No ar em ‘Três Graças’, Eduardo Moscovis diz viver sua melhor fase aos 57 anos após retomar autocuidado e perder 15 kg
No ar em “Três Graças” como o misterioso Rogério, o marido da vilã Arminda (Grazi Massafera) que foi dado como morto e ressurgiu disposto a fazer justiça e desmantelar um esquema criminoso, Eduardo Moscovis divide a rotina intensa de gravações da novela com o monólogo “O motociclista no globo da morte”. O espetáculo, que passou pelo Rio no ano passado e agora está em cartaz em São Paulo, apresenta o ator como um homem bastante racional que, durante um almoço banal num bar, acaba envolvido numa situação violenta. Foi no Teatro Vivo, na capital paulista — onde se apresenta atualmente aos fins de semana — que Moscovis posou à vontade para esta edição da Canal, revelando um pouco de sua rotina nos bastidores. Ali, entre o camarim, a coxia e o palco, ele se sente completamente em casa.
O que acontece com Viviane e Leonardo após a prisão dela em ‘Três Graças’?
Galerias Relacionadas
— O teatro, de fato, foi minha primeira casa. Comecei no fim dos anos 80, no Rio, na Casa de Ensaio do Humaitá, que nem existe mais. Depois fui fazer aulas no Tablado e participei de uma montagem de “Os doze trabalhos de Hércules”, em 1989. Foi após esse espetáculo que me convidaram para a Oficina de Atores da Globo e estreei em “Pedra sobre pedra” (1992). De lá para cá, nunca deixei o palco. Venho costurando minha história na TV com o teatro, sempre tentando conciliar os dois — relembra Moscovis, numa conversa de mais de uma hora por telefone.
Em ‘Três Graças’, Paulinho bate de frente com Ferette ao investigar esquema criminoso
Rogério (Eduardo Moscovis) e Ferette (Murilo Benício) em "Três Graças"
Estevam Avellar/Rede Globo
Na novela das nove, Moscovis reencontra Aguinaldo Silva, que assina a atual trama com Virgílio Silva e Zé Dassilva. A parceria entre ator e autor atravessa décadas: depois de “Pedra sobre pedra”, eles voltaram a trabalhar juntos em “Senhora do destino” (2004) e “O Sétimo Guardião” (2018).
Adriana Esteves e Eduardo Moscovis em cena da novela 'O Cravo e a Rosa'
Rede Globo/Divulgação
Esse percurso ajuda a dimensionar uma carreira que hoje já soma quase 40 trabalhos na TV, entre novelas, minisséries e séries. Foi ainda nos anos 90 que Moscovis consolidou seu nome na teledramaturgia, transitando entre os papéis de galãs e tipos de perfis variados. No início de sua trajetória, emendou muitas novelas e marcou o público com o Nando, de “Por Amor” (1997); o Carlão, do remake “Pecado capital” (1998); o Petruchio, de “O Cravo e a Rosa” (2000); e o Rafael, de “Alma gêmea” (2005), só para citar alguns dos seus principais personagens.
Rafael (Eduardo Moscovis) e Cristina (Flávia Alessandra) na novela 'Alma gêmea'
João Miguel Júnior/Rede Globo
Foi após “Alma gêmea”, novela já reprisada duas vezes no “Vale a pena ver de novo” e ainda no antigo Canal Viva, que Moscovis optou por se afastar dos folhetins e passou a se dedicar mais às séries, como “Louco por elas”, que ficou no ar na Globo entre 2012 e 2013. O retorno às novelas só aconteceria dez anos depois, em 2015, com “A regra do jogo”.
— Quando terminei “Alma gêmea”, decidi não renovar contrato como estratégia de carreira. Queria mais autonomia nas minhas escolhas. Abri mão de um fixo, de uma segurança, para ter liberdade — diz ele, fazendo uma pausa antes de completar: — Eu vinha numa sequência intensa de trabalhos e já sentia que dominava aquelas ferramentas. Queria encontrar outras coisas mesmo.
