“Oi-oi!” Nicole Kidman exclama, como se estivesse recitando um alegre chamado para acordar. Ela é a mais recente a participar de uma chamada de vídeo matinal que também inclui Sandra Bullock, Joey King e Maisie Williams, as estrelas de "Da magia à sedução: feitiço de amor". A sessão começa de forma caótica enquanto elas conversam sobre suas atividades recentes: Kidman acaba de voltar de uma agradável caminhada. Bullock está cuidando de seu cachorro, que está com pancreatite. King passou a noite anterior ajudando sua mãe a se recuperar de uma cirurgia dentária. Williams está experimentando uma nova rotina com retinol. No entanto, Kidman brinca, é hora do “café da manhã com as bruxas”. Nicole Kidman e Sandra Bullock SELA SHILONI / The New York Times No filme de 1998, ela e Bullock (anos antes de vencerem o Oscar) interpretaram Gillian e Sally Owens, as irmãs bruxas cuja família é afligida por uma maldição geracional que mata qualquer homem que elas amem. O filme, que misturava gêneros, foi amplamente ridicularizado pela crítica. A crítica do "New York Times" o descreveu como "Barbie entra para um clã de bruxas" e "um filme superficial e fútil". No entanto, nas décadas seguintes, a história conquistou uma base de fãs apaixonada que abrange várias gerações. Agora, Bullock, de 62 anos, e Kidman, de 59, reprisaram seus papéis em "Da magia à sedução: feitiço de amor", a sequência que estreia aos cinemas nesta quinta-feira. Dirigido por Susanne Bier, o filme é inspirado no quarto livro da série "Practical Magic", de Alice Hoffman, e traz King, de 27 anos, e Williams, de 29, interpretando as filhas de Sally, Kylie e Antonia (no primeiro filme, interpretadas por Evan Rachel Wood e Alexandra Artrip). Desta vez, as mulheres da família Owens — incluindo as sábias tias-avós (Stockard Channing e Dianne Wiest) — tentam quebrar a maldição da família de uma vez por todas depois que o namorado de Kylie se envolve em um trágico acidente. “Detesto o termo ‘filme de mulherzinha’, e eles vão dizer: ‘Ah, é um filme de mulherzinha’”, disse Bullock. “Mas o matriarcado, seja por sangue ou por amor, nunca foi valorizado na medida em que deveria.” Estes são trechos editados da animada conversa entre as estrelas. Como vocês reagiram quando souberam da possibilidade de uma sequência? SANDRA BULLOCK: Bem, nós é que fizemos a sequência acontecer. Ninguém nos disse para fazer. Nós é que empurramos aquela pedra morro acima. NICOLE KIDMAN: Mas acho que a ideia sempre esteve ali, fermentando, não é, Sandy? Tipo, por anos? BULLOCK: Não, para mim não. Não estava nem um pouco no meu radar. Olha, quando o filme foi lançado, a recepção foi... ninguém estava preparado para aquilo. Então, eu nem imaginava isso. Depois, ao longo das décadas, percebemos que a história ressoava com um público que acabou se conectando em torno dela. Nunca, em um milhão de anos, pensei que faríamos uma sequência ou que eu gostaria de fazê-la. Eu pensava: "Meu Deus, por que repetiríamos aquilo?" Fomos massacradas pela crítica. Depois, o mundo mudou, e a conversa mudou. Quando vocês começaram a notar essa valorização? BULLOCK: Joey, Maisie, vocês querem responder? JOEY KING: Isso é sobre o "P.M. 1". KIDMAN: "P.M." soa como "pré-menstrual". [Todas riem] BULLOCK: E nós estávamos mesmo! Houve dias perigosos com todas aquelas mulheres. Joey King e Maisie Williams SELA SHILONI / The New York Times KING: Eu vi o filme pela primeira vez quando tinha 10 anos, em DVD, na minivan da minha mãe. Isso foi 11 anos depois do lançamento, mas falava-se tanto dele, quase como se tivesse acabado de estrear. Era um dos filmes favoritos da minha mãe. Era um dos favoritos da minha irmã mais velha. Minha avó adorava esse filme. É uma prova da segunda, terceira, quarta vida que esse filme teve. MAISIE WILLIAMS: Eu assisti com minha irmã na casa da minha mãe quando era criança. Eu não era do tipo que reassistia muito. Desculpem, meninas. Mas sempre apareciam imagens do filme em apresentações de moda ou nos meus próprios murais de inspiração. A estética do primeiro filme sempre foi muito inspiradora. Vocês tiveram medo de mexer com algo que se tornou tão querido do público? BULLOCK: Queríamos honrar o primeiro filme, mas fazer com que o segundo se sustente por conta própria para quem nunca viu o original. A Alice escreveu um livro repleto de narrativas metafóricas. Ele traça um paralelo real com o que está acontecendo no nosso mundo agora. Desta vez, pudemos abordar coisas que deixavam todo mundo um pouco receoso na primeira vez. Como o quê? BULLOCK: Tínhamos muitos tons diferentes [no primeiro filme], e um deles era o de um relacionamento abusivo. As pessoas tinham muito medo. Elas diziam: "Vamos deixar isso mais leve e divertido". Tivemos uma sessão de teste que foi um desastre porque o filme estava muito sombrio, e tivemos que suavizar. O público não estava preparado para aquilo. Nesta sequência, a orientação foi quase: "Vá o mais fundo possível". É