‘Ninguém mais pode se dar ao luxo de dizer que não usa IA’, diz especialista
Estudo do Instituto Stanford para IA Centrada no Ser Humano (HAI) indica que a inteligência artificial alcançou 53% de adoção global em apenas três anos, chegando a 88% no ambiente organizacional. É provavelmente a tecnologia recente de mais rápida assimilação — mais que o computador pessoal e a internet. Uma mudança que encurta o tempo de aprendizado, acelera a transformação do mercado de trabalho, coloca a qualificação em IA como requisito básico e ajuda a explicar a confusão que marcou o início do ano: enquanto analistas de instituições de renome, como Goldman Sachs e Gartner, questionavam o real impacto das aplicações nas demissões, empresas anunciavam cortes de milhares de empregos.
O cenário apontado pelo estudo da HAI e por outros analistas é de uma adaptação que pode ser difícil, mas traz oportunidades e desdobramentos até inusitados. Alguns exemplos: graduandos de ciência da computação estão tendo dificuldade para entrar no mercado de trabalho; a ênfase na capacidade analítica e em habilidades comportamentais abre espaço para profissionais experientes que costumavam ser expulsos por novas tecnologias; terceirização, quarteirização e pejotização fragilizam algumas das maiores preocupações da era da IA: segurança e rastreabilidade.
— Os benefícios da inteligência artificial têm se mostrado muito mais proveitosos para aqueles que já possuem experiência em diversas áreas, o que faz com que a entrada de novos profissionais seja enfraquecida, uma vez que são essas posições que estão sendo substituídas pela inteligência artificial. E esse é um fenômeno mundial. Não está restrito apenas ao Brasil — afirma Marcelo Finger, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador principal do USP-Fapesp-IBM Centro de Inteligência Artificial (C4AI).
Mudanças
O paradoxo se torna mais evidente quando observado sob a ótica da qualificação. O Brasil, por exemplo, já é o segundo país da OCDE com maior número de bacharéis em tecnologia da informação: foram mais de 80 mil formados em 2023, atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com o LinkedIn, a contratação de desenvolvedores está no nível mais baixo desde 2017. Ainda que todas as oportunidades abertas fossem preenchidas por recém-formados, apenas um em cada três conseguiria uma vaga.
— Mais do que substituir empregos, o que observamos é uma mudança na natureza do trabalho — diz Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina.
Segundo ele, vagas que exigem letramento em IA crescem de forma consistente, ao mesmo tempo em que habilidades humanas ganham peso. Comunicação, pensamento crítico, adaptabilidade e resolução de problemas aparecem como diferenciais para vagas como a de analista forense de IA, a segunda área com maior crescimento de postos, segundo o LinkedIn.
Estudos da rede social corporativa, do HAI e da KPMG mostram, porém, falta de velocidade na adaptação dos profissionais. Entre os alunos, o uso de inteligência artificial nos estudos universitários saltou de 52% para 84% entre 2023 e 2025, mas eles delegam majoritariamente tarefas complexas, como criação (39,8%) e análise (30,2%), segundo o HAI. Ou seja, não estão desenvolvendo as funções cognitivas mais essenciais nesse novo momento.
A consequência tem aparecido com o uso ineficiente da tecnologia. Em podcast disponível no site do Gartner Group, Alicia Mullery, vice-presidente e analista da empresa, chama atenção para o fenômeno “work slop” — produção em larga escala, mas de baixa qualidade, quando a IA é utilizada sem objetivos claros.
Segundo ela, o fenômeno ajuda a explicar o crescimento de novas funções ligadas à curadoria e à validação de dados, como anotadores e analistas especializados.
— Cada ocorrência pode demandar cerca de duas horas adicionais de revisão e correção — declara.
As instituições de ensino correm para adaptar o ensino tradicional ao novo mercado. Mais de 90% dos países já oferecem ciência da computação no ensino fundamental e médio. Para Alexandre Evsukoff, professor da Coppe/UFRJ, o Brasil tem uma base relevante, mas precisa acelerar a adaptação.
— Já há cursos de graduação em IA, em geral com ênfase em ciência da computação, e iniciativas de pós-graduação buscam formar profissionais que não tiveram essa oportunidade anteriormente — afirma.
Alta pressão
A expansão desse tipo de formação é vista como essencial para reduzir o descompasso entre oferta e demanda.
— Ninguém mais pode se dar ao luxo de dizer que não utiliza IA — diz Marcos Blasi, sócio de Propriedade Intelectual, Tecnologia e Proteção de Dados do Lobo de Rizzo Advogados.
Segundo ele, o movimento coloca pressão também sobre as empresas, que precisam disciplinar uso e capacitar os colaboradores. Além disso, tem implicações diretas sobre o modelo de trabalho, inclusive com a revisão de práticas como terceirização e quarteirização em setores mais sensíveis.
— Ideal no ambiente corporativo é que tenha algum tipo de monitoramento. Negar, ir na linha proibitiva, é ineficaz — afirma, frisando a necessidade de controles, inclusive contratuais. — Nossa recomendação é de que as empresas não quarteirizem, não terceirizem o que é core business. Isso está acontecendo, por exemplo, em setores mais regulados, como saúde e financeiro.
Perguntado sobre como usa a inteligência artificial, Blasi responde que sempre monta seu modelo mental primeiro.
— Para a IA entregar algo bom, você precisa fazer as perguntas corretas, tem que ter visão holística, filosófica. Ela pode te entregar um contrato perfeito, mas não vai saber dizer por que cada cláusula está lá.