Rogério (Eduardo Moscovis) conta a Zenilda (Andréia Horta) em 'Três Graças'
Beatriz Damy/Rede Globo
Em 2008, numa época em que quase ninguém abria mão do contrato com a Globo, Moscovis atuou na série “Alice”, da HBO, ao lado de uma então novata Andréia Horta, que, curiosamente, hoje é sua parceira de cena em “Três Graças”.
— A vida e a carreira têm dessas curvas curiosas. Andréia é uma queridona, estava começando naquele momento. E a gente nunca mais tinha se encontrado profissionalmente… até agora!
Eduardo Moscovis posa nos bastidores do teatro Vivo, em São Paulo
Sergio Santoian/Divulgação
Na novela, além de ter sido enganado pela mulher, Rogério foi traído pelo melhor amigo, Ferette (Murilo Benício), que se envolveu com a vilã. Ao que tudo indica, o personagem deve se aproximar cada vez mais de Zenilda, ex-mulher do empresário, vivida por Andréia. Moscovis, porém, afirma que ainda não sabe qual será o rumo da relação.
— Eu, de verdade, não sei se eles ficam juntos. Existe uma indicação lógica: o Rogério combina muito mais com a Zenilda. Mas ele não tem um desespero afetivo. É um cara interessante, do bem. Eu me identifico bastante com ele. É um personagem próximo de mim, que acaba servindo como referência — afirma o ator, satisfeito com a curva dramática vivida por ele na ficção: — Rogério desaparece depois de sofrer uma dupla traição e reaparece muito tempo depois, dado como morto. É um homem bem-resolvido, mas carrega uma dor.
Eduardo Moscovis posa nos bastidores do teatro Vivo, em São Paulo
Sergio Santoian/Divulgação
Quando a pergunta é sobre como lida com traições na vida real, seja num relacionamento amoroso ou numa amizade, o ator prefere abordar o tema de maneira mais ampla:
— Tudo depende dos acordos entre as pessoas. Às vezes, numa puxada de tapete, você também vacilou em algum ponto. As coisas não são tão simples. E, se um amigo te sacaneia, talvez não fosse tão amigo assim. Ou então você se enganou muito. Na novela, os autores desenham Rogério e Arminda como um casal que sustentava uma aparência. Na minha opinião, quem está dentro da relação sabe quando algo não vai bem. No caso do Rogério, a traição em si não foi uma surpresa.
Raul (Paulo Mendes) e Rogério (Eduardo Moscovis) em "Três Graças": filho reencontra o pai que acreditava estar morto
Fábio Rocha/Rede Globo/Divulgação
Antes da longa ausência, Rogério tinha um forte vínculo com o filho, Raul (Paulo Mendes), que enfrentou uma fase turbulenta e se afundou nas drogas ao acreditar que o pai estava morto. Ao analisar essa trama, Moscovis destaca:
— O Rogério se culpa por essa ausência. Essa é uma das razões que o fazem voltar, junto com o senso de justiça.
Eduardo Moscovis com a mãe e os filhos
reprodução/ instagram
Fora da ficção, o ator vive uma paternidade totalmente presente. Ele é pai de Gabriela, de 27 anos, e Sofia, de 25, do casamento com a diretora de TV Roberta Richard, e de Manuela, de 18, e Rodrigo, de 14, da união com a nutricionista e jornalista Cynthia Howlett. Durante a entrevista, o ator fala com bastante orgulho da relação que mantém com os quatro jovens.
— Sou muito fã da maneira como eles constroem os laços entre si. Estamos sempre muito próximos. Para o Digo, que é o mais novo, as irmãs têm um papel enorme. Sou muito feliz com meus filhos.
