No ar em 'Coração acelerado', Gabz comenta relação com a música sertaneja e fala sobre autoestima e família
Gabz vive, aos 27 anos, a terceira protagonista da carreira em “Coração Acelerado”, atual trama das 19h da TV Globo. Para dar vida a Duda, a atriz buscou referências que revelam a própria identidade como artista urbana. O ponto de partida foi o hip-hop, gênero que, para ela, serve como ponte para compreender a música sertaneja tradicional:
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— O hip-hop me ensinou através do sample (técnica em que o trecho de uma música existente é usado em outra composição). A filosofia deste gênero musical bebe muito da visitação da história para se expressar. Isso me deu um ouvido muito forte para identificar o que é um bom sample, e o nosso sertanejo é recheado deles. Visitar o sertanejo me permitiu acessar a história da minha própria família. O lado materno da minha avó veio de Minas Gerais. O sertanejo toca a gente e nos transporta para uma saudade de algo que não vivemos. O aspecto mais divertido na composição desta novela foi entender um pouco mais da história do país e da nossa história também.
Na trama, Duda erra, falha com quem ama e lida com as consequências das escolhas. A atriz avalia que essa humanização reflete as demandas de um público cansado de uma “bondade incansável e plástica”. Ela alerta, no entanto, que “o direito ao erro” carrega um peso social e racial desproporcional na realidade brasileira:
— Pessoas na posição da Duda, com a cor de pele dela e da realidade de onde ela veio, têm pouquíssimas chances de errar e seguir em frente. Geralmente, os erros são determinantes e punitivos. Mostrar esta menina que foi abandonada pelo pai e pela mãe, que se fez sozinha, mas que tem a oportunidade de ter uma segunda ou terceira chance, é algo que precisamos valorizar. Ela errou, mas não é apenas o seu erro. Na vida real, também somos cobrados pelos deslizes, porém precisamos ser fortes para aprender e continuar.
Se, na ficção, a solidão e o abandono ditam os passos de Duda, a realidade de Gabz caminha na direção oposta. A artista descreve o núcleo familiar como uma base sólida, presente e essencial para sua estrutura emocional:
— Meu sonho é coletivo. Cheguei até aqui com o apoio dos meus pais. Sei que a minha família é uma exceção em vários aspectos no Brasil, onde o abandono paternal é uma realidade fortíssima e silenciosa. Fazer a Duda me permitiu observar de perto essas histórias de autonomia emocional e financeira que acontecem ao meu redor. Muitas pessoas no nosso país precisam se criar sozinhas e desenvolver uma independência precoce para não olhar para a dor e apenas seguir em frente.
Essa estrutura de apoio se estende ao campo afetivo. Ao comentar a vida pessoal, a atriz detalha como o romance com o ator Jaffar Bambirra funciona como um pilar essencial diante da rotina intensa de gravação:
— Nosso relacionamento é de muito suporte. Conversamos demais e trocamos muito sobre as nossas trajetórias. Ele entende o cansaço e a entrega que a atuação exige, este processo físico de tentar pegar um corpo novo para o papel. Tenho, ao meu lado, alguém que me compreende, dá suporte e oferece acolhimento no meio de uma rotina tão intensa. Aprendi que, para poder ser outra pessoa em cena, preciso primeiro estar sendo eu mesma. Jaffar e minha família me dão a estabilidade necessária para que eu seja uma pessoa feliz no meu trabalho.
Gabz nasceu em Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro, e diz carregar marcas de uma infância marcada pelo racismo estrutural. Aos 15 anos, ela decidiu passar pela transição capilar e abandonar os alisamentos químicos, que utilizava por medo e rejeição aos próprios fios:
— Alisava o cabelo por um processo de auto-ódio. Tinha medo de ver o meu cabelo natural, e não saía de casa se não estivesse liso. A transição foi o início de uma nova forma de lidar comigo mesma. Hoje, me sinto livre após tantas transformações para personagens. O mercado tenta aprisionar a nossa autoestima para vender a solução, mas a relação da pessoa negra com a imagem é mais profunda do que uma tendência estética: vem de um processo histórico violento. Gosto de experimentar tranças e laces, como fizemos com a Duda na fase dos shows, porém fiz questão de que ela voltasse ao cabelo natural curto. Não quero que ela, nem eu, sejamos escravas de nenhum padrão — afirma.
Gabz aprofunda a reflexão ao enfatizar que o peso do preconceito recai de forma mais intensa sobre as mulheres:
— Enquanto mulher negra, sei que o meu corpo sempre será um corpo de luta. Porém, ser um corpo de luta não quer dizer ser apenas um corpo de combate e de dor. Meu corpo é um corpo de vida. É um corpo de uma pessoa se expressando e se entendendo.
Segundo Gabz, a verdadeira autoestima está ligada à ancestralidade e ao reconhecimento da humanidade. A atriz revela uma relação de carinho e aceitação com o espelho, que vai além das exigências da fama:
— Às vezes, gosto de me sentir, me provocar e saber como vou me sentir: sexy, poderosa ou amável com o cabelo deste jeito. Gosto de fazer estas provocações porque, como mulher negra no Brasil, é muito fácil me colocar em um padrão para ser considerada bonita pelo olhar do outro. Esperam um estereótipo da gostosona e da malhadona, mas há tantas expressões estéticas fortes. Gosto de associar a minha beleza ao bem-estar, à saúde e à expressão da minha liberdade.
A ascensão profissional também permitiu que a atriz colocasse em prática o que avalia ser seu conceito de prosperidade coletiva:
— Hoje, consigo ser a tia que paga o teatro e permite que a sobrinha sonhe em seguir o caminho que quiser. A prosperidade só faz sentido se for coletiva e compartilhada. Fazer arte e poder mudar a realidade financeira da minha família é um sonho realizado, mas também um lembrete constante de que precisamos combater a desigualdade social do nosso país — analisa.
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Essa postura política se estende ao debate sobre a diversidade na televisão. Embora celebre ver mais mulheres negras protagonizando e ocupando espaços de poder, a atriz ressalta:
— A representatividade é uma temática coletiva, uma questão de toda a sociedade. Os profissionais brancos (atores, diretores, roteiristas) também precisam ser questionados. Nós, artistas negros, somos sempre os únicos cobrados a falar sobre representatividade. Mas a mudança real só acontece quando a branquitude também refletir sobre seu papel e mudar no seu íntimo. Quero ver o que os outros profissionais pensam e como se posicionam diante disso.
Gabz e Jaffar Bambirra namoram desde 2024, quando se conheceram nos bastidores da novela "Mania de Você" (2024), que foi protagonizada pela atriz
Reprodução/Instagram
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