preciso abraçar o horror para tornar a felicidade ainda mais bela. Sandra e Nicole, vocês se lembram de como se conheceram? BULLOCK: Não. De alguma forma, não houve um encontro formal; simplesmente fizemos um filme juntas e criamos um vínculo. KIDMAN: Nós nos conhecemos há muitas vidas. BULLOCK: Lembro-me da conversa com a Denise [Di Novi, produtora] e o Griffin [Dunne, diretor do primeiro filme]; nós pensávamos: "Será que conseguiríamos a Nicole Kidman?". Porque acho que você ainda estava filmando "De olhos bem fechados". E então, "puff", estávamos juntas no set. KIDMAN: É mágica. Lembro-me de ter me divertido muito, porque parece que festejamos um pouco durante aquele filme. Teve a dança de salsa. Teve a festa na minha casa. BULLOCK: Você não pode dizer que curtiu a balada de salsa. KIDMAN: [Risos] Eu não curti. Eu fiquei só te observando! BULLOCK: Ela ficou sentada num canto. KIDMAN: A gente precisa repetir isso em algum momento. KING: Eu e a Sandy podemos combinar de ir a umas casas noturnas. Conheço uma casa latina ótima em Los Angeles de que adoro. WILLIAMS: Vamos nessa! BULLOCK: Isso foi antes de termos filhos. Foi antes dos celulares com câmera também. BULLOCK: Graças a Deus. As coisas que eu fazia e saía ilesa... meu Deus. Lembro quando surgiu o primeiro celular de abrir com câmera; pensei: "Isso não pode ser legal. Ninguém tem permissão de simplesmente filmar você". KING: Hoje em dia, as pessoas usam aqueles óculos [palavrão]. BULLOCK: Os óculos da Meta! Fala sério. Tenho um filho que consegue identificá-los de longe. Eu penso: "Vou levar você a todo lugar comigo". Quais representações de bruxas e magia na cultura pop ressoaram em você pela primeira vez? BULLOCK: Eu não gosto da palavra com "B" [de bruxa]. WILLIAMS: Isso é interessante, Sandra, porque as conotações que tenho para a palavra "bruxa" são muito positivas. Ao longo da história, quando mulheres foram acusadas de ser bruxas, geralmente eram mulheres muito poderosas que representavam uma ameaça ao patriarcado. Hoje em dia, esse termo se tornou algo quase fascinante para mim e minhas amigas. Dá a sensação de que você está no caminho certo e fazendo algo que tem uma conexão cármica com as mulheres ao seu redor. Sinto orgulho de ter esse lado meio bruxa e do poder que isso traz. KING: Caramba! BULLOCK: Fui criada por mulheres incrivelmente poderosas e à frente de seu tempo, mas elas precisavam manter as coisas em segredo. Ainda carrego um pouco disso comigo. Será que devo dizer isso? Será que não devo? Não levanto essa bandeira com tanta coragem quanto a Maisie, mas espero viver isso através do exemplo. Minha filha não tem medo de nada, o que me deixa morrendo de medo. Ela nasceu assim e talvez uma pequena parte disso se deva ao fato de eu criá-la para continuar sendo essa pessoa e não deixar sua luz se apagar. Espero que cada geração tenha um pouco mais de poder para romper com as antigas limitações. Nicole, seus olhos brilharam quando perguntei sobre magia na cultura pop. Houve algo que mexeu com você quando era criança? KIDMAN: Eu cresci assistindo "A Feiticeira" e queria ser astronauta ou bruxa. Tive que mudar de escola aos 5 anos e fiquei muito infeliz. Eu costumava sentar no pátio, comendo meu lanche, e tentava desenvolver meus poderes mágicos. BULLOCK: Consigo até imaginar essa criança! KIDMAN: Eu estava sozinha, sem amigos. Pensava: "Só preciso me concentrar e vou conseguir transformar a professora em um burro". Eu realmente comprei a ideia, achando que conseguiria; isso nasceu da solidão e da sensação de exclusão. Eu ficava pensando: "Como posso aprimorar minha magia?" Quero abordar o conceito das "margaritas da meia-noite", que são uma tradição da família Owen nos filmes. BULLOCK: Isso foi ideia do Griffin Dunne. Estamos falando de mulheres, mas também precisamos falar sobre aliados. Griffin nunca recebeu o devido reconhecimento [pelo filme original]. Como cineasta, ele acabou sendo crucificado por causa do filme, em muitos aspectos. E ninguém nunca voltou atrás para dizer: "Cara, sinto muito; o que você fez estava à frente do seu tempo". O nome dele chegou a ser cogitado para dirigir a sequência? BULLOCK: Sei que ele teria adorado, mas achamos extremamente importante trazer uma voz feminina. Não teríamos conseguido fazer o segundo filme se o Griffin não tivesse feito o primeiro e definido o tom. Poderemos ver um "Da Magia à Sedução 3"? BULLOCK: Com certeza. A história pede um terceiro filme. KIDMAN: A maior frustração foi o fato de [a sequência] não poder ser mais longa e não ter mais tramas paralelas. Havia tantos caminhos diferentes que poderíamos ter explorado. BULLOCK: O material está aí.
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Nicole Kidman e Sandra Bullock explicam por que levaram 28 anos para retomar 'Da magia à sedução': 'Eles nos destruíram'
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O Globo
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