Eduardo Moscovis posa nos bastidores do teatro Vivo, em São Paulo
Sergio Santoian/Divulgação
Apesar da diferença de idade entre os quatro, Moscovis celebra a troca constante entre a família:
— Lembro do meu pai quando era mais novo do que eu sou hoje, e ele já parecia um senhor. Era outra época. Minha relação com meus filhos é mais direta. Existe, claro, um salto geracional entre mim e as meninas, e entre as duas mais velhas e a Manu. Mas aprendo muito com elas. Às vezes, levo até umas chamadas. Por exemplo, eu resistia a ter rede social. Hoje, cuido do meu próprio Instagram depois que elas passaram um tempão dizendo que eu precisava assumir a conta. Tinha até um perfil se passando por mim, escrevendo em primeira pessoa. Conseguimos denunciar.
Raul (Paulo Mendes), Joélly (Alana Cabral), Gerluce (Sophie Charlotte) e Rogério (Eduardo Moscovis) em "Três Graças"
Fábio Rocha/Rede Globo
Ao falar sobre como projeta a chegada aos 60, o ator encara o tempo com leveza.
— Você escolhe se vai achar isso engraçado ou triste. Eu agradeço por estar aqui, com saúde, trabalhando. Sou um cara muito melhor hoje do que era há 15 anos. Agora consigo estar muito mais atento ao meu lado emocional e ao meu lado físico — afirma.
Rogério (Eduardo Moscovis) em "Três Graças"
Gabriel Vaguel/Rede Globo/Divulgação
Por conta da correria do dia a dia e dos múltiplos compromissos de trabalho, ele admite que deixou o autocuidado em segundo plano por mais tempo do que gostaria.
— Você acaba entrando numa rotina e, quando percebe, está há dois ou três anos se alimentando mal, já não faz atividade física de forma frequente, não dorme bem, não senta para comer...
Eduardo Moscovis com as filhas Gabriela e Sofia Richard
Reprodução/Instagram
Esse descuido com a própria rotina mudou no ano passado, quando ele repensou a forma como vinha vivendo. Antes de gravar a série “Fúria”, da Netflix, dirigida por José Henrique Fonseca e ainda sem data de estreia, Moscovis decidiu perder peso para o papel. Emagreceu 15 quilos para viver um ex-campeão de MMA que comanda uma academia.
— Eu questiono muito essa ideia de “physique du rôle” (a aparência considerada ideal para um determinado personagem). Poderia fazer um ex-lutador fora de forma. Mas enxerguei ali uma oportunidade e resolvi aproveitar. Passei por uma reeducação não só alimentar, mas de toda uma rotina. Para a série, fiz treinos de luta e exercícios aeróbicos, além de acompanhamento com nutricionista. Foi um momento de alinhar tudo de novo.
O ator Eduardo Moscovis
Leo Aversa
Agora em março, ele completa um ano sem ingerir bebidas alcoólicas, uma decisão que começou sem grandes planos.
— Eu já estava ensaiando o monólogo, no meio da preparação para a série e, numa segunda-feira, pensei: “Vou ficar sem beber até o fim de semana”. E fui prolongando. Nesse processo, percebi o quanto o consumo frequente faz mal, mas não foi algo premeditado. Nunca tive problema de dependência ou de passar do limite. Foi mais um ganho dentro dessa reeducação. Minha parte cognitiva melhorou muito, tenho mais disposição para estar com meus quatro filhos. Também tenho uma mãe de 93 anos. Hoje sinto que tenho outra disponibilidade para lidar com tudo.
Eduardo Moscovis
Julia Aguiar
Ele admite que a decisão ainda causa estranhamento em algumas pessoas ao redor.
— Tem gente que se incomoda. Ouço muito: “É sério? Você nunca mais vai beber?”.
Discreto ao falar sobre a vida sentimental, Moscovis conta que namora há quatro anos uma mulher de São Paulo, mas prefere não revelar o nome dela por se tratar de uma pessoa anônima.
— Como ela não é do meio artístico, tenho esse cuidado — justifica.
Initial plugin text
