hoje relativizam qualquer atitude de Ana Paula, amanhã se incomodem com um professor que imponha limites a um aluno em sala de aula. O estudante pode se exceder; já se o professor levantar a voz exercendo sua autoridade, vai arrumar um problemão.

Nada disso apaga o fato de que Ana Paula é uma jogadora competente. Leal aos aliados, de cara entendeu a importância de estabelecer conexões dentro do jogo. Mas essa lealdade não impede que, do outro lado, adote uma postura muitas vezes execrável: não mede palavras para desestabilizar ou até humilhar adversários.

O que incomoda é a necessidade de colocá-la num pedestal, de aplaudi-la sem reservas, de transformar qualquer atitude em virtude, inclusive aquelas que, em qualquer outro contexto, seriam alvo de crítica. Isso não diz só sobre ela, mas sobre nós. Sobre o quanto seguimos carentes, não dispostos a encarar e aprender com contradições, tendo que eleger heróis e vilões.

Